sábado, 16 de julho de 2011

Fracassados perante a sociedade, e vitoriosos perante Deus e a própria consciência



5:15: "O cara é um semi analfabeto... Eu posso ser como ele, rico e burro... Melhor que você, mãe. Estudou pra caramba e não se deu bem na vida." (João Victor, personagem de "Uólace e João Victor", episódio da série "Cidade dos homens", baseado em livro de Rosa Amanda Strausz)


É uma pena que a sociedade insista em valorizar quantidade em vez de qualidade, poder em vez de conhecimento, dinheiro e reconhecimento em vez de competência e honestidade. 

Nossa sociedade é frívola e preguiçosa, gosta de lucro fácil, não valoriza o esforço. Lamentavelmente, pessoas que prezam pela virtuosidade muitas vezes ocupam posições mais ingratas que as ocupadas por outros que buscam subir na vida por meio de artifícios fraudulentos e desonestos. E como se aplaude a desonestidade hoje! Fala-se tanto em corrupção, em políticos mau-caráter, mas no dia a dia, quem é que não usa de pequenos truques de esperteza para se dar bem?

É triste que estes valores estejam tão enraizados na cultura brasileira. Como consequência disto, temos esta sociedade que preza pelas aparências e pelos títulos, enquanto que valores como a educação e a cultura seguem sendo menosprezados.

Prova disso é o péssimo tratamento dado, tanto pelo Poder Público quanto pela própria comunidade, aos professores. Que mundo é este que não valoriza o profissional que dedica sua vida a transmitir conhecimentos e formar personalidades? 

Por conseguinte, os cursos de Pedagogia e Letras são vistos pela sociedade como "cursos de fracassados". Direito, Medicina, Engenharia, estes sim são bons. Dão dinheiro. Dão ao profissional o estigma de "doutor". É só isso que importa, hoje em dia. Ah, que sociedade mais mesquinha!

A sociedade tem preguiça de pensar, de refletir, de formar opinião. Prefere tudo que vem mastigado, pronto, fácil. 

E pensar que, na época da ditadura militar, o governo proibia que se ensinasse filosofia e sociologia nas escolas, por medo de libertar as mentes, por medo de que o povo pensasse por si próprio e deixasse de ser alienado; e hoje, pelo contrário, o ensino destas disciplinas é obrigatório, e ninguém dá valor! As ciências humanas são tratadas como desnecessárias, as aulas ministradas são empurradas com a barriga. Dizem que filosofia, sociologia, antropologia, não levam a lugar algum. Que não dão dinheiro. Que quem estuda estas ciências é louca.

Será que não pensam que a filosofia é a mãe de todas as ciências? Que quem não filosofa não é capaz de se autodeterminar, de formar suas próprias ideias? Será que não entendem que é preciso compreender o mundo em que se vive, em vez de simplesmente levar a vida sem razões, planos ou princípios?

Tudo é uma questão de valores. As pessoas não dão o devido valor às artes, à cultura, à leitura, à educação, à gentileza, à honestidade, aos bons modos... As crianças crescem, assimilam estes conceitos, engravidam irresponsavelmente de alguém que mal conhecem, e aí nasce mais um rebento para assimilar estes conceitos e perpetuar esse ciclo vicioso de futilidade. É uma bola de neve! 

O que me consola, e deve também servir de consolo a todos que insistem em "nadar contra a maré", é que as virtudes têm valor aos olhos de Deus, e que colheremos os frutos das sementes que plantamos - ainda que não nesta vida. Boa parte da sociedade não está preparada para compreender isto, mas chegará o dia em que os homens bons serão recompensados por persistirem na virtude, por defenderem a educação, por lutarem por seus ideais. 

Que importam os aplausos fúteis? De que valem os elogios de quem não é capaz de pensar por si só, quanto menos admirar um bom trabalho? Mais vale ser um fracassado perante a sociedade, mas estar em paz com a própria consciência e ser homem de valor perante Deus, que o contrário.

Mede-se a imaturidade de uma sociedade pela futilidade de seus ídolos. Devemos, então, refletir, se é este tipo de reconhecimento que almejamos.

"Que o sincero trabalhador do Cristo, portanto, saiba operar sem a preocupação com os juízos errôneos das criaturas. Jesus o conhece e isto basta." (Emmanuel, na lição "O problema de agradar", do livro "Pão nosso", psicografado por Francisco Cândido Xavier)

"Songs in A minor": 10 anos depois, a mesma classe e frescor

Em 2011 são completados 10 anos do lançamento do álbum de estréia da cantora, compositora e pianista Alicia Keys, "Songs in A minor".

Lembro-me de quando minha irmã ganhou esse CD. Eu não o queria, mas ela queria muito, e então pediu para que minha mãe comprasse. Com 11 anos de idade, eu já sabia que era um álbum cheio de composições maduras e de bom gosto, mas ainda não me julgava preparada para gostar desse tipo de música. Fiquei admirada com o fato de minha irmã, mais nova que eu, querê-lo. 

E, de fato, alguns anos foram necessários para que eu soubesse apreciar a sofisticação e a beleza das canções de "Songs in A minor". Dez anos depois, ainda é um álbum deleitoso. Suas canções nunca perderão o brilho, pois quem as fez bebeu diretamente da fonte, buscou inspiração nas origens e nos clássicos da black music, e tudo que vem da raiz não fica velho, pois a raiz é a essência.

Esta inspiração fica muito clara em canções como "Lovin' you", a última faixa, a qual vem escondida dentro da faixa "Caged bird" (que, diga-se de passagem, também é lindíssima). A influência de Aretha Franklin é mais que notável, afinal, a faixa até mesmo lembra o grande sucesso "You make me feel like a natural woman", embora seja menos aberta, mais introspectiva, mas igualmente apaixonada e bela.


A canção que fez o mundo voltar seus olhos para Alicia é a pungida e bem feita "Fallin'", o primeiro single. O site "Miolão" conceituou esta canção como "um clássico moderno" (fonte: http://www.miolao.com/blog/nosom/3-momentos-alicia-keys/), termos com os quais concordo, sem fazer qualquer ressalva. Gerações futuras ouvirão "Fallin'" e pensarão que, em 2001, a black music ainda estava em sua melhor forma.

Nas conjugadas "Never felt this way" (composta por Brian McKnight, que dá seu ímpar toque de romantismo à balada) e "Butterflyz", Alicia mostra porque merece destaque em meio a tantos artistas atuais que tentam vender uma imagem dissociada de suas personalidades: Alicia se entrega ao que está cantando, é verdadeira, sincera, não tem medo de se expor. Fala sobre suas fragilidades, abre sua alma, canta com dor e sentimento.

Outra coisa que merece ser evidenciada é o talento de Alicia Keys como pianista. Há canções cujo instrumental baseia-se unicamente no piano, e talvez por isso, a emoção e a singularidade da canção fica ainda mais enfatizada. 

Nas outras, o que se vê é o delicioso suíngue do rhythm and blues, o qual Alicia defende piamente neste seu álbum de estréia, sem muitas infusões de outros gêneros musicais: "Songs in A minor" é a black music pura. "How come you don't call me", composta por Prince, é exemplar desta característica, e nos remete aos grandes mestres do passado, como Etta James e Stevie Wonder.


Destaco ainda as profundas "The life" e "Why do I feel so sad", que assim como "Troubles", são uma delícia de se escutar.


Por fim, seria um pecado não citar o segundo single do álbum, "A woman's worth", cuja letra é tão forte e bonita que nem precisava ser acompanhada por uma pegada de rhythm and blues tão típica e gostosa.

Em suma, não é de se estranhar que "Songs in A minor" tenha rendido a Alicia Keys 5 prêmios Grammy, em 2002, e esteja hoje merecendo homenagens que incluem um relançamento. Ah, e sem mencionar que o álbum vendeu mais de 12 milhões de cópias no mundo todo - e uma delas está no CD player do meu carro.

A volta de Demi Lovato

Eu adorava a Demi Lovato, quando lançou seu primeiro álbum, "Don't forget"... Gostava de sua voz, gostava de ouvi-la alcançando tons altos e cantando com emoção. Naquela época (final de 2007 e início de 2008), ela, a Miley Cyrus e a Selena Gomez me fizeram acreditar que era possível, para uma artista do sexo feminino, conseguir fama e reconhecimento sem precisar apelar para a pose de bitch, apelando para o erotismo e fazendo apologia às bebidas, sexo e futilidades.

Daí o paradigma começou a mudar: começaram a vazar fotos de Miley nua na Internet, depois ela mesma começou a lançar clipes mais sensualizados e deixar cair na Internet vídeos dela alcoolizada e fumando sálvia. Pouco tempo depois, era a vez de Demi tirar fotos eróticas e apelativas e deixá-las serem expostas na Internet. Até hoje, Selena é a única que não teve um escorregão que depreciasse sua imagem.

E ambas tinham pouco mais de 17 e 18 anos quando tudo isto aconteceu. Estou falando de duas adolescentes que conseguiram fama atuando em seriados da Disney, voltados para crianças, e cujos produtos até hoje são consumidos pelo público desta faixa etária.

Posso soar muito dura e moralista, mas minha opinião é esta e defendo-a até o fim: sei que deve ser complicado carregar esse estigma de "mocinha da Disney", precisando manter sempre a compostura para não dar maus exemplos às crianças e jovens que se espelham nelas, mas se estas garotas escolheram fazer parte disto, têm que seguir as regras do jogo e arcar com as consequências.

Entre 2009 e 2010, Demi Lovato passou por uma má fase (até comentei isto neste texto): teve problemas de auto estima em razão de ter um corpo mais curvilíneo que as outras estrelas de sua geração, assumiu sofrer de bulimia e automutilação, perdeu o controle e agrediu fisicamente companheiras de turnê, tirou fotos apelativas simulando promiscuidade e lesbianismo para conseguir ser aceita... O resultado: foi internada em uma clínica de reabilitação. 

Recentemente, deixou a clínica e já lançou um novo single e videoclipe, com letra autobiográfica, "Skycraper", na qual ela canta: "Todas as minhas janelas ainda estão quebradas, mas eu estou firme sobre meus pés... Tente me derrubar, eu vou reerguer do chão".

Fico feliz que ela tenha voltado e pareça estar bem. Sua fase safada e problemática me deixou decepcionada e preocupada. Este tipo de atitude vende, porque vivemos na sociedade do espetáculo, que aprecia o show e quer se divertir às custas das peripécias frívolas das celebridades; mas será que estas meninas realmente são felizes assim? Será que não sentem peso na consciência por incitarem tantas crianças a seguirem um estilo de vida vazio e imoral?

Eu desejo a Demi Lovato sucesso, nesta nova fase, e equilíbrio, para que ela se mantenha sã, em meio a esta loucura que é o mundo de hoje, e seja feliz.

Alienação religiosa

Assim como Thomas Hobbes pregava um sistema em que entregávamos nossa liberdade ao Soberano e em troca ele nos fornecia tudo (teoria do Estado), há religiões em que as pessoas entregam suas mentes, suas liberdades de pensar, e em troca recebem o dever de sustentar crenças infundadas. Crêem sem saber por quê, ou contentam-se com parcos motivos. Vivem na superficialidade. Será que os idealizadores destes movimentos querem mesmo é o domínio, controlar os cérebros das pessoas para que elas dêem a eles todos os benefícios e recebam o lucro? E será que os fiéis não pensam que estão sendo subestimados, que os chefões estão julgando-os incapazes de entender os motivos por si só? Ou esses motivos não existem?


Uma coisa é inegável: há pessoas que preferem ser iludidas. A realidade é muito complexa, e por isso, muitas pessoas renunciam à sua capacidade de pensar, alienando suas mentes para, em retribuição, receberem ideias prontas, e saem por aí repetindo-as, sem interesse em saber o porquê delas. Justamente por essa despreocupação em compreender as razões e origens, estas pessoas nunca se dão conta de que muitos desses conceitos, nas quais elas alicerçam suas vidas inteiras, são vazios, completamente desprovidos de lógica ou fundamento. Nunca se dão conta de que estes conceitos podem muito bem haver sido milimetricamente planejados por pessoas que desejam tirar proveito desta alienação coletiva.


E quanto a estas pessoas, as idealizadoras destas correntes de ilusão? Julgam-se mais inteligentes que as outras, julgam-se capazes de edificar todo um movimento, fundados em meia dúzia de preceitos demagogos. E são capazes mesmo; muitos caem nessa armadilha. Quanta ousadia! É preciso ser muito corajoso para aceitar se expor desta forma, dar a cara a tapa deste jeito, proferir tantas palavras aparentemente santas quando, no fundo, a real intenção por trás delas é frívola e indecente. 


Estas pessoas brincam com fogo. Como se atrevem a aproveitar-se das fraquezas alheias para beneficiarem a si próprios? Elas sabem exatamente como tocar o coração das pessoas, sabem onde dói a ferida, e prometem mundos e fundos aos que sofrem, usando argumentos supostamente divinos. Constroem um discurso perfeito, cuidadosamente projetado para atrair, iludir, seduzir. Talvez até elas mesmas acabem se convencendo dos ultrajes que costumam falar. 


Aliás, esta é uma questão que me intriga. Se estas pessoas manipulam, à sua própria forma, conceitos e princípios que servem para nortear a humanidade e fazê-la conectar-se com o Criador, com que valor elas crêem que conseguirão verdadeiramente chegar a Ele? Em qual Deus acreditam aqueles que comercializam a ideia de Deus? A quem apelam, quando sentem-se necessitados? 


Não posso crer que o Deus mencionado por estas pessoas em suas pregações, é o mesmo Deus à qual elas recorrem. E se há dois deuses: um forjado para arrebatar multidões de fiéis alienados, e um verdadeiro, perfeito, justo e bom, como estas pessoas ousam recorrer ao segundo, quando usam de seu nome em vão para favorecerem suas próprias paixões mundanas?


Ah, a humanidade está ainda tão longe de entender a real noção de Deus... E mais longe ainda de conseguir colocar em ação todas as lições provenientes d'Ele.

Sermão

Pare de se sentir incompreendido. Pare de exigir que as pessoas te compreendam. É você quem deve compreender o mundo em que vive. O mundo não foi projetado somente para você. Há bilhões de pessoas neste planeta, e se você pretende dividir espaço com elas, é preciso que todas façam esforços no sentido se adaptarem umas às outras. Todas. E isso inclui você.

Pare de se sentir tão incompreendido. Em vez de lamentar, tente fazer-se compreender. É egoísmo querer que o mundo inteiro pare para entender os seus problemas e interpretar as suas atitudes. As pessoas têm suas vidas próprias e não podem viver em função sua, em função de tentar entender você. Você não é a única coisa com a  qual a sua família e os seus amigos têm que se preocupar. Você já parou para pensar nisso? 

Pare de ser tão carente. Ame-se mais. É verdade que, neste mundo tão corrido, as pessoas mal têm tempo umas para as outras, mas não fique cobrando-as tanto. Cada um dá o que pode dar, ninguém dá o que não sabe dar, ou o que não tem. Tente entender isso também, em vez de simplesmente querer que entendam a sua necessidade de atenção.

E, por fim, pare de reclamar tanto. Quando achamos problemas em todo mundo, é porque o problema está em nós mesmos. O mundo é o que enxergamos dele, e só enxergamos com os olhos que temos. Se nossos olhos estão enfestados de rancor e pessimismo, é claro que enxergaremos o mundo como um lugar horrível para se viver. Mude sua forma de pensar, e pouco a pouco achará que o mundo à sua volta está mudando também. 

A ira: considerações de cunho científico, religioso, moral, histórico e jurídico


Ontem assisti a um interessante documentário no canal History Channel (que, aliás, é um dos que mais tenho assistido nestas férias). Trata-se da série "Sete pecados capitais", a qual analisa o impacto que a teoria dos sete pecados, bastante mencionada no Cristianismo (mas cuja origem antecede a ele), gera na sociedade atual. Traz perspectivas históricas e científicas, além de, é claro, mostrar bastante o aspecto moral e religioso. A série é excelente, e eu recomendo.

O episódio de ontem analisou o pecado da ira. Muitas coisas me intrigaram e chamaram a minha atenção.

Em primeiro lugar, achei muito interessante tratarem sobre os efeitos e consequências da vinda de Jesus Cristo à Terra. Antes dele, a ira era, de certa forma, aceita, e em certas ocasiões, até mesmo valorizada, porque inflamava os soldados e fazia com que fossem à guerra com mais bravura e paixão. Segundo o documentário, porém, Jesus causou uma grande transformação na sociedade quando, em vez de incentivar a ira e a violência, pregou que devemos oferecer a outra face. Caiu por terra, então, a lei de Talião, quando Jesus disse:

"Aprendestes que foi dito: olho por olho e dente por dente. - Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal que vos queiram fazer; que se alguém vos bater na face direita, lhe apresenteis também a outra; - e que se alguém quiser pleitear contra vós, para vos tomar a túnica, também lhes entregueis o manto; - e que se alguém vos obrigar a caminhar mil passos com ele, caminheis mais dois mil. - Dai àquele que vos pedir e não repilais aquele que vos queira tomar emprestado."  (Mateus, V: 38 a 42.)

Deduzo eu o quanto deve ter sido chocante, para uma sociedade que ainda via nas guerras e batalhas o mais eficaz meio de resolver seus litígios, escutar Jesus dizendo que devemos amar os nossos inimigos e não sucumbir à tentação de atender à nossa ira. 

A segunda coisa abordada no documentário que me encantou, previsivelmente, por eu ser estudante de Direito, foi a história da primeira vez em que a ira justificou um crime e concedeu a absolvição ao autor deste. No momento em que flagrou sua esposa em adultério, o marido irado assassinou-a. A defesa alegou a tese da insanidade temporária, ou seja, do sentimento que arrebatou o espírito do marido a ponto de fazer com que perdesse os sentidos por um momento, vindo a cometer um crime que provavelmente não cometeria se estivesse em seu juízo perfeito.O marido não foi condenado, e este caso serviu de precedente para vários outros crimes passionais nos Estados Unidos. Até hoje - inclusive, segundo o documentário, a legislação do Estado do Texas possui uma disposição neste sentido - há quem sustente que a conduta destes criminosos é compreensível, pois que semelhante situação deixaria a pessoa tão cega de raiva, que qualquer pessoa seria capaz de matar nestas circunstâncias. Há, contudo, quem diga que isso não passa de um artifício para driblar a lei e proteger aqueles que cometem o pecado da ira.

Aqui no Brasil, por muito tempo falou-se em legítima defesa da honra, tese exaustivamente usada por advogados de defesa de maridos que matam suas esposas por terem flagrado-nas em adultério. Luiza Nagib Eluf fala bastante disso em seu livro "A paixão no banco dos réus". Com o tempo, esta tese foi se tornando defasada, e hoje em dia não é mais aceita. 

Outra tese cabível, dentro da legislação brasileira, seria a inexigibilidade de conduta diversa, que é considerada uma excludente de culpabilidade, a qual faz com que não haja mais pressuposto para a aplicação da pena - enquanto que a legítima defesa é um excludente de ilicitude, ou seja, retira o caráter ilícito da conduta. É o que pode ser dito, para o momento, sem que eu me aprofunde no mérito da questão e comece a falar de Direito aqui:

A ira é uma emoção tipicamente humana, e como tal, recebe proteção jurídica na medida em que não se poderia exigir, de um indivíduo mediano, que agisse de outra forma diante de determinada situação (excludente de culpabilidade), ou ainda, na medida em que este mesmo indivíduo se vê em posição de precisar escolher entre dois bens jurídicos (excludente de ilicitude). Isto, contudo, não quer dizer que os sentimentos mais inferiorizados do ser humano devem ser perdoados e aceitos apenas porque fazem parte de sua própria natureza.

O que o Direito objetiva, com estas ressalvas, não é dar respaldo a atitudes que colocam em risco o bem estar da sociedade, mas sim, fornecer àqueles que cometem este tipo de crime um tratamento humano, de acordo com aquilo que se pode esperar de qualquer ser humano normal; afinal, o Direito não espera que sejamos heróis. As leis existentes não foram pensadas para uma sociedade ideal, mas sim, justamente, para regular uma sociedade que ainda está longe da perfeição.

Por isso mesmo, o legislador não pode ignorar que existem emoções comuns a todos os seres humanos, e deve discipliná-las de forma a coagir os indivíduos a conter as emoções que ameaçam a paz da sociedade, mas ao mesmo tempo, compreendendo-as como típicas de pessoas que não são perfeitas.

Neste ponto entra outra abordagem que o documentário fez: a origem natural da ira, o seu componente químico. Cientistas e médicos afirmam que este sentimento pode ter seu núcleo situado na amídala cerebral. Acolher esta assertiva pode trazer vários conflitos, como sugeriu um especialista entrevistado no documentário, o qual indagava como uma emoção natural pode ser considerada pecado.

Considero esta pergunta fácil de ser respondida: nem tudo que é natural é moralmente correto ou aceitável. 

No Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo IX, item9, o qual fala sobre a cólera (que  nada mais é do que a própria ira), ela é apresentada como um sentimento que faz com que o ser humano se assemelhe aos animais. O mesmo pode ser dito de outros sentimentos. Nós, humanos, imperfeitos que somos, ainda temos emoções animalizadas, irracionais; todavia, como se sabe, o que nos diferencia dos animais é justamente a capacidade de raciocinar, e de conseguir colocar a razão em posição superior ao instinto natural. 

É nisto que reside a necessidade de usarmos o cérebro e o nosso senso de moralidade, para entender que nem tudo que brota do nosso íntimo pode ser aceito, pois que, acima de qualquer impulso ou ímpeto, existem leis. Sejam estas leis morais ou positivadas nos diplomas legais, o certo é que elas existem, conforme o supra dito, para tentar trazer um pouco mais de tranquilidade e justiça para a sociedade em que vivemos.

Nos últimos minutos do documentário, uma psicóloga falava sobre a terapia de controle da raiva, tão popularizada hoje, tamanha é a ira que tem acometido as pessoas. Ela disse, entre outras coisas, que o enfoque religioso da ira é inútil no mundo moderno, e que nunca conseguiu convencer um paciente a não dar asas à sua ira por medo de ir ao inferno. Segundo esta profissional, o argumento bíblico, segundo o qual a ira é um grande pecado, não possui mais tanta força, e que tem sido mais eficaz tratar seus pacientes partindo da premissa de que a ira pode estragar as relações humanas. Este argumento, além de verdadeiro e cientificamente provado, é mais convincente; afinal, diz ela, todo indivíduo quer ter sucesso em seus relacionamentos, com a família, amigos ou cônjuge.  

Aqui é também oportuno que eu fale sobre o quanto a doutrina espírita é esclarecedora e diferenciada de outras religiões. A psicóloga não está errada quando diz que o argumento bíblico é ineficiente. Infligir um medo infundado nas mentes das pessoas é subestimar a capacidade delas de raciocinarem e entenderem as causas e efeitos de seus próprios atos. 

Foi-se o tempo em que se podia impor a ordem em uma sociedade através do medo - foi assim com Moisés, mas quantos séculos se passaram desde Moisés! Hoje, apesar de todos sermos ainda moralmente pobres e fracos, estamos intelectualmente mais evoluídos. Queremos saber como as coisas se dão, entender o porquê delas. O que não possui razão de ser, não mais nos convence.

O Espiritismo vem, justamente, somar à religião o elemento filosófico e o científico, propondo uma fé raciocinada, embasada em verdades lógicas. 

Como dizer o que é o certo e o que é errado, sem explicar por quê? Alguém ainda aceita ser guiado por princípios cujos fundamentos desconhece? Só o que é racional pode trazer real segurança e tranquilidade de espírito, pois todos precisamos de bases nas quais nos apoiar. Nesta seara é que o Espiritismo vem trazer explicações sobre as coisas que, durante séculos, a humanidade contentou-se em acatar sem refletir a respeito.

Sobre o nosso assunto, por exemplo, a visão espírita fornece esclarecimentos sábios, os quais, permissa venia, exporei aqui, como forma de fechamento deste texto, convidando todos a sobrepensarem a ira e a cólera:

            "O orgulho vos leva a vos julgardes mais do que sois, a não aceitar uma comparação que vos possa rebaixar, e a vos considerardes, ao contrário, de tal maneira acima de vossos irmãos, seja na finura de espírito, seja no tocante à posição social, seja ainda em relação às vantagens pessoais, que o menor paralelo vos irrita e vos fere. E o que acontece, então? Entregai-vos à cólera.
            Procurai a origem desses acessos de demência passageira, que vos assemelham aos brutos, fazendo-vos perder o sangue frio e a razão: procurai-a, e encontrareis quase sempre por base o orgulho ferido. Não é acaso o orgulho ferido por uma contradita, que vos faz repelir as observações justas e rejeitar, encolerizados, os mais sábios conselhos? Até mesmo a impaciência, causada pelas contrariedades, em geral pueris, decorre da importância atribuída à personalidade, perante a qual julgais que todos devem curvar-se.
            No seu frenesi, o homem colérico se volta contra tudo, à própria natureza bruta, aos objetos inanimados, que espedaça, por não o obedecerem. Ah!, se nesses momentos ele pudesse ver-se a sangue frio, teria horror de si mesmo ou se reconheceria ridículo! Que julgue por isso a impressão que deve causar aos outros. Ao menos pelo respeito a si mesmo, deveria esforçar-se, pois, para vencer essa tendência que o torna digno de piedade.
            Se pudesse pensar que a cólera nada resolve,que lhe altera a saúde, compromete a sua própria vida, veria que é ele mesmo a sua primeira vítima. Mas ainda há outra consideração que o deveria deter: o pensamento de que torna infelizes todos os que o cercam. Se tiver coração, não sentirá remorsos por fazer sofrer as criaturas que mais ama? E que mágoa mortal não sentiria se, num acesso de arrebatamento, cometesse um ato de que teria de recriminar-se por toda a vida!
            Em suma: a cólera não exclui certas qualidades do coração, mas impede que se faça muito bem, e pode levar a fazer-se muito mal. Isso deve ser suficiente para incitar os esforços por dominá-la. O espírita, aliás, é incitado por outro motivo: o de que ela é contrária à caridade e à humildade cristãs."

UM ESPÍRITO PROTETOR
Bordeaux, 1863
(O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo IX, "A cólera", item 9)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Jazz: paixão irreversível

Hoje, logo pela manhã, uma casualidade me proporcionou o contato com a voz de rouxinol de Dinah Washington... Ah, escutá-la me fez lembrar o porquê de eu gostar tanto de jazz.


Eu tinha cerca de 12 anos de idade quando me apaixonei pelo jazz. A paixão pelos ritmos derivados e afins, como o rhythm and blues e o soul, foram uma consequência. E a paixão por filmes clássicos foi o início de tudo.

Peggy Lee cantando no
filme "Pete Kelly's blues"
As coisas se deram desta forma: foi exatamente nessa época que eu me apaixonei por cinema em preto e branco - só esta historieta já merece um texto à parte para este blog. Entre tantas coisas nestes filmes que me deixavam extasiada, encantavam-me as canções. Mesmo em filmes que não eram musicais, era comum que a atriz principal cantasse alguma coisa. Eu não costumava gostar de canções assim, mas naquele contexto, funcionava perfeitamente. Como soavam lindas as melodias nas vozes daquelas divas tão lindas! Logo depois descobri que nem sempre a voz que eu ouvia pertencia às atrizes, mas nem por isso deixei de admirar as canções.

Lembro-me, por exemplo, de Ava Gardner, no filme de 1948, "Vênus, a deusa do amor", como uma versão encarnada da deusa, cantando, linda e sedutora: "Fale baixo quando falar de amor"... Confiram no vídeo abaixo, por volta doe 1min40s:





Era tudo tão mágico! As atrizes cantavam com uma elegância, uma delicadeza, um brilho nos olhos... Ademais, as canções eram dotadas de uma poesia, de uma ingenuidade... Tudo era muito sutil e inocente. Não havia como não se encantar!

Das telas para os CDs, fui me interessando cada vez mais pelo jazz das décadas de 1930 a 1960. Entre muitas pesquisas, conheci a minha primeira ídola do jazz: Ella Fitzgerald. Com sua voz de veludo e suas interpretações intensas, Ella me fascinou com "Night and day", "Someone to watch over me", "But not for me" e tantas outras performances incríveis.




Depois conheci Jane Monheit, e através de sua música, descobri que o jazz não precisa ser cantado por alguém que já morreu, em uma gravação antiga e com ecos, para ser bom. A primeira canção dela que escutei foi "Something to live for". Fascinou-me a melancolia da letra, a melodia suave, o instrumental simplório e a voz macia e original de Jane. Logo quis conhecer melhor a sua obra, e então deparei-me com várias interpretações incríveis de grandes clássicos. A minha favorita é a sua versão de "Dindi", do nosso Tom Jobim, carioca que fazia "jazz brasileiro" como ninguém, e de cuja obra também acabei virando fã.




Depois de Jane Monheit vieram Diana Krall, Norah Jones, Jamie Cullum... 
Voltando ao passado, conheci também Julie London, Nina Simone, Frank Sinatra... 
Descobri alguns artistas pop que também são uma maravilha cantando jazz (Rod Stewart lançou 5 deliciosos álbuns de grandes clássicos do cancionário jazz norte americano - os chamados standards -, e Carly Simon também gravou "Moonlight serenade", um álbum totalmente dedicado ao jazz)... 
... E pronto! Estava arrebatada. Eu era uma garotinha de 12, 13 anos, reclusa em meu quarto escutando jazz. É, eu reconheço que nunca fui uma criança ou adolescente como as outras.


O que mais me fascinava, aliás, fascina, no jazz, é a sensação de nostalgia e classe que ele passa. Não há como não ouvir aquelas gravações antigas, com arranjos bem feitos, e não me sentir automaticamente transportada à década de 40, por exemplo. E, para alguém que se apega aos sentimentos nostálgicos com tanta intensidade quanto eu, esta sensação é deleitosa. 


Ademais, jazz é muito, muito chique. Mesmo nas mais extravagantes e escandalosas canções, tudo é feito com muita finesse. Não importa se a canção é mais emotiva ou alegre: a elegância é a mesma. 


Eis outra particularidade do jazz: ele pode ser enérgico ou calmo. Adoro os jazzes mais alegres, no maior estilo do entretenimento noturno das grandes cidades, adoro a miscelânea de sons emitidos por trompetes - instrumentos de sopro sempre me fascinaram. De outro lado, também fico deslumbrada quando ouço as baladas, sempre carregadas com tanta emoção, tanta melancolia, tanto sentimento.


Jazz fascina. Surgiu nos Estados Unidos e, por décadas, foi o único ritmo deste país: em toda parte, só se ouvia jazz. Talvez por isso ele tenha desenvolvido essas duas vertentes: a alegre e a melancólica. O ritmo precisou mesmo se desdobrar para atender toda a demanda de pessoas famintas por música.


Outrossim, por ter predominado e praticamente monopolizado a cultura de música e dança nos Estados Unidos entre as décadas de 1920 a 1950 (pois já no final dos anos 50 começam a surgir outros ritmos, como o doo wop e o rock'n'roll), talvez por isso represente tão bem a essência daquela época. 


É uma pena que, por preconceito contra tudo que vem de "antigamente", os jovens da atualidade se recusem a conhecer este portento que é o jazz! Até entendo; afinal, os dias de hoje pedem músicas com instrumental mais sofisticado e aparelhado, com mais apelo comercial, menos enrolação e mais ação. Tudo bem, também gosto disso. Todavia, ainda assim, no meu coração há um espaço especial reservado para os grandes clássicos! 


Nada melhor, para finalizar este texto, que deixar uma pequena playlist com alguns exemplares muito gostosos deste ritmo que, apesar de todo o meu esforço, não consegui descrever com palavras. Não é tarefa fácil definir jazz com palavras, e talvez nem seja necessário: jazz é para ser escutado e sentido, de preferência com a alma aberta e o coração tranquilo.


Dinah Washington - What a difference a day makes
Nina Simone - You've got to learn
Lou Rawls e Dianne Reeves - At last

"Não me subornaram, será que é o meu fim?"

De repente, não me sinto mais tentada. Não tem sido muito difícil resistir a tudo que antigamente me oferecia perigo. Se antes minha luta era para controlar impulsos, hoje mal encontro esses impulsos em mim. 

Não... Estou enganada; não foi de repente. Tudo isso é fruto de meses e meses ensinando a mim mesma que não devo cair em tentações. Foram dias e dias me policiando, educando meu cérebro, dizendo a mim mesma que posso, mas não devo. Foi difícil, no início. Hoje, todavia, tem sido tão fácil que começo a me estranhar.

Se por anos eu pude me definir como alguém que depende de certas coisas para viver, quão surpresa não estou estou em saber que, ademais de não mais ser dependente, ainda por cima consigo passar por elas sem precisar conter qualquer ímpeto de me entregar a elas!

Quem é esta nova eu? Como é possível que eu não mais sucumba? 

No idioma espanhol, há uma palavra que considero muito interessante: botín; que quer dizer: aquilo que o vencedor da guerra leva do perdedor. Pois bem; na vida, muitas vezes o botín que fica, após uma árdua conquista, também nos obriga a nos reposicionar perante as situações às quais estamos acostumados. É necessário adotar uma nova postura; afinal, somos agora novas pessoas - e, é bom frisar, pessoas melhores. 

É curioso, quase engraçado, não mais me afirmar perante a sociedade como aquela pessoa outrora por ela conhecida, com aqueles hábitos tão típicos e todas as peculiaridades que sempre foram meu cartão postal. As coisas, porém, agora são diferentes - melhores! E talvez seja complicado apresentar essa nova pessoa para toda a sociedade... Mas se ela é tão melhor que a outra, por que devo ter vergonha?


"Já sei olhar o rio por onde a vida passa

Sem me precipitar, e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora"
("Pra rua me levar",  Ana Carolina)



segunda-feira, 11 de julho de 2011

Psicologia, amor e sexo nas séries de TV: "Macho Man" e "Two and a half men"

A primeira temporada de "Macho Man" terminou na semana passada, e eu lamento. Na minha opinião, este seriado foi uma das melhores novidades da programação da Rede Globo neste ano. 

Além de ser engraçadíssimo e ter personagens super expressivos (alguns muito bizarros, e por isso mesmo, hilários), o que mais me agrada são as discussões sobre amor e sexualidade. Tudo é sempre tratado com muito humor, um humor que às vezes beira a excentricidade, mas o teor das temáticas é interessantíssimo. 

Os roteiristas Fernanda Young e Alexandre Machado (cada vez fico mais fã do trabalho deles, que conseguem mesclar diálogos inteligentes com comicidade; adorei os seriados "Separação" e "O sistema") falam de assuntos que realmente intrigam os homens e as mulheres, todos relacionados a amor e sexo (e há algo que nos intrigue mais?), mas fazem isso de forma engraçada, para não ficar pesado ou constrangedor demais. 

Devo destacar as atuações. Marisa Orth é sempre ótima, não varia muito em sua forma de atuar, mas sabe fazer como ninguém o papel de mulher perturbada. Apesar de bonita, ela não tem muita vergonha de parecer ridícula, e isso é fundamental para um papel que exige que a atriz não seja pudica. 


Jorge Fernando segue a mesma linha, não me parece ter várias nuances como ator, mas sabe ser engraçado como ninguém, e acho que isso é mais que suficiente para "Macho Man". 

As coadjuvantes são um destaque à parte. As atrizes Rita Elmor (que já havia feito um papel legal em "Separação legal") e Natália Klein (não a conhecia, mas a acho formidável) estão hilárias como uma bêbada e uma gótica que sempre soltam frases loucas. 

Mas o destaque maior, dou mesmo a Fernanda Young e Alexandre Machado, que estão mais afiados que nunca! Estava faltando, na TV brasileira, um programa que falasse de romances, sexo, homossexualidade, inseguranças e todos os demais temas que envolvem a relação homem e mulher (ou homem e homem, como o próprio "Macho Man" mostra), com tanta ousadia e cara de pau.

Nos EUA, que são bem mais conservadores que o Brasil, estas temáticas já são motes para programas de TV há algum tempo, e geram incrível sucesso. Assim foi com a excelente e  divertida "Sex and the city", que durou seis temporadas.

Young e Machado perceberam isso. Já abordavam amor e sexo em suas produções anteriores, mas acho que nunca foram tão longe quanto em "Macho Man". A começar pelo próprio enredo: a história gira em torno de um gay que passa a ser heterossexual! Desnecessário debater se isso é possível ou provável; legal mesmo é ver os embaraços e aventuras que ocorrem a partir disso.

Tal qual "Sex and the city" já mostrou, conflitos sexuais e românticos têm mais chance de serem bem abordados quando mostrados pelo ponto de vista das mulheres, que nutrem mais inseguranças neste aspecto do que os homens - ou talvez porque simplesmente reflitam mais sobre isso do que os homens, que preferem a parte prática. Em "Macho Man", a personagem feminina é Valéria (interpretada por Marisa Orth), uma cabeleireira que perdeu 20kg mas ainda não recuperou a autoestima que foi destruída ao longo de anos vivendo com o estigma de "gorda". 

Vez ou outra, lá está Valéria debatendo com suas colegas de salão ou com o seu melhor amigo, que é agora um "ex gay", sobre questões que a afligem, como mulher e como "ex gorda". É nestas horas que mais me divirto. Simplesmente adoro a forma como Young e Machado constroem as situações: Valéria está sempre desabafando e filosofando, criando teorias malucas (mas totalmente providas de sentido, eis a parte mais louca e incrível!) sobre as dificuldades nos relacionamentos amorosos, e em contraponto, seus colegas estão sempre tentando incrementar a discussão com relatos pessoais bizarros, ou simplesmente encarando o dito por Valéria por um lado mais engraçado ou improvável. 

Exemplo perfeito disto é o diálogo travado entre as personagens no décimo episódio, que foi ao ar em 10/06/2011:


Valéria: Acho sexo um saco.
Veneta: Exatamente como eu vejo, um saco.
Tifany: Eu gosto.
Valéria: Não. Você gosta de homem. Homem gosta de sexo, então o sexo vem no pacote.
Tifany: Qual a diferença?
Valéria: A diferença é que os homens transam e ficam satisfeitos, as mulheres transam e ficam inseguras.
Veneta: Exatamente, eu sempre tenho dúvidas se eu fingi direito.

E depois, Veneta ainda vem com esta: 
- Mulher não quer sexo, mulher quer homem, mas homem quer sexo, então a mulher engole.

Genial! Piadas de duplo sentido, confissões, inseguranças femininas, comparações entre homens e mulheres, está tudo aí. Só mesmo "Macho Man" fala de assuntos tão delicados e polêmicos com tanto atrevimento, de forma tão engraçada.

Outro aspecto que adoro no seriado é o fato como sempre decidem fazer algum jogo ou festa maluca entre os personagens. Ah, e vale frisar, todos os personagens têm algum lado obscuro ou excêntrico. Ninguém é absolutamente "normal" - e mesmo fora das telas, alguém é?

Tudo isto contribui para que assuntos sérios e verossímeis sejam abordados, mas com leveza. "Macho Man" convida-nos a refletir sobre sexo e romance, mas a rir disso também. Não traz respostas, e tampouco é essa a intenção. O propósito é divertir mesmo. Eu poderia dizer que o seriado trata de filosofia do amor e do sexo, com pitadas muito generosas de humor.

Outro seriado que aborda as mesmas temáticas, de forma tão engraçada quanto, é "Two and a half men" (que o SBT exibe às madrugadas com o nome de "Dois homens e meio"). É uma das atrações que mais tenho assistido nas últimas semanas, e tenho me divertido como nunca!

Interessante é que, em "Two and a half men", amor e sexo são mais discutidos sobre o ponto de vista masculino - e apesar de eu ter dito há pouco que o ponto de vista feminino rende mais, devo admitir que as abordagens são muito bem sucedidas e interessantes.


Na série, dois irmãos completamente diferentes se vêem dividindo o mesmo teto. Há ainda um garoto, Jake, filho de um dos irmãos, Alan - o mais conservador, é bom destacar -, que se vê às voltas com as diferenças do pai com o tio. Seu tio é Charlie, um solteirão boêmio que vê sexo e mulheres como passatempo, aliás, como seu passatempo predileto. Imaginem o tipo de influência que ele representa para o sobrinho! É isto que rende as situações mais hilárias.


Alan: Charlie, na minha idade todos meus amigos estão casados ou mortos.
Charlie: E qual a diferença? 




"Two and a half men" já vai para a sua nona temporada, e eu me alegro em saber que não assisti nem um décimo de todos os episódios. Cada um é mais legal que o outro.

Há duas coisas que chamam a minha atenção no seriado, e que me fazem com que eu dê aos criadores e roteiristas dele os meus parabéns: em primeiro lugar, a quantidade de piadas excelentes. Geralmente, em sitcoms americanas, encontramos duas ou três piadas boas em um episódio, e nem sempre são tão boas, mas o contexto geral te proporciona diversão. Já "Two and a half men" é sempre garantia de risadas. Os personagens são divertidíssimos, e as situações estão sempre ensejando tiradas rápidas e inteligentes.

A segunda coisa que quero destacar é a que, particularmente, mais me encanta: é a psicologia sempre implicitamente inserida nas piadas e na própria essência dos personagens. Charlie, apesar da pose de "garanhão", é obviamente um homem inseguro e emocionalmente imaturo. Tal qual seu irmão, sofre as consequências da criação (ou da falta de criação!) egoísta dada por sua mãe, Evelyn, e por isto mesmo, não sabe muito bem como lidar com as mulheres. Mas acha que sabe, ou até saiba, mas só o suficiente para conseguir a única coisa que espera delas: sexo. Quando a relação começa a envolver sentimentos e expectativas, Charlie se esquiva. 

Certa vez assisti a um episódio interessantíssimo (o o décimo quinto da sexta temporada, mais especificamente) em que Charlie e sua namorada Chelsea vão a uma terapeuta de casais. Outro episódio muito bom é um em que alguma mulher (não me lembro qual a personagem) tentava explicar a Charlie essa relação entre seu relacionamento mal sucedido com sua mãe, e seu comportamento com as mulheres.  

Neste site, a psicóloga Fernanda Davidoff fez uma análise psicológica muito interessante desta relação. Permitam que eu colacione apenas um fragmento dela: 

"Ela (a mãe de Alan e Charlie) vampirizou a possibilidade de ele (Alan) confiar no mundo e nas pessoas, pois além do dinheiro, suas doses de “carinho” trazem a frieza e a falta de contato. Evelyn, uma mulher narcisista, é incapaz de olhar para as verdadeiras necessidades dos filhos e muito menos fornecer-lhes o que precisam. Agora adultos, eles já formaram defesas para sobreviver, mas só as criaram porque foram submetidos a uma mãe invasiva, controladora, que não deixou que eles se desenvolvessem sem cicatrizes emocionais."

A discussão pode ir muito mais longe. A cada episódio temos novas pistas para desvendar essa intrigante relação, e a forma como ele afetou o desenvolvimento psicológico de Alan e Charlie, e ainda, como tudo isto tem afetado o menino Jake.

Enfim, ademais de todo o humor, essa parte psicológica por trás dos conflitos dos personagens de "Two and a half men" dá à série um charme especial, e a torna ainda mais interessante. 

Acho muito bom ver estes assuntos aparecendo nas séries de TV. Podemos simplesmente rir delas, ou realmente pensar sobre as reflexões que elas propõem. Mas o melhor é mesmo poder fazer os dois ao mesmo tempo.

Gabriela teimosa e ignorante


A maioria das pessoas vive como discípula de Gabriela: "Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim". Acham bonito dizer que "sou assim e não vou mudar". E ainda exigem: "quem quiser gostar de mim, tem que gostar do jeito que eu sou".

Certamente crêem que estes chavões são indicativos de personalidade forte. Com todo o respeito, a mim mais parece teimosia e ignorância.

Só mesmo uma pessoa muito teimosa pode querer estar presa às próprias raízes, sem considerar qualquer possibilidade de corrigir os próprios erros.

Só sendo muito orgulhoso para não dar o braço a torcer, não reconhecer os próprios defeitos e não estar disposto a mudar, mudar para melhor.

Só sendo muito "cabeça dura" para preferir "morrer assim", só porque "nasceu assim" e "cresceu assim".

Com todo o respeito pela composição de Caymmi e por todos que achem bonito repetir esses bordões, digo apenas: mostrar-se inclinado a mudar, a rever posturas, a reconsiderar decisões e repensar o seu próprio jeito de ser, não é sinal de fraqueza; é sinal de grandeza. Os teimosos é que são fracos, crianças birrentas sem coragem de dar a cara a tapa e assumir os próprios erros, preferindo justificá-los com o argumento de que fazem parte de sua própria natureza.

Juscelino Kubitschek uma vez disse: "Volto atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro". São palavras de muita sabedoria, a meu ver. Não são, Gabriela?


"Segundo a idéia falsíssima de que lhe não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa-vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados. E assim, por exemplo, que o indivíduo, propenso a encolerizar-se, quase sempre se desculpa com o seu temperamento. Em vez de se confessar culpado, lança a culpa ao seu organismo, acusando a Deus, dessa forma, de suas próprias faltas. E ainda uma conseqüência do orgulho que se encontra de permeio a todas as suas imperfeições.
(...)
 Compenetrai-vos, pois, de que o homem não se conserva vicioso, senão porque quer permanecer vicioso; de que aquele que queira corrigir-se sempre o pode. De outro modo, não existiria para o homem a lei do progresso. - Hahnemann(Paris, 1863.)."
(O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo IX, "A cólera")