quarta-feira, 11 de maio de 2011

Lília Cabral na série "Divã"

Na última terça feira, por um destes lapsos da vida que sou incapaz de entender como se dão, tive tempo de assistir a série "Divã", da Rede Globo. Eu já conhecia a proposta, pois assisti ao filme homônimo, e até já imaginava como seria a série. Não me surpreendi, mas isto não quer dizer que não me senti comovida... Pois me senti. Bastante.

O que me emocionou, em especial, foi a atuação de Lília Cabral. A história em si é ótima, o enredo do capítulo de terça foi super legal, a produção é excelente, o roteiro também... Enfim, tudo estava em seu lugar, tudo era muito bem feito, mas em meio a tudo isso, a maneira como Lília atuava chamou particularmente a minha atenção. 

Com apenas um sorriso e um olhar, Lília transmitiu de forma perfeita e muito tocante a essência de sua personagem, a qual identifiquei em várias mulheres "reais" que conheço. A sua expressão facial, por si só, já era uma mensagem, uma auto-descrição: "Tenho 50 anos e quero ser feliz". 

Vi na personagem Mercedes, uma divorciada recém adepta da psicanálise, a personificação de tantas mulheres brasileiras que, não obstante já não se encontrarem mais em sua "época áurea", ainda buscam na vida alguma coisa que as preencha. 


Esta imagem é uma captura de
um vídeo postado no Youtube
Lília Cabral é magistral ao compor Mercedes. O traço que considero mais característico da personagem é aquela expressão que ela quase sempre assume quando está falando com o psicanalista (vejam a foto ao lado): o sorriso resignado, o olhar brilhante porém triste, e a cabeça baixa, como se ela estivesse tentando convencer a si mesma de que não deveria estar se sentindo daquela forma... Uma expressão de "mas tudo bem". Estou mal, mas tudo bem. A vida não é tão fácil quanto parece, mas tudo bem.


Como é possível que Lília tenha tanto domínio sobre o próprio olhar? É uma atriz magnífica. Dá pra ver o brilho nos olhos de Mercedes, mas ao mesmo tempo também se nota uma grande prostração neles. É a própria essência da personagem! É o próprio sentir uma chama ardendo dentro de si, mas tentar controlá-la, como se não se tivesse o direito de ainda buscar a felicidade. Todo o tempo vemos Mercedes correndo atrás da felicidade, mas por vezes ela se retrai. E está sempre tentando se justificar, seja para si mesma, seja para o psicanalista. Parece estar sempre em dúvida: "Afinal, mereço ou não ser feliz? Tenho ou não o direito de, a esta altura da vida, experimentar coisas novas?"


Outro traço muito bem marcado é o fato de Mercedes costumar falar de si mesma de modo muito cabisbaixo, olhando para baixo, para logo em seguida levantar a cabeça e justificar-se com um sorriso. 


Esta imagem é uma captura de
um vídeo postado no Youtube
Mercedes é uma dualidade, é uma luta entre fogueira e extintor, entre sentir vontade e não julgar-se merecedora. Exatamente como tantas mulheres de sua faixa etária, no Brasil e no mundo.


Em um passado não tão distante, recomeçar a vida era uma perspectiva inconcebível para uma mulher de 40 ou 50 anos de idade. Até mesmo de 30! A esta época, o casamento, os filhos e os afazeres (domésticos ou não) eram tudo que se podia ter, e deveriam bastar. A felicidade deveria resumir-se nisto. E aquela que se atrevesse a sentir-se infeliz, mesmo tendo "tudo" isto, era ingrata. 


Pois bem... Hoje, impregnada que está na sociedade a cultura do direito de ser feliz, aos poucos as mulheres (e os homens, os jovens, os idosos, os deficientes, os homossexuais...) têm ousado lutar pelo próprio regozijo, pela realização, pela busca de algo melhor. 


Neste barco está Mercedes, embora ainda não saiba muito bem lidar com tudo isso: o hedonismo, a reivindicação da satisfação, o poder sentir sem culpa... E na verdade, é claro que não é só ela quem se sente assim. Todos estes "direitos" foram muito recentemente conferidos às pessoas. 


Quem já nasceu sob a égide deste novo jeito de ver as coisas, lida com isto muito facilmente, pois o encara de forma natural: é só o que ele conhece, desde que nasceu. Mas e quem passou a vida inteira se castrando, se reprimindo, afogando dentro da alma a vontade de batalhar por um "algo a mais" na vida? Não é tão simples esquecer os velhos preceitos, abandonar os velhos costumes e reinventar-se, partir para outra, como uma nova pessoa, uma nova mulher, um novo eu, pronto para seguir em busca do que almeja. O processo é lento, é delicado.  


Mercedes tem feito análise com um profissional para resolver-se da melhor maneira. Lília Cabral também faz. Muitas mulheres não podem contar com a ajuda de um especialista, ou simplesmente não acreditam no êxito das terapias, e assim, vão se virando como podem. Sofrendo caladas, ou desabafando. Aprendendo "na marra", ou refletindo cuidadosamente. Permitindo-se, ou não. Mantendo-se presa ao que já conhecia, ou abrindo a cabeça para novas possibilidades. E assim, seguem suas vidas... 

terça-feira, 10 de maio de 2011

Desabafo pós-sonho: a vida urge!!

"O quanto de tua existência não foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões ávidas, conversas inúteis, e quão pouco te restou do que era teu?"

"A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para alcançarmos grandes realizações.


Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se não dedicada a nenhum propósito, por fim, se não se respeita nenhum valor, se não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai"



"Alguns, sem terem dado rumo a suas vidas, são flagrados pelo destino esgotados sonolentos"


"Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida"

"Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela"

(Sêneca)
Retirado do blog  do Nicholas Gimenes




Vida difícil de se entender.

Eu deveria estar me sentindo mais tranquila e relaxada após uma temporada de descanso, mas o fato é que retornei e tudo continua igual: a mesma correria, os mesmos compromissos, os mesmos planos sendo postergados dia a dia, as mesmas providências a serem tomadas... Uma montanha de coisas a serem resolvidas. Montanha sem fim. Quanto mais resolvemos, mais coisas novas surgem. Novas e mais complicadas ainda.

A verdade é que, por mais doce que seja o sonho, ele não adoça a realidade que vem depois. Você vive um sonho intensamente, e quando ele termina, a dura realidade é aquela mesma que você deixou para trás, aquela que existia antes do sonho e que vai continuar existindo. Sempre e cada vez mais dura.

Vida estranha.

Tanto tempo em nossas mãos, e nenhum tempo livre para nada. Passo horas e horas organizando, calculando, cronometrando e planejando; enfim, otimizando o tempo, para evitar perder mais tempo, e no fim das contas, só o que tenho é tempo passado, tempo corrido, tempo perdido que não volta mais.

Vida fria.

A urgência da vida e a quantidade de problemas nos torna solidários com a falta de carinho alheia. Coisas que antigamente faziam-se essenciais hoje em dia são preteridas – as pessoas, como um todo, são preteridas, e mal podem se dar o direito de acharem ruim, pois em algum momento estiveram nesta mesma situação, tiveram que preterir alguém, deixar algo para depois, abrir mão de um sentimento ou momento especial em nome das prioridades, ah, as malditas prioridades, aquelas que existem justamente para que nós mesmos possamos existir. Os prazos, as contas a pagar, os trabalhos a fazer, as coisas a comprar. Coisas. Fundamentais. Ridículas. Eu seria capaz de viver sem elas; mas como viver sem elas uma vez que simplesmente fiz a escolha de viver?

Há algo de errado em você quando, após vários dias passados com uma pessoa, você ainda se sente culpada por não dedicar-lhe o tempo e a atenção que ela merece. A verdade é que ainda me sinto em débito e não faço idéia de quando terei tempo, dinheiro, criatividade e disposição para saldar esta dívida.

Eu me sinto culpada por me dirigir a eles somente para pedir dinheiro e dar satisfações, e quanto a isto, eles mesmo me consolam, afirmando que, afinal, suas funções são estas mesmas.

São 13h30. Tenho menos de meia hora para sentar aqui, chorar um pouquinho, escrever este texto, arrumar minha bolsa, passar protetor solar e chegar ao meu local de trabalho. Menos de meia hora para tudo isso. Tempo cronometrado para extravasar algumas emoções. Findo o tempo, engulo tudo e sigo em frente, pois uma tarde inteira de serviço me espera.

Eu deveria me sentir contente por ter pessoas tão maravilhosas em minha vida, mas na verdade, sinto-me triste por não dar a elas a devida atenção; por saber que, ao longo de uma semana inteira, não terei sequer uma horinha livre para estar com elas fazendo coisas que não me programo para fazer. Tenho data marcada na agenda para dizer que as amo, segundos determinados para dar um abraço, e sequer uma horinha livre para dar qualquer outra manifestação de afeto que esteja fora dos meus planos.

E por falar nelas... E em uma pessoa, em especial... Meu coração se partiu quando me virei para pedir um minuto de silêncio, e a vi tão compenetrada. Ela obedeceu a minha ordem, cumpriu o meu pedido com tanta naturalidade, e voltou a fazer o que fazia, totalmente absorta em suas obrigações. E eu nas minhas. Só tinha 15 minutos para fechar os olhos, e ela me atrapalhava com seu barulho. Eu poderia ter sido mais carinhosa, mais compreensiva. Mas e os meus 15 minutos? Eles acabariam em 15 minutos, e então, tudo que eu teria era uma tarde longa e exaustiva. Ela sabia disso. Sequer pestanejou. Aceitou a minha grosseria com tamanha normalidade... De certo porque já está acostumada a ser tratada assim, bem como, por vezes, provavelmente também se vê obrigada a agir da mesma forma. 

Estamos todos no mesmo barco, todos estressados, sem tempo para nada. Isto interfere em nossa personalidade,  e essa nova personalidade acaba se tornando algo muito fácil de entender e aceitar. Nosso sentimentos? Que importam? São feridos, mas isso fica pra depois. Pensar nisso, resolver isso, lidar com isso, ficam pra depois. O importante é o agora, é fazer tudo que tem que ser feito. O resto é o resto.

Vida bizarra.

É tudo tão organizado que chega a ser patético. Fazemos mil coisas para facilitar o futuro, e que acabam complicando o presente. Poupança, curso superior, concursos públicos. Tratamentos estéticos. Exercício físico. Dieta. Estudos. Declaração de imposto. Em tese, servem para nos dar qualidade de vida. Que qualidade? Perdemos tempo, sono e oportunidades fazendo tudo isso. Que tempo sobra? O que resta? Quando chegar enfim o dia de usufruirmos tudo, teremos ainda mais coisas para fazer. Burocracias. Providências. Compromissos. Contas.

Anseio pelo dia em que não precisarei mais batalhar pelo futuro. Anseio pelo dia em que o futuro será presente.

Tenho a impressão que praticamente tudo que faço hoje é em prol de um futuro mais tranquilo. Quando é que finalmente poderei usufruir de tudo pelo que tenho lutado agora?

Sei que, quando este dia chegar, certamente terei saudades da minha vida de hoje. Mas ainda assim, anseio... Porque não está fácil. Hoje em dia, dormir virou luxo. Improvisar virou luxo. Rir fora de hora virou luxo.

Vida louca!

Tenho tempo cronometrado para fazer tudo, inclusive para fazer o que eu quiser. Horário fixado para coisas não programadas. Dia e hora marcados para me sentir à vontade, fazer o que me der na telha. Minutos reservados no meio do dia para pensar na vida, ler um poema, deliciar-me com uma fruta, recordar um momento. Só alguns minutos. Acabados eles, volto à realidade. À realidade das outras coisas, igualmente programadas, porém mais urgentes.

Eu deveria estar me sentindo mais livre, mais disponível, agora que me livrei de tantas pendências, mas a verdade é que já tenho mais pendências, novas pendências, mil coisas para resolver. Até parece que uma coisa leva a outra. Cada etapa concluída leva a outra, igualmente burocrática. 

Parece fácil saber organizar o tempo, fazer planos e estabelecer metas. E é. O difícil é cumprir a agenda. Na teoria, 24 horas até parece muito. O problema é que, na realidade, o tempo não passa da maneira que a gente esperava. Às vezes passa mais rápido, ou mais devagar. Às vezes falta tempo para fazer tudo que se planejou. Mas às vezes sobra, e aí, o que fazer? Relaxar? Não dá, há muito a ser feito ainda. Adiantar algum serviço? Qual? Qual deles é mais urgente? Todos são.

Vida esquisita.

E pensar que toda essa confusão diz respeito somente aos planos que envolvem a minha própria pessoa! E as pessoas que eu amo? Onde ficam nisso? Se mal tenho tempo para mim, que dirá para elas! O que é mais importante? Quem é mais importante? O que devo fazer primeiro? 

Simples dedicatórias de tempo e carinho parecem ser sempre adiáveis, mas até quando? Como posso ter certeza de que um "eu te amo" é mais prorrogável que um boleto bancário que vence hoje? Quem me garante que terei amanhã para dizer isso? Disto não posso ter certeza, conquanto tenho certeza de que, se pagar o boleto amanhã, haverá multa. Como conciliar? 

Ah... Talvez eu só precise chorar um pouco... Não há muito a ser feito. A razão destas coisas está nelas mesmas. Tudo é perfeito, lógico e útil. Eu é que preciso chorar.

14h. Acabou o tempo. Os sentimentos ainda estão aqui, mas que se danem, eu tenho que ir trabalhar. 

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Kate & William e as histórias amargas de falsas aparências em casamentos monárquicos

As aparências são superestimadas em nossa sociedade, é cediço. Quando há interesses de Estado envolvidos, então, não se prioriza somente as aparências, mas também os protocolos. 

Aproveitando o ensejo do acontecimento que dominou os noticiários do mundo inteiro hoje de manhã, a cerimônia de casamento do filho do príncipe de Gales, o príncipe William, e sua namorada de longa data, a "plebeia" Kate Middleton, gostaria de fazer um pequeno comentário a respeito de como muitas tragédias familiares são perpetuadas em nome das aparências.

Um caso não tão remoto, ademais de muito conhecido e também relacionado ao assunto do momento, é o do próprio Charles, príncipe de Gales, que casou-se em 1981 com a aristocrata Diana Spencer, tudo muito de acordo com as conveniências e exigências da Família Real britânica. Entretanto, desde a década de 1970, Charles era apaixonado por Camilla Parker Bowles e mantinha um relacionamento às escondidas com ela. 
Ambos desejavam casar-se, contudo, Camilla não preenchia os requisitos dos quais a Família Real fazia questão: não era anglicana, e era casada com outro homem, portanto, não era virgem; poderia até mesmo abrir mão de seu casamento com Andrew Parker Bowles (que aliás, era amigo de Charles, e contam ainda que era também cúmplice das traições!) para unir-se a Charles, mas uma divorciada tampouco seria bem vista.

Outro caso, desta vez concernente à história de nosso próprio país, é o de Dom Pedro I, primeiro imperador do Brasil. Ele se casou em 1816 com a arquiduquesa da Áustria, que passou a usar o nome de Maria Leopoldina, e posteriormente, quando o casal chegou ao Brasil e Pedro assumiu a regência do país, tornou-se a Imperatriz Leopoldina. O casamento deu-se por pura conveniência, e com tão pouca emoção que foi até mesmo realizado por procuração! 
A verdade era que Dom Pedro, alguns anos depois, conheceu aquela por quem realmente se apaixonou, a Marquesa de Santos, Domitila de Castro. Os dois mantiveram um relacionamento por muitas décadas, e ao que parece, não faziam muita questão de esconder. Leopoldina, como mulher submissa aos preceitos da época e boa esposa de uma autoridade, fingia não ver nada, e quando via, aguentava quieta.



O fato é que tanto a Princesa Diana quanto a Imperatriz Leopoldina eram amadas e idolatradas pelo público. 

Diana costumava envolver-se
em obras de caridade
Diana era belíssima, doce, carismática, cativante. Ganhou o coração de súditos ingleses e pessoas do mundo inteiro com suas atividades filantrópicas e com sua figura maternal, em especial, pela forma com que aparecia com os lindos filhos que teve com Charles: os príncipes Harry e William (que casou-se hoje). 
Foi a primeira celebridade a deixar-se fotografar tocando uma pessoa portadora do vírus da AIDS, na intenção de mostrar ao mundo que estes doentes não mereciam o isolamento.

Já Leopoldina não se destacava pela beleza (inclusive, era criticada por ser gordinha), mas era extremamente inteligente e culta, ademais de muito engajada nas causas políticas. Seu papel no processo de independência do Brasil foi grande: ela assumiu a regência quando Dom Pedro viajou a São Paulo, a apenas um mês da data em que a independência foi declarada, e participou de várias decisões, além de que, assinou ela própria o decreto de Independência. Por fim, há quem afirme que Leopoldina idealizou também a bandeira do Brasil. No mais, também era muito caridosa e costumava dar esmolas aos pedintes. 

Mas de que vale tudo isso para um homem? Era Camilla e Domitila, com seus atributos (quais? Nunca se descobriu) que faziam Charles e Dom Pedro suspirarem. Diana e Leopoldina eram apenas parte do plano, apenas peça chave na composição da imagem de príncipe perfeito. 
Mesmo sendo mal amadas por seus maridos, mesmo sofrendo muito no íntimo de suas almas sem poder manifestar qualquer desgosto, mesmo obrigadas a aturarem traições e ainda assim posarem de boa esposa, Diana e Leopoldina cumpriam bem seu papel e inclusive exorbitavam-no. Ninguém exigia que se saíssem tão bem. 

Em pleno século XIX, ninguém esperava que Leopoldina se envolvesse em questões políticas e pensasse no bem de seu país... Simplesmente esperavam que fosse uma boa princesa, submissa, e que tivesse muitos filhos - melhor ainda se fossem do sexo masculino. A Família Real também não apostava em Diana para angariar tanta popularidade. Entretanto, elas fizeram questão de executarem bem o seu papel, de deixarem algum tipo de contribuição.

Mas... De que vale tudo isso para um homem? Que são a sensatez, a generosidade, a inteligência, o caráter, quando se tem uma amante voluptuosa e capaz de proporcionar deliciosas noites de amor? Sim, infelizmente, há homens que valorizem mais isto.
A Imperatriz Leopoldina e os filhos
que teve com Dom Pedro

O historiador Laurentino Gomes, autor de best sellers que tratam da história do Brasil de forma muito agradável, descreve a Imperatriz Leopoldina, em seu livro "1822", como "mulher certa casada com o homem errado". Acrescenta ainda citação de Octávio Tarquínio de Sousa: "O que lhe sobraria em dotes morais faltaria em sex appeal". Destas declarações, é possível ter uma ideia de por que Dom Pedro não desenvolveu qualquer sentimento amoroso pela esposa. Ele não conseguia sentir qualquer atração ou desejo por ela. E sexo é importante em um relacionamento; isto é inquestionável. 

Mas não é exatamente disto que pretendo tratar. Acho possível que Diana e Leopoldina, por mais admiráveis que sejam, possam ter dado motivo para que seus maridos não se encantassem tanto por elas (vejam bem, eu estou falando de possibilidades, não de fatos certos!). Mas, mesmo com isto, será que não mereciam um pouco mais de respeito?

Dom Pedro não tomava muito cuidado para disfarçar sua natural inclinação para a poligamia, e sempre dava um jeito de atrair a amante para o convívio da Família Real, inclusive, em vários eventos nos quais a Imperatriz também se fazia presente. Chegou a presentear Domitila com uma grande casa, denominada "Mansão Amarela". 

O caso amoroso de Charles e Camilla Parker Bowles também foi exposto ao público no início dos anos 90, ficando Diana em uma situação embaraçosa, mas ainda assim, ela manteve a atitude servil e condescendente. 

Por mais insossa e feia que Leopoldina fosse, ou por menos picante e interessante que Diana pudesse ser, a minha opinião é que elas mereciam, no mínimo, o respeito e a discrição de seus maridos, não somente por tudo que elas fizeram, mas simplesmente pelo fato de serem esposas, de serem "mulheres oficiais".

O lado bom no casamento de Kate e William é o fato de não ter sido arranjado, de não ter sido negociado por conveniência; é o fato de o relacionamento dos dois ter sido espontâneo e ter corrido de forma muito natural, contando com a vontade de ambos. William não se preocupou em desposar uma moça com sangue nobre, tampouco uma moça mais jovem e necessariamente virgem. Escolheu casar-se com a garota que ama, com a garota que está com ele há 8 anos, tempo suficiente para que um casal se conheça razoavelmente e saiba avaliar se terá sucesso em um relacionamento ainda mais sério.

Creio que, em que pese o devido respeito e acatamento a certas obrigações que a Família Real impõe, ter ignorado um pouquinho as exigências usuais fez bem ao casal, que parecia muito feliz ao se casar, além de constituir praticamente um antídoto (a favor de Kate!) contra várias das agruras sofridas pela mãe de William. 
Nada garante que eles serão eternamente felizes ou que William se comportará de forma mais digna que seu pai; entretanto, o simples fato de estarem tão preocupados com a própria felicidade quanto com o cumprimento dos protocolos, já é o suficiente para que sua união não esteja, desde já, fadada ao fracasso.
Felicidades ao lindíssimo casal!

Kate & William: análise do visual da noiva

Eu, claro, como grande fascinada por tudo que envolve beleza, glamour, amor e afins, sou uma das pessoas que acordou mais cedo hoje simplesmente para acompanhar, ao vivo, a transmissão da cerimônia do casamento do Princípe William, do País de Gales, e Kate Middleton. 

E, claro, como mulher, sou uma das que passou muito tempo tentando imaginar como seria o vestido usado por Kate...

Sinceramente, alimentada pelos boatos que circulavam a respeito do possível "toque de modernidade" que haveria na boda, esperava mais ousadia por parte dela, tanto quanto ao vestido, tanto quanto ao cabelo e maquiagem...

Kate Middleton sempre me pareceu uma moça fina e elegante. Nunca me pareceu extravagante, sempre a achei discreta, entretanto, também sempre a vi como uma moça que não se deixa intimidar pelo fato de relacionar-se com um membro da Família Real sem necessariamente ter a nobreza monárquica no sangue... Justamente em razão deste fato, imaginava que haveria um mínimo de ousadia na escolha de seu visual de noiva.

Entretanto, as escolhas de Kate (será que ela realmente teve liberdade para escolher? Eis algo a ser ponderado também, haja visto que a Família Real inglesa possui uma série de tradições a serem impostas) também me pareceram refletir um possível desejo de não "chegar chegando", de não se impor demais, enfim, de não causar má impressão - não para o mundo, que já a adora e tem lugar no coração para acolhê-la tal qual acolheu a falecida princesa Diana -, mas sim, para a família para a qual ela acaba de entrar.

Desde que Kate virou alvo das atenções da mídia, tenho reparado em seu estilo de se vestir, muito sofisticado, feminino, sem muita sensualidade, com toques de fashionismo aliado a um ar mais sério. Seu vestido de noiva, feito pela estilista inglesa Sarah Burton,pelo visto, não foge muito disto, apesar das expectativas e probabilidades de maior ousadia. É relativamente simples, em que pese a renda perfeitamente trabalhada na manga, colo e viés do véu. 

Inclusive, achei o vestido muito parecido com o usado pela atriz Grace Kelly, quando casou-se com o Príncipe de Mônaco, em 1956. Reparem:


Tanto Kate quanto Grace usaram reda nas mangas e no colo do vestido.



A imagem está ruim, mas se repararem bem, verão o detalhe dos tradicionais botões, iguais, embora no vestido de Kate eles ficassem nas costas.


Em suma, creio que o vestido é belíssimo e ornou bem com a personalidade de Kate: sofisticado, mas não chamativo ou demasiado diferente de qualquer coisa que já tenhamos visto, e ademais, refletiu sua atitude dotada de uma certa subserviência. A escolha de não usar um vestido moderninho, a meu ver, foi como um ato de "abaixar a cabeça" para a monarquia inglesa, uma forma de dizer: "vou fazer tudo certinho, não cheguei para gerar contendas".

Se realmente esperamos que ela fosse se atrever a usar algo mais , bem... creio que os errados fomos nós.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Separar o joio do trigo: o que realmente importa nesta vida?

“Amar e ser amado é, neste mundo, a tarefa melhor da nossa espécie, tão cheia de outras que não valem nada.” 
(Machado de Assis)

O homem cria seus próprios sistemas e despende um bocado de tempo e dinheiro consolidando a extensão deles ao mundo em que vive. Quantas ciências supérfluas levam anos para serem aprendidas, e quanta gente se ocupa de ensiná-las! Quanto tempo se gasta (se perde?) tentando adequar-se a padrões cuja existência nem sabemos justificar, e quantas oportunidades se desperdiça na ilusão de aproveitar melhor certos momentos que mal precisariam acontecer...

Na contramão disto, quantos de nós realmente dedicamos nosso tempo, dinheiro, disposição e pensamentos com aquilo que, no fim de tudo, realmente importa? Quantos de nós priorizamos as coisas que efetivamente fazem nossa vida ter algum sentido?

Neste mundo tão louco, em que todos vivem bombardeados por todo tipo de informação e convite, quem é que consegue manter-se equilibrado em meio a tantos abalos não sísmicos, em meio a tantos terremotos de valores, em meio a tantas chuvas de superficialidades? Quem é que consegue permanecer são em meio a tantas pestes morais?

Só quem consegue manter o equilíbrio e a sanidade, é que consegue distinguir as coisas, e saber quais são essenciais e quais não passam de bobagem... Contudo, paradoxalmente, para manter-se equilibrado e são, é preciso, primeiramente, saber fazer estas distinções. 

domingo, 24 de abril de 2011

A peteca caiu

Hoje meu domingo teve sabor de chocolate degustado em plena época de dieta: inacredivalmente gostoso, mas ainda assim sobeja aquela sensação de culpa por estar fazendo algo errado.

Ser livre é bom, mas liberdade demais escraviza. Ter condições perfeitas de poder realizar todos os seus desejos te aprisiona. Dinheiro, tempo, possibilidades... Uma vez que você tem tudo isso, parece estar em uma jaula, da qual só quer sair quando chegar um momento em que já fez tudo que quer. O problema é que esse momento nunca vai chegar! Quanto mais se realiza desejos, mais desejos se tem.

Divirto-me em dias que nos quais tenho liberdade para fazer tudo que tenho vontade, mas logo isso me cansa e preciso voltar à rotina para sentir-me completa. Preciso de uma vida regrada como um dependente químico precisa de estímulo e força para largar o vício.

Adoro chocolate e liberdade, mas preciso de dieta e de rotina. Ainda não sou madura o suficiente para saber lidar com liberdade demais. Preciso de segunda feira, de agenda anotadinha, de comida saudável, de compromissos, de horário para acordar, de trabalho para fazer, de pagar mensalidades, de prestar contas, de cumprir horários...  

É, tudo isso eu já sei, mas depois que o chocolate já foi comido, o que fazer? Seguir em frente, claro; continuar levando a vida da maneira que ela deve ser levada, em vez de encarar a falha como uma deixa para cometer erros o tempo inteiro. Cair em tentação faz de você um fraco, como tantos outros, mas erguer a cabeça e voltar à batalha faz de você uma pessoa forte, até mais que outras. A decisão tomada após a queda te define muito melhor do que o próprio fato de ter caído. É... Ainda dá tempo de salvar o meu domingo.

Superando a dor do fim do amor nos anos 70 e nos anos 90

Nos anos 70, no auge da disco music e após a bem sucedida inserção dos negros no mercado fonográfico dos Estados Unidos, que se deu na década de 60 graças à gravadora Motown, a cantora americana Gloria Gaynor alcançou o topo das paradas com o sucesso dançante "I will survive", que se tornou hit gay e conquistou o mundo com sua letra que fala sobre superação e o fim de um relacionamento.

Em 1999, quase 3 décadas depois, a diva Cher, já com mais anos de carreira que a própria Gloria Gaynor, lança "Believe", apostando na dance music, ritmo que contagiava o mundo em plena transição de milênio. Cher já tinha 53 anos de idade, mas ainda assim a canção foi um sucesso com o público jovem, e com adultos também. A letra da canção também falava sobre buscar forças para esquecer um amor que acabou mal.

Mesmo hoje, em 2011, ambas as canções permanecem atuais e são muitíssimo bem executadas em festas. É incrível como certas coisas nunca envelhecem! Principalmente quando tratam de amor e dor, temas universais e que sempre acometerão os seres humanos. 


Em uma época em que a mulher americana, em especial a mulher negra, mal gozava de tanto respeito, prestígio e valorização como hoje, Gloria cantava com firmeza sobre saber dar valor a si mesma e reconhecer que não vale a pena chorar por quem lhe faz mal. Da mesma forma, Cher canta em "Believe" sobre quão difícil é superar o fim de um amor, mas é preciso ser forte, e talvez tenha sido melhor assim mesmo, talvez ela seja boa demais para continuar com alguém que a faz sofrer.


"Primeiramente eu tive medo, fiquei petrificada
Pensando que nunca conseguiria viver sem você do meu lado
Mas então eu gastei tantas noites pensando o quanto você me faz mal
E eu fiquei mais forte... Eu aprendi a superar"

"Eu vou sobreviver
Enquanto eu souber amar, eu sei que permanecerei viva
Eu tenho a vida inteira para viver
Eu tenho todo o meu amor para dar
Eu vou sobreviver!"


"Eu preciso de tempo para seguir em frente
Eu preciso de amor para ficar mais forte
Porque eu tenho tempo para pensar sobre tudo isso
E talvez eu seja boa demais para você"

"Porque eu sei que vou superar isto
Porque eu sei que sou forte
E eu não preciso mais de você"


Eu acho que as estrofes poderiam até ser fundidas e não haveria nenhum prejuízo para o sentido das letras!

Drogas: o papel da mulher em meio aos conflitos dos narcotraficantes, principalmente na Colômbia e no México

Grupos de atividades de cunho ilícito, perigoso e violento geralmente são compostos exclusivamente por homens. Desde a mais remota antiguidade, as tarefas que envolvem mais força física e coragem são atribuídas aos homens, enquanto as mulheres, frágeis, belas e submissas, ficam incumbidas dos deveres domésticos.

Nas facções criminosas e redes de comércio ilegal de drogas, não é diferente: os grandes chefões do tráfico são homens, os encarregados pelo transporte de drogas são homens, quem pega em armas são os homens. Mas isto não quer dizer que este mundo é composto apenas por eles: ser mulher proporciona alguns vantagens, e é claro que o tráfico não poderia deixar de fazer uso delas, não somente nos próprios esquemas estratégicos e financeiros, mas também, como não poderia deixar de ser, pondo-as em seu histórico e consolidado papel de objeto sexual.

No contexto dos tráficos de droga em países da América Latina, as mulheres participam de duas formas: ajudando na circulação das drogas, ou servindo como "troféu" para os grandes traficantes (como na foto ao lado)

Falemos primeiramente sobre as mulheres que exercem papel fundamental no comércio de drogas.

De início, é interessante notar o quanto tem aumentado o número de mulheres traficantes. Do interessantíssimo artigo "Esse é meu serviço, eu sei que é proibido: mulheres aprisionadas por tráfico de drogas", escrito por Gabriela Jacinto, Cláudia Mangrich e Mario Davi Barbosa, publicado na Revista Discente do Curso de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, n.2., v.2. (jan/jun. 2010), extraí a seguinte informação:

"Em 1996 encontravam-se presas no Presídio Feminino de Florianópolis 40 mulheres, sendo quase 62% por tráfico (SILVA, 1998, p.56). Já no ano de 2007 quase dez anos após, existiam cerca de 150 mulheres encarceradas, destas 66 foram julgadas e condenadas, chegando a um percentual de 71% por tráfico de drogas. O percentual de criminalizadas por tráfico tem acompanhado a porcentagem do último decênio, quando fala-se nos mais altos índices de encarceramento por este crime."



Em casos menos comuns, há mulheres que comandam o tráfico de drogas, tal qual ocorre no romance do espanhol Arturo Pérez-Reverte, “A rainha do sul”, em que uma jovem mexicana passa por diversos percalços até chegar ao posto de rainha do narcotráfico na Espanha. Há ainda o caso real de Enedina Arellano Félix, líder de um cartel mexicano em Tijuana (fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/01/
100122_rainhatraficomexico.shtml), e de Sandra Ávila Beltrán, também mexicana, conhecida como "Rainha do Pacífico", que liderou por muito tempo um grupo especializado em tráfico de cocaína em Sinaloa (fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL149646-5602,00-PRESA+RAINHA+DO+TRAFICO+VIRA+CELEBRIDADE+NO+MEXICO.html).

Porém, em histórias como estas, acredito que a condição feminina faz pouca diferença, até porque as mulheres que conseguem poder e notoriedade no obscuro mundo do tráfico o fazem justamente por conseguirem conduzir as situações com o mesmo pulso, força e bravura geralmente reconhecidos como sendo tipicamente masculinos.

E quanto à mulher “tipicamente mulher”, mulherzinha mesmo, a que não se aventura no território monopolizado pelos homens? Como ela participa no tráfico? Fazendo uso da beleza e do corpo, claro.

É neste contexto que atestamos a existência das “mulas”, pessoas que participam do transporte de drogas carregando-as no corpo. Nos últimos anos, em especial, as principais escolhidas pelos traficantes para agirem como “mulas” são mulheres jovens e bonitas, em razão do fato de que, segundo eles, estas moças contam com maior condescendência das autoridades policiais ao serem fiscalizadas. Em troca do serviço, as beldades recebem uma boa quantia. A droga pode ser escondida nos órgãos genitais e demais orifícios do corpo, mas como essa tática já se encontra banalizada, a nova “moda” é realizar cirurgias para introduzir as drogas na própria pele, onde elas ficam melhor escondidas. (Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/18529_VIDA+DE+MULA)

É claro que as mulheres nem sempre são vistas pelos homens traficantes como alvo potencial para ajudar na expansão do comércio de drogas... Há muitos que preferem aproveitar-se delas de outra forma, da forma mais convencional, fazendo uso daquilo que muitos crêem ser a única coisa que elas têm a oferecer. Aliás, muitas vezes, parte da própria mulher a escolha e o interesse de servir apenas como objeto sexual, o que, para elas, seria muito mais fácil, uma vez que elas ficam apenas com as vantagens do tráfico: usufruir do dinheiro arrecadado.

"Desde muy niño soñaba
Con tener mucho dinero
Tener muchas propiedades
(...)
Hoy tengo mucho dinero
Mi sueño se hizo realidad
(...)
Tengo mujeres de sobra
De reinas hasta modelos"

(Trecho da canção "El gran mafioso", do grupo Los Tigres del Norte)

("Desde muito pequeno sonhava / Em ter muito dinheiro / Ter muitas propriedades / Hoje tenho muito dinheiro / Meu sonho se tornou realidade / Tenho mulheres de sobra / De rainhas a modelos")

Aqui, a mulher atua em outro segmento do tráfico de drogas: a ostentação da imagem do traficante, que quer ser visto como poderoso, influente, cheio de dinheiro e rodeado de belas mulheres, e a propagação do estilo de vida que eles passam a adotar uma vez acumulado o dinheiro conseguido com o tráfico. Neste contexto, o sexo funciona como mercadoria de troca: a mulher cede seu corpo ao traficante, e ele proporciona a ela os luxos que o dinheiro pode oferecer.

Cartaz do filme baseado
no livro de Jorge Franco
É nesta seara que os colombianos Jorge Franco e Gustavo Bolívar Moreno escreveram os romances “Rosario Tijeras” e “Sin tetas no hay paraíso”, grandes sucessos que foram levados, respectivamente, às telas do cinema e da TV.

Em “Rosario Tijeras” vemos a história da bela e instável Rosario, moça da periferia de Medellín que desde pequena convive com o narcotráfico e aprendeu a usar de sua beleza para conseguir o que quer, além de ter que aprender a defender-se sozinha dos abusos e violências. No trecho abaixo transcrito, vemos como as mulheres atuavam nesse contexto do tráfico e demais crimes relacionados:

Imagine você que não nos deixavam sair à rua nem para comer. Os rapazes saíam cedo e voltavam tarde. Eu passava do quarto da Deisy pro meu, e vice-versa. A única que fazíamos era ver TV a cabo, fumar maconha e ficar penduradas na janela vendo Bogotá. Os meninos chegavam à noite muito perturbados, bêbados, não contavam nada do que faziam, cada um seguia para o quarto para que os mimássemos. (...) Uma noite disseram para ficarmos prontas porque na manhã seguinte alguém nos pegaria e levaria para uma fazenda e que lá encontraríamos eles. (...) No dia seguinte saíram muito cedo, nem eu nem Deisy nos demos conta, mas o que realmente percebemos foi que não tinham dormido. Por volta das dez da manhã chegou um sujeito numa puta caminhonete e nos levou a uma fazenda maneiríssima, você não imagina a fazenda, parceiro, uma mansão do cacete, com várias piscinas, quadras de tênis, cavalos, cascatas, garçons, mais parecia um clube. Deisy e eu pusemos nossos biquínis e ficamos pegando sol. À noite, meia noite, mais ou menos, chegaram os meninos, bêbados, mas dava pra ver que estavam contentes, riam pra cacete, se abraçavam, nos beijavam, pediam mais um trago, tomaram umas brancas e fizeram uma farra que durou três dias.
(Págs. 60 e 62. Editora Alfaguara)


Já em “Sin tetas no hay paraíso”,  fica bem clara a forma como os traficantes colombianos fazem questão de namorar mulheres de corpo belo, tanto que a protagonista do romance, a jovem Catalina, sonha em conseguir próteses de silicone para os seios, a fim de tornar-se mais atraente, chamar a atenção de algum traficante rico e, enfim, sair da miséria e mudar de vida, como fica estampado no seguinte trecho, logo nas primeiras páginas da obra:

"Catalina queria ingressar no sórdido mundo das escravas sexuais dos narcotraficantes, não tanto porque queria desfrutar dos deleites do sexo, porque entre outras coisas ainda era virgem e sequer imaginava o que poderia chegar a sentir com um homem em cima, senão porque não suportava que suas amigas da quadra se exibissem todos os dias com novas roupas, sapatos, relógios e perfumes, que suas casas fossem as mais bonitas do bairro e que tivessem em suas garagens uma motocicleta nova. A inveja corroía seu coração e lhe causava angústia e preocupação. Não podia resistir à prosperidade de suas vizinhas, uma vez que o sucesso delas estava representado por um par de seios, porque até esse dia não havia se dado conta de que somente as casas das quatro meninas mais peitudas da quadra tinham terraço e estavam pintadas."
(Pág. 11. Tradução livre, feita por mim, com base no arquivo extraído do link: http://www.4shared.com/get/dRGyBDiw/Sin_tetas_no_hay_paraiso.html)


Enfim... O tema é demasiado complexo para ser esgotado em um reles textinho de blog. Mas considero apropriado terminar este texto com uma observação feita pelo jornalista mexicano Jesus Blancornelas, autor de "O cartel", uma das obras mais honestas e claras a tratar do esquema do tráfico no México:

"Existe maior participação da mulher em âmbitos diferentes, mas o tráfico de drogas continua com uma cultura predominantemente machista"

Casos como o de Eneida Félix ou Sandra Beltrán, citados acima, são exceções. De uma maneira generalizada, o que a mulher tem a oferecer aos homens que trabalham no narcotráfico ainda é o mesmo que muita gente em nossa sociedade pensa ser a única função da mulher: proporcionar os prazeres da carne. Mas seja no comando, nos bastidores ou na manutenção do status dos traficantes, é sempre lastimoso ver mulheres envolvidas neste contexto - ou melhor, a situação toda, por si só, já é digna de todo lamento.

Drogas: é melhor atacar na base ou no topo?

Como se não bastasse a dependência psíquica e química e todos os demais problemas de saúde causados pelo uso de drogas, os problemas de ordem social são ainda maiores. O tráfico e os crimes cometidos pelos usuários, no intento de conseguir dinheiro para sustentar o vício, têm constituído um dos maiores problemas a assolar o Brasil e vários países da América Latina, além de ser também um dos problemas de mais difícil resolução.

Como combater o tráfico de drogas? Como frear o crescimento dos cartéis e facções criminosas? Como garantir proteção às fronteiras, de modo a evitar a passagem de drogas de um país para outro? Como desestabilizar a estrutura montada nas favelas, onde o comércio clandestino de drogas já constitui a base da economia local?
 
Muitos procuram respostas para estas perguntas: famílias, sociólogos, autoridades políticas e legislativas, organizações não governamentais... As drogas são um problema de todos, e ninguém sabe exatamente o que se pode fazer para solucionar isso. É mais conveniente atacar por cima ou na raiz do problema? Não é de todo útil tentar destruir as grandes organizações (máfias, praticamente!) responsáveis pela existência e manutenção do tráfico enquanto ainda houver um usuário que dependa delas para conseguir sua droga de cada dia; todavia, por outro lado, de nada adianta prevenir os cidadãos sobre os malefícios do consumo de droga enquanto ainda houverem cartéis e redes que geram violência e medo nas comunidades.

Eu entendo que a origem do problema, a matriz mesmo, é o uso. Era uma vez alguém que usou e tornou-se dependente... E a partir daí formou-se toda a rede problemática. E a cada novo usuário, que vem a viciar-se, aumenta um elo na cadeia, e mais pessoas precisam se mobilizar para manter o comércio ilegal.

Tudo isto sem mencionar os tratamentos médicos e psicológicos para os dependentes: o que fazer com eles?

Prevenir contra o uso, reprimir o tráfico, tratar dos dependentes: é problema demais para o Estado resolver. Claro que isto não justifica a falta de ação e de elaboração de planos, projetos e políticas públicas para, ao menos, tentar suavizar a situação; mas ainda assim... Por onde começar? Alguém sabe? Alguém tem alguma ideia de algo que possa, pelo menos, constituir um primeiro passo?

O problema já está desenvolvido demais para que qualquer iniciativa seja plenamente eficaz. É como um câncer em estágio terminal. O que não significa, entretanto, que devemos cruzar os braços e permanecer inertes. Algo precisa ser feito, nem que seja para surtir efeitos de dimensão pequena. 


Enfim... O assunto rende, é interessante, pode ser explorado sob diversos ângulos e não pode mais ser ignorado, tendo em vista a realidade de nosso país e nossos vizinhos latinos. Com base nisto, escolherei alguns enfoques que me interessam para postar, em breve, outros textos relacionados às problemáticas relacionadas às drogas, no Brasil e na América Latina.

sábado, 23 de abril de 2011

Pequeno e passageiro descontentamento

Não estou a fim de ter tanta coisa pra fazer... Geralmente adoro ter agenda cheia, adoro rotinas produtivas, adoro chegar ao fim de um dia e reconhecer quanta coisa fiz. Mas hoje não... 

Hoje eu quero ter tempo para alimentar as minhas outras paixões. As mais supérfluas, mas que nem por isso são inúteis. As que alimentam o outro lado da minha alma: o lado que precisa de beleza para viver, a despeito daquele que reconhece a necessidade do trabalho maçante. 

Quase sempre esse sentimento vem quando estou ocupadíssima - pois quando estou livre, sinto falta de trabalho, sinto falta de ter coisas para fazer. Sou um ser humano, e nesta condição, quase nunca estou satisfeita. Quero ruído quando tenho silêncio, e vice versa. Não. Pensando bem, quero sempre ruído, mas ruídos diferentes. Alternadamente. Sempre. Preenchendo meu tempo.

A verdade é que, imatura que sou, quero o luxo de poder jogar tudo pro ar quando bem entender. Quero permissão para parar tudo, na hora que eu quiser, e servir apenas ao meu próprio interesse, seja ele qual for no momento em que me der vontade de fazer isso. Mas sei que a vida não é assim. O mundo não espera por mim, e destarte, não posso colocar na sala de espera tudo e todos que dependem das minhas atitudes.

Costumo pensar que o problema do fastio e da falta de brilho da vida seria facilmente resolvido caso todos pudéssemos dispor, todos os dias, de alguns momentos dedicados ao prazer e à auto satisfação, da maneira que melhor nos aprazasse. Mas pensando bem... Não sei se isso daria certo comigo. Minhas paixões não têm hora marcada para aparecer. Não consigo, pura e simplesmente, ser tomada por um grande sentimento e pedi-lo que fique quieto até chegar o momento em que posso vivenciá-lo com maior liberdade. 

Então, o que fazer? Qual é a solução? 

A solução, creio eu, é aprender a ser disciplinado e a organizar suas prioridades - ou, antes de tudo, saber reconhecer o que são prioridades! Afinal, por maior ou mais prazerosa que seja uma vontade ou uma paixão, não pode se sobrepor a um interesse maior, a uma prioridade propriamente dita. Certos interesses precisam ser colocados em segundo plano, às vezes, em detrimento de coisas mais úteis e/ou urgentes.

Outra coisa que ajuda é saber organizar o tempo, otimizar o tempo, aproveitar o tempo. Perdemos tanto tempo com coisas que não servem para nada, ou gastando mais tempo que o necessário com coisinhas que poderiam ser executadas com mais rapidez caso fossem melhor planejadas!

E a mim, resta começar a colocar tudo isso em ação e não deixar que permaneça apenas no campo das palavras bonitas, pois que a mera recitação de poesia, em um momento de tantas tarefas e compromissos a serem cumpridos, também é uma renegação de prioridades.