domingo, 14 de novembro de 2010

Aniversário da cidade

O tipo de pessoa que mais atrapalha não é aquele que não ajuda: é o que não ajuda e ainda por cima reclama. Infelizmente, este perfil é muito típico do nosso povo brasileiro: trata-se de pessoas negativas, que falam mal de tudo, criticam o sistema porém nada fazem para melhorá-lo; pessoas que falam que o Brasil é um país atrasado e no entanto não têm nada de bom para oferecer a ele.

Vejo tanta gente dizendo: “esse país é horrível, um dia me mudo daqui”. Na grande maioria das vezes, quem diz isso é alguém que só fica de braços cruzados, rasgando o verbo cruelmente, mas não tem a menor capacidade de ter uma ideia que possa causar algum tipo de melhora, por menor que seja, ainda que seja no próprio quarto em que dorme. 

Pessoas assim geralmente não colaboram em nada. Passam pelo mundo e sua existência não deixa nenhum resquício positivo. Não deixam sua marca. São só mais um entre tantos, morrem sem deixar uma herança de trabalho, de legado, de boas ações, de boas ideias. Não conseguem mudar nem a própria vida, quanto menos a vida de alguém, mesmo que com um gesto pequeno. São pessoas amargas, negativas, que só destilam ódio. É compreensível que devam mudar-se do Brasil: é preciso ir a algum país que não exija nada deles; afinal, eles não têm nada para dar mesmo.



Hoje, 14 de novembro, é o aniversário da cidade em que eu moro. Faço parte desta história há quase duas décadas, e aqui cresceu muito desde então. Sei de tanta gente que passava dificuldades em outras cidades e vieram para cá a fim de mudarem de vida... Pessoas que conseguiram vencer aqui, conseguiram construir algo para si, conseguiram sustentar suas famílias e realizar seus sonhos – e no entanto, continuam a reclamar, a criticar a cidade e seus moradores. Só posso sentir pena de gente assim. Não sei se agem desta forma por ingratidão ou por despeito.  

Vejo universitários que vêm estudar aqui e põem-se a reclamar da cidade, da faculdade, de tudo. São pessoas que não conseguiram passar nos vestibulares das suas cidades de origem, não foram boas o suficiente, e agora sentem raiva por terem que viver numa cidade dessa, misturar-se a esse tipo de pessoas. Se odeiam estas pessoas é porque odeiam também a si mesmos, afinal, estão no mesmo nível – passaram no mesmo vestibular, não é verdade?

Nosso país tem problemas, e a minha cidade também tem muitos, muitos problemas – eu não nego, não sou de “tapar o sol com a peneira”. Mas enfim, nenhum lugar é perfeito, e mesmo com tantos problemas, há tanta gente que consegue ser feliz por aqui, não há? Por que nós não conseguiríamos? E se já estamos conseguindo, o que estamos fazendo para tentar mudar este quadro problemático?

Somos tão ingratos, tão preguiçosos, tão egocêntricos. Acabamos por conseguir alguma coisa na vida, e então cruzamos os braços enquanto os outros à nossa volta ainda passam dificuldades. Reclamamos, apontamos o dedo, procuramos razões que expliquem o sofrimento alheio e a “falta de evolução” do Brasil (alguém já ouviu falar em etnocentrismo? Li um livro sobre isso que mudou a minha vida). Falar é tão simples. E o que nós estamos fazendo para mudar isso?

Vejo que as pessoas que mais lutam e trabalham para melhorar seu município, Estado ou país, são pessoas que amam o lugar em que vivem. Os que odeiam são os mais inúteis; são imprestáveis, incapazes de ajudar em qualquer coisa, por mínima que seja; por isso querem sair daqui, ir para “um país de primeiro mundo”, que não precise de pessoas que saibam colaborar, lutar. Querem tudo pronto, tudo perfeito, porque têm preguiça ou simplesmente não têm capacidade para ajudar na construção de um mundo melhor. Julgam-se superiores demais para viver em um lugar que possui tantos problemas.

Pois eu digo uma coisa: cada um tem o que merece. 

Nasceste no lar que precisavas,
Vestiste o corpo físico que merecias,
Moras onde melhor Deus te proporcionou, de acordo com teu adiamento,
Possuis os recursos financeiros coerentes com tuas necessidades,
Nem mais, nem menos, mas o justo para as tuas lutas terrenas,
Teu ambiente de trabalho é o que elegeste espontaneamente para a tua realização,
Teus parentes, amigos são as almas que atraístes, com tua própria afinidade.
Portanto, teu destino está constantemente sob teu controle.
Tu escolhes, recolhes, eleges, atrais, buscas, expulsas, modificas tudo aquilo que te rodeia a existência.
Teus pensamentos e vontades são a chave de teus atos e atitude...
São as fontes de atracção e repulsão na tua jornada vivência.
Não reclames nem te faças de vítima.
Antes de tudo, analisa e observa.
A mudança está em tuas mãos.
Reprograme tua meta, busque o bem e viverás melhor.


(Chico Xavier)

Ninguém é o que é, ou está onde está, por acaso. E não adianta reclamar. É preciso agir. 

Não há nada de mais em querer uma vida melhor; mas se realmente você quer, tem que fazer por onde. Ter senso crítico para apontar os defeitos do lugar onde você mora não te faz melhor, tampouco é suficiente para que você mereça um lugar melhor.


Hoje a cidade em que eu moro desde muito novinha completa 52 anos. Há quem ame morar aqui, e há quem deteste. Eu particularmente não me identifico com bastante coisa (clima, estilo de vida das pessoas), mas não posso dizer que não gosto daqui. Fui e sou muito feliz nessa cidade. Cresci aqui. Aqui adquiri os conhecimentos que acumulei ao longo da vida. Aqui conheci pessoas incríveis, que mudaram minha vida, ou simplesmente me ensinaram alguma coisa e depois foram embora. Aqui amadureci. Foi nestas ruas que aprendi a ser criança, adolescente, adulta.

Adoro essa cidade, e sou grata a ela. Só Deus pode dizer se há algo aqui para mim no futuro. Não sei onde estarei amanhã, mas jamais serei ingrata. Jamais posso desdenhar das coisas que me fizeram ser o que sou, porque gosto do que sou hoje, e devo isso a tudo que sempre tive.



Feliz aniversário, cidade. Há quem não te valorize, assim como ocorre com o Brasil. Mas vocês permanecem assim, acolhendo a todos, estentendo a mão a todos que chegam e precisam de vocês, sejam eles ingratos ou não.      

Subestimando, e se enganando


No final do segundo episódio da segunda temporada de Glee, Rachel dedica uma canção a seu namorado Finn e canta para ele na frente de todos os amigos deles – e um detalhe: antes de cantar, ela faz todo um discurso. Certamente, se isto acontece na vida real, o namorado ficaria morrendo de vergonha – confesso, eu ficaria! Entretanto, a reação de Finn chamou-me a atenção. Ele não ficou constrangido nem vaidoso: ficou emocionado, não pela homenagem, mas por perceber que merecia aquilo.



Tudo bem que o Finn é apenas um personagem fictício, interpretado pelo ator Cory Monteith, mas foi desta forma que eu interpretei a reação dele. Finn é um bom menino, mas é um tanto quanto bobo, ingênuo, falta-lhe sagacidade para algumas coisas. Rachel, por sua vez, pensa pelos dois: é dominadora, pensa rápido e fala muito, gosta de impor sua opinião. Finn vê esses defeitos nela, mas a admira.

Rachel tem uma capacidade natural para a liderança, mas não é carismática, não inspira as pessoas a gostarem dela. Com Finn acontece o contrário: as pessoas gostam dele de graça, mas ele não tem força para saber liderar. Juntos, durante a primeira temporada, ambos foram aprendendo um com o outro. Finn encontrou dentro de si o líder que sempre soube que podia ser mas nunca conseguiu direito. Já Rachel aprendeu a respeitar mais as opiniões dos outros, a ser menos controladora – okay, neste ponto ela ainda precisa melhorar bastante, mas convenhamos, ela levou boas lições.

A maneira como Rachel se surpreende com o caráter de Finn é uma coisa muito emocionante de se ver. Ela o subestimou: mesmo sentindo-se atraída, via nele apenas um rostinho bonito sem nenhum conteúdo. Gostava dele, mas no fundo também queria controlá-lo, assim como quer fazer com todos à sua volta. Ela achava que só ela tinha coisas para ensinar a ele, mas por fim, descobriu que ele também tinha muito para ensiná-la.

Neste episódio que citei, Rachel sentiu a pressão de namorar um dos garotos mais populares da escola, e sentiu medo. Medo de perdê-lo. Logo ela, que sempre foi tão auto suficiente, tão segura de si, estava com medo de sentir que era pouco para Finn, que ele poderia querer mais e deixá-la para procurar algo melhor. E em uma situação como esta, seu jeito obsessivo não adiantaria: se Finn quisesse partir, ele poderia partir, e não haveria nada que ela pudesse fazer a respeito.

Foi então que ela viu o quanto ele era importante para ela. Tão importante que ela precisaria aprender a ser menos controladora, precisaria pensar sobre seus defeitos, sobre seu próprio jeito de ser.

Finn estava ajudando-a, mesmo sem querer, a ser uma pessoa melhor. E quando ela cantou sobre isso, ali na frente dele e de todos, ele ficou emocionado por saber que estava operando tamanha mudança na vida dela. Ele sentiu que valia alguma coisa, sentiu que mesmo sendo tudo que era, mesmo não sendo o cara mais legal e inteligente do mundo, podia muito bem fazer coisas importantes, significar algo importante na vida de uma pessoa.



Isso acontece em nossas vidas. Às vezes julgamos as pessoas pelo que elas são e não nos atentamos ao fato de que elas podem nos surpreender. É difícil de acreditar, mas mesmo as pessoas que parecem ser tão pouco podem fazer muito.

Sempre há aquele livro que você reluta em ler, acha a capa feia, o enredo ruim, mas de repente você o lê e a história dele muda a sua vida para sempre. Erramos muito subestimando as coisas e principalmente as pessoas também. Nem tudo é tão previsível quanto parece ser: aquela pessoa em que nós menos acreditamos pode ser a pessoa que vai transformar sua vida. Ou pode não ser, mas só descobriremos com o tempo. Por isso é tão errado fazer este tipo de julgamento.

Enquanto Rachel canta (por sinal, a canção que ela canta é “The only exception”, da banda Paramore), vemos uma cena super clichê, mas que neste contexto ficou perfeita e, pelo menos para mim, acrescentou algo à mensagem que eu assimilei: aparece Finn conversando com duas líderes de torcida bonitas e populares na escola, e Rachel, a simples Rachel com um vestidinho modesto e um casaco, sozinha no outro canto. Então Finn termina a conversa com as mocinhas e vai ao encontro de sua namorada. Contente, ela sorri por ele ter escolhido ficar com ela naquele momento.



Rachel é uma menina talentosíssima, esperta e com uma grande visão de mundo. Aparentemente, não precisa de ninguém. Mas aí ela encontra Finn, e permite que ele entre em sua vida e a faça feliz. Conclusão: mesmo a pessoa mais forte e confiante precisa de alguém. Todos precisamos de alguém que nos ajude a ser feliz, nos ajude a melhorar, ou simplesmente divida seu tempo e sua vida conosco. E, neste caso, esta pessoa foi justamente aquela que Rachel menos esperava, a que parecia menos capaz.

Como estará o mundo quando minha filha nascer?

Dias atrás estive conversando com um amiga sobre os fatos que levaram o nosso Estado a ser destaque nacional nos noticiários: o excesso de queimadas, os escândalos eleitorais e o recorde de consumo de bebida alcóolica. Um Estado tão jovem, e já com suas peripécias, chamando a atenção.

Este é o mundo em que eu estou vivendo. Em alguns aspectos, melhor que o mundo da época dos meus pais; em outros, pior. Como será o mundo em que meus filhos vão viver? Como estarão as coisas? Creio que não é possível prever. Às vezes temo por eles.

Ser pai/mãe requer uma responsabilidade tremenda. O mundo está tão complicado! Como agir para criar bem as nossas crianças? Como saber qual é a melhor maneira de prepará-los para lidar com tantos problemas, tantas loucuras?

Sinto como se estivéssemos em guerra, e fôssemos os responsáveis por treinar os soldados que lutarão nessa guerra completamente misteriosa, que ninguém sabe como será, ninguém sabe se será mais ou menos agressiva do que o esperado.

Acho minha geração tão perdida, tão imatura, tão confusa. São tantos valores que tentam incultir em nossas cabeças, tantas ideias vindas de todos os lados: da família, dos amigos, da mídia. Ninguém sabe ao certo o que fazer. Ninguém sabe se é melhor ser você mesmo, ser o que os outros esperam de você, ou simplesmente ser diferente.

Entretanto, uma pessoa muito querida estava contando para mim recentemente de um musical que assistiu e que retratava a vida dos jovens dos anos 60. “Que loucura, que povo desregrado”, ela dizia. “Então, a minha preocupação não é novidade”, eu concluí.

Então, há 40 anos, os jovens já eram assim. Seria uma característica típica da juventude ou será que apenas não evoluímos? Tem que ser sempre assim? Ou a tendência é melhorar, e simplesmente não conseguimos isso ainda?

Eu, particularmente, acho que o caminho certo a ser seguido é o da mudança, da mudança para melhor. Não é plausível acreditar que tenhamos que carregar esse estigma da imaturidade, da ignorância, da vida sem freios. Há pessoas que são assim por natureza e insistem nesse erro a vida inteira, mas enfim, creio que trata-se de algo que vem de cada um, e não de uma fase da vida. Porém... “Assim caminha a humanidade: com passos de formiga e sem vontade”, canta Lulu Santos.

E já que falei em música, a letra de “Como nossos pais”, de Belchior, sempre me pareceu perfeita, e vem a calhar exatamente com o que estou escrevendo agora. Por que insistimos em errar? Por que não conseguimos aprender com os erros de nossos antepassados? “Ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais”. Mesmo sabendo “que o novo sempre vem”, “nossos ídolos ainda são os mesmos”. E por ‘ídolos’, entendo como sendo o estilo de vida, os próprios ideais, os chavões que repetimos.

Tento imaginar como será a geração do futuro. Hoje tudo está tão ilimitado, os jovens têm acesso a tudo, podem tudo, fazem de tudo, quando querem. Não há mais idade-limite para nada, está tudo liberado. Se a tendência for “ir pra frente”, é possível que teremos uma futura geração de crianças adultas, de jovens que desfrutam os prazeres da idade adulta ainda na flor da idade e que se tornarão adultos frustrados, a postos para desistir da vida, por não terem mais nada a ser explorado, por tudo ter pedido a graça.

Mas há outra possibilidade. Há a possibilidade de as coisas se inverterem, de os valores do passado voltarem a ser atuais, de “começar tudo de novo”. Há a possibilidade de esta geração, cansada de tanto uso e abuso ilimitado, voltar a querer fazer tudo no tempo certo.  

Como eu disse antes, não é possível prever o futuro. Mas é preciso estar preparado para o que viver. Não sabemos qual o futuro que nos espera, mas quando esse futuro chegar, ele não vai esperar que a gente se adapte.   

Cena de sexo em Malhação: qual a melhor forma de produzir entretenimento para jovens

Créditos das imagens: Clube Só Novela


Quarta feira (10/11/10) foi ao ar, em Malhação, a primeira cena de sexo do casal de protagonistas. Embora muita gente ache que esta nova temporada do seriado ganhou pontos ao parar com a hipocrisia de que a garota protagonista tem que ser virgem e que a primeira vez só deve acontecer no final da temporada, eu por um lado achei que pecaram por deixarem passar a oportunidade de incentivar o uso da camisinha, ou dos anticoncepcionais.

O público tem se cansado de falso moralismo e tem exigido cada vez mais que as produções voltadas para adolescentes sejam mais realistas. Malhação sempre mostrou uma realidade de jovens certinhos e mocinhas virgens, uma realidade em que todos os adolescentes são bons alunos e tomam suco de acerola no barzinho depois da aula. Quando há vilões, são daqueles que armam as coisas mais mirabolantes para atrapalhar o casal. Particularmente, estas concepções nunca me incomodaram e eu sempre gostei do seriado; mas devo concordar que a imagem que eles passavam é que tudo era muito “cor de rosa”.

A nova temporada tem melhorado muito neste aspecto, mas penso que poderiam ter se lembrado do detalhe da camisinha. A menos que haja algo planejado para os protagonistas (uma gravidez para Catarina, eu quero dizer), acho arriscado trazer uma tônica mais realista para a história sem se atentar a estes detalhes que, na vida real, fazem toda a diferença.

É aí que abro uma discussão: afinal, o que a cultura jovem deve produzir? Coisas SOBRE jovens?, ou PARA jovens?

Porque se forem preocupar-se em produzir filmes, novelas, seriados e livros SOBRE o cotidiano jovem, precisarão incluir personagens promíscuos, que bebem, usam drogas, saem para a balada quando bem entendem etc. Não estou generalizando, é óbvio que nem todos os jovens são assim. Mas, sejamos francos: também nem todos são maduros e responsáveis como Pedro e Catarina, de Malhação.

Agora, se a intenção for produzir coisas PARA jovens, aí sempre será necessário incluir mensagens de conscientização sobre sexo seguro, bebida alcóolica, bullying e outras coisas do tipo. Seria uma tentativa de oferecer entretenimento com uma mensagem.

Uma boa alternativa seria conciliar as duas coisas, e eu creio que a nova temporada de Malhação está quase conseguindo isto: teria sido perfeito se, durante a cena de sexo de Pedro e Catarina (que aliás, ficou muito bem feita, foi de muito bom gosto), eles tivessem falado sobre proteção. 

Planos demais


Assisti uma boa palestra esta semana, daquelas com cunho motivacional, mas que me trouxe lições muito interessantes; algumas mais clichê, outras nem tanto, e outras nada novas mas sobre as quais eu nunca havia refletido muito afundo – destas, eu destaco uma:  possuir metas específicas.

Ser feliz, realizar-se profissionalmente e coisas afins, são objetivos muito nobres e certamente todos desejamos, mas são vagos demais. É preciso ter metas específicas, pois só assim saberemos exatamente o que devemos fazer para chegar no lugar que queremos.

Há pessoas que ainda não traçaram metas específicas para suas vidas, ainda não se decidiram, não sabem o que querem. Por outro lado, há pessoas que possuem metas demais.

Passar em um concurso público. Perder 10kg, malhar muito e ficar sarada. Casar-se antes dos 30. Ter um apartamento no litoral e um carro de luxo. Fazer um Mestrado. Ganhar um prêmio. Conhecer o Caribe. Enfim... Há tantas coisas legais para se desejar! Muitas delas são possíveis de acontecer ao mesmo tempo, pois não impedem umas às outras. Mas e quando as coisas que você deseja não são conciliáveis? Neste caso, é preciso escolher.

É o típico dilema sentimental dos jovens (principalmente AS jovens) de hoje em dia: adorariam encontrar um grande amor e ficar junto a ele pela vida inteira, mas ao mesmo tempo querem curtir a vida e conhecer muitas pessoas. São duas coisas incompatíveis. Como proceder?

Não há outra saída: é necessário fazer uma escolha. E, como dizia aquele velho tema de Malhação, “a cada escolha, uma renúncia será feita”.

Porém, se não for este o caso, a coisa certa a fazer é igualmente difícil: lutar, perservar, ter disciplina e muita força, até alcançar os objetivos. As coisas não são fáceis, mas são possíveis. 

Deus não perdoa, mas e a consciência?

Ter consciência das coisas é algo muito complicado. Uma vez você tendo conquistado o entendimento de algo, não tem mais direito de errar. Sim, porque uma coisa é errar por realmente não saber; outra coisa é saber o que é certo e ainda assim agir errado. Esse é o pior dos erros: é o erro de quem não usa a inteligência, é o erro de quem desperdiça o que sabe. “A quem muito se deu, muito se exigirá”, diz a Bíblia (Lucas, 12:48). Ou seja, o fardo do sabedor é mais pesado que o do ignorante.  

É claro que, mesmo sendo conscientes, não somos perfeitos: às vezes dá vontade de fazer o errado, mesmo sabendo o certo; dá vontade de se revoltar, mesmo sabendo que não é a coisa mais correta a ser feita. Então você vai, cria coragem, faz, e depois a sua consciência fica martelando, te acusando com toda a severidade, te condenando antes mesmo de qualquer outra pessoa querer te julgar. “Você errou”, ela diz. “Por que fez isso? Você sabia que não devia, sempre soube”. E então você não se perdoa.

Não tenho medo de não ser perdoada por Deus. Deus não perdoa, isso é muito claro para mim. Não é que eu acredite em um Deus mau e inflexível; o fato é que, pura e simplesmente, Deus não tem o que perdoar. Só perdoa quem se magoa. Deus não precisa perdoar, porque não guarda mágoa de nenhum de seus filhos. Ele ama a todos, e conhece a todos, mais do que eles próprios se conhecem. Conhecendo-nos tão profundamente, ele sabe o quanto somos imperfeitos, fracos, enfim, humanos. Humanos erram, humanos falham, humanos têm fraquezas. Deus não se magoa com nossas falhas, porque sabe que estamos propensos a elas.

Ainda assim, temos o costume de pedir perdão a Deus. Tudo bem, não tem problema. Às vezes agimos mal, e sentimo-nos no dever de desculpar-nos para com Deus, por termos fraquejado, por termos agido contra os Seus princípios. Nestas horas, é válido orar, desabafar, pedir perdão a Deus. A prece feita com o coração é sempre oportuna. Todavia, Deus ama sempre, e nunca pune: apenas dá o que nos é merecido. Os frutos que colhemos não são advindos da ira ou da predileção de Deus, mas sim, de nossas próprias atitudes. Cada um tem o que merece. Essa é a verdadeira Justiça Divina.

Quando erramos, não é Deus que estamos machucando: são os nossos conviventes, as pessoas que são afetados por nossos erros; ou ainda, machucamos a nós mesmos. Sim, porque a consciência é implacável. Ainda que a “vítima” da nossa falha venha a nos perdoar um dia, sempre nos lembraremos do mal que fizemos. Podemos até conseguir conviver com isso, meses, até anos sem lembrar-nos, mas um dia a lembrança vem, e nos atormenta. “Como fui capaz?”, você se pergunta.

Contudo, é claro que todo erro pode ser reparado. “O amor cobre uma multidão de pecados”. Não há ação ruim que não possa ser consertada por uma boa, desde que seja realmente praticada com o coração, com intenções verdadeiras e não para causar uma falsa impressão de bondade.

A consciência castiga, é verdade; mas também não precisamos nos conformar a viver sendo castigados. Por que não fazer o que é certo? Por que não tentarmos consertar o que foi estragado? Certos estragos são irreparáveis, mas há outras maneiras de fazer o bem, de tentar ajudar, de tentar ser melhor. O que vale é a intenção, nossos ancestrais já diziam. É uma frase antiga, incansavelmente repetida, mas totalmente acertada. Alguns indíviduos retrucam: “De boas intenções, o inferno está cheio”. Será? Se for, de qualquer forma, acho que o céu deve estar mais cheio ainda.

Para encerrar, deixo uma linda mensagem de Emmanuel, psicografada por Chico Xavier. É a lição n.º 5 do livro "Vinha de luz":

Com amor

“E, sobre tudo isto, revesti-vos de caridade, que é o vínculo da perfeição.” - Paulo. (Colossenses, 3:14.)
Todo discípulo do Evangelho precisará coragem para atacar os serviços da redenção de si mesmo.
Nenhum dispensará as armaduras da fé, a fim de marchar com desassombro sob tempestades.
O caminho de resgate e elevação permanece cheio de espinhos.
O trabalho constituir-se-á de lutas, de sofrimentos, de sacrifícios, de suor, de testemunhos.
Toda a preparação é necessária, no capítulo da resistência; entretanto, sobre tudo isto é indispensável revestir-se nossa alma de caridade, que é amor sublime.
A nobreza de caráter, a confiança, a benevolência, a fé, a ciência, a penetração, os dons e as possibilidades são fios preciosos, mas o amor é o tear divino que os entrelaçará, tecendo a túnica da perfeição espiritual.
A disciplina e a educação, a escola e a cultura, o esforço e a obra, são flores e frutos na árvore da vida, todavia, o amor é a raiz eterna.
Mas, como amaremos no serviço diário?
Renovemo-nos no espírito do Senhor e compreendamos os nossos semelhantes.
Auxiliemos em silêncio, entendendo a situação de cada um, temperando a bondade com a energia, e a fraternidade com a justiça.
Ouçamos a sugestão do amor, a cada passo, na senda evolutiva.
Quem ama, compreende; e quem compreende, trabalha pelo mundo melhor. 

As coisas que desejamos para nossos filhos

Quadro "Motherhood II", de Mary Cassatt

(Para ilustrar este texto, escolhi pinturas da norte americana Mary Cassatt, impressionista que pintou várias cenas lindas de mães e filhos. 
Atualização: 27.07.2017 - Se quiser conhecer melhor as obras desta magnífica pintora, visite a página dela no site Artsy)

Eu sei que, mais cedo ou mais tarde, meus filhos manifestarão sua própria personalidade. Ainda que eu tente incutir neles os meus valores, com o tempo eles também terão os deles. Mesmo assim, eu me sinto no direito de desejar que meus filhos não sejam algumas coisas.

Existem tantas coisas maravilhosas nesse mundo... Por que tanta gente ainda perde tempo? Vejo tantas pessoas que tentam preencher o vazio dentro de si com festas, bebidas e falsas amizades, criando uma ilusão, na tentativa de enganarem os outros, fazendo-os pensar que sua vida é incrível, enquanto na verdade tudo não passa de um grande vazio, de uma vida sem sentido.

Eu adoraria que meus filhos gostassem de algum esporte, ou tocassem algum instrumento, se interessassem por alguma coisa legal, um idioma, uma ciência em especial, ou qualquer outra atividade saudável. Até posso instigá-los, posso sugerir, incentivar, mas não poderei impor. Há coisas que podemos impor (as atividades escolares, por exemplo), e há outras que não. Como ter, portanto, a certeza de que eles optarão por uma dentre tantas coisas boas que eu desejo para eles? E se eles forem simplesmente pessoas fúteis, superficiais, ou desequilibradas, arruaceiras, exatamente como eu temo?

Se isso acontecer, quero pelo menos ter a tranquilidade de poder dizer a mim mesma: fiz tudo que pude. Por mais esforçada que seja uma mãe ou um pai, há um certo limite para a boa vontade em suas ações: chega um ponto em que o filho terá que trilhar seu próprio caminho. Almejo, quando este dia chegar, estar em paz com minha consciência e saber que dei tudo de mim e fiz o possível para que meus filhos sejam boas pessoas.  

Quatro "Mother and Child V", de Mary Cassatt

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A homossexualidade feminina e a masculina: uma análise à luz da mídia e da cultura pop


O personagem Kurt Hummel, interpretado por Chris Colfer (indicado ao Emmy deste ano), na série Glee, sempre sofreu por ser homossexual, mas nesta segunda temporada seu sofrimento tem me tocado mais, em especial no terceiro episódio, em que ele passa por um problema que nem envolve sua opção sexual, mas em alguns momentos isto vem à tona. De outro lado, as cheerleaders Brittany e Santana são bissexuais (durante toda a primeira temporada isto ficou meio implícito, mas agora na segunda está bem claro, já mostraram até cenas das duas juntas), e entretanto, levam isso numa boa.

Esse disparate fez-me pensar na questão da homossexualidade feminina e da masculina. Sem dúvida, a homossexualidade de uma forma geral é hoje muitíssimo mais bem vista do que era há tempos atrás. Tudo isto se deve não somente à luta dos grupos homossexuais e à conscientização da sociedade, mas também à grande influência da cultura pop; Madonna foi praticamente uma pioneira desbravando este terreno. E é sobre isto que gostaria de propor uma reflexão: tenho reparado que a homossexualidade feminina é mais aceita que a masculina. Por quê?

Antes de aprofundar-me, quero deixar claro que não fiz grandes pesquisas para escrever sobre isto, tampouco pretendo que este texto seja um artigo científico; trata-se de apenas pontos de vista meus, e posso cometer erros e até me esquecer de algumas coisas. Se alguém quiser corrigir ou acrescentar algo, sinta-se à vontade para entrar em contato comigo.

Também preciso salientar que meu enfoque será dado mais para a cultura pop dos Estados Unidos do que para a do Brasil, haja visto que aqui a indústria da música e do entretenimento funcionam de uma maneira um pouco diferente.

Vamos lá: a impressão que eu tenho é que as mulheres têm se sentido mais confortáveis em assumir suas opções sexuais do que os homens, e creio que posso associar isto à popularização e, por que não dizer?, à glamourização da homossexualidade feminina.

Citei Madonna porque sinceramente não saberia nomear outra figura na música e no showbusiness que tenha difundido com tanta intensidade a ideia de que as pessoas devam ser livres para vivenciar suas próprias experiências e serem verdadeiras acerca disso, nem outra que tenha obtido tamanho êxito à sua época. Talvez no cinema tenha havido: eu citaria Marlene Dietrich, a linda e intrigante alemã que, ainda nos conservadores anos 30, polemizou ao aparecer vestida de homem no filme "Marrocos" e beijar uma moça na boca. 

É claro que a homossexualidade não é um fenômeno recente, aliás, nem é um fenômeno, é uma opção sexual mesmo. Mas acho que a imprensa nunca encarou a questão com tanta normalidade como tem feito após o surgimento de Madonna, e ademais, acho que as mulheres têm sido privilegiadas. Há menos homens assumidamente homossexuais, e pouquíssimos se atrevem a usar isso em seus vídeos e músicas - eu acho que não saberia dizer o nome de nenhum!

Vejamos como a mídia pós-Madonna está repleta de referências ao lesbianismo:

* Melissa Etheridge assumiu-se lésbica e anunciou seu namoro com a atriz de "Popular", Tammy Lynn Michaels. Hoje, ela está casada com a atriz Portia De Rossi.

* Ellen de Generes é uma das apresentadoras mais queridas e bem-sucedidas

Mais recentemente... 
    

* Britney e Madonna lançam o single "Me against the music" (2003), cujo vídeo quase tem uma cena de beijo no final
 
* Novamente Britney e Madonna, e desta vez unidas a Christina Aguilera, abrem o VMA 2004 com um medley de "Like a virgin" e "Hollywood", e no meio da apresentação, Madonna beija as duas moças na boca

* Em 2008, Katy Perry estoura com o single "I kissed a girl"

E, por fim... 

* Surge Lady GaGa, causando uma reviravolta no mundo da música pop e alçada ao posto de novo ícone do movimento gay

Esses dias atrás li também uma declaração da Christina Aguilera dizendo: "Meu marido sabe que gosto de garotas", e acho que Cameron Diaz também já se pronunciou a respeito.

O que eu percebo é que: Lady GaGa já apareceu namorando uma mulher, Lindsay Lohan assumiu-se lésbica, Ellen de Generes é muito querida e respeitada... Mas e os homens? Por que para eles não parece ser tão fácil assim? Por que nenhum destes casos que eu mencionei fez tanto alarde quanto um único caso de revelação de homossexualidade masculina, como por exemplo, o de Ricky Martin? Será que faltou, na cultura pop norte-americana, uma figura masculina forte como Madonna para levantar esta bandeira?

Aqui no Brasil as coisas não são tão glamourizadas porque a MTV tem menos influência, os videoclipes não fazem tanto sucesso, nossa cultura pop é fraca e o mundo do entretenimento é muito mais alimentado pelas revistas de celebridade e pelos canais de TV aberta - e isto não é uma crítica, só estou descrevendo o nosso cenário que, aliás, em alguns pontos acho muito melhor. Na música e na TV, acho que a homossexualidade é vista com mais respeito, até porque houveram e ainda há artistas de peso, respeitados e talentosos que são/foram assumidamente homossexuais, como Ney Matogrosso, Ana Carolina e os falecidos Cazuza e Cássia Eller; enquanto que nos Estados Unidos, atualmente, as polêmicas giram mais em torno de celebridades, cantores e atores que, não obstante tenham talento, utilizam mais a própria imagem e a indústria do showbizz para alcançarem sucesso.

Minha intenção, com este texto, não é apontar erros e acertos na cultura de cada país, mas apenas levantar esta discussão sobre a homossexualidade feminina, para a qual a sociedade e em especial a imprensa está muito mais receptiva que para a homossexualidade masculina. Citei cultura pop porque me interessa e porque acho que pode ser um fator decisivo nesta questão, mas pode ser que haja outros motivos - e pode até ser que seja impressão minha, que tanto homens quanto mulheres tenham liberdade para assumirem-se como são.

A parte mais triste é que existem muitos homens escondendo sua opção sexual até mesmo da própria família, por vergonha ou medo de não serem aceitos. A virilidade masculina é hoje muito mais valorizada e exigida que a própria feminilidade nas mulheres, e acho que isto se deve ao fato de as mulheres terem conquistado espaço no mercado de trabalho. É okay uma mulher vestir-se como homem, de terno, calças, sapato fechado, ou cortar os cabelos curtos; mas o contrário é inadmissível, a sociedade rechaça. Nesta seara, vale a pena colar aqui um trecho de uma canção da própria Madonna, "What it feels like for a girl", que está no álbum "Music", lançado em 2000:

"Girls can wear jeans
And cut their hair short
Wear shirts and boots
Cause it's okay to be a boy

But for a boy to look like a girl is degrading
Cause you think being a girl is degrading"

Em português, e em uma tradução livre feita por mim mesma:
"Garotas podem usar jeans e cortar os cabelos curtos, usar camisas e botas, porque é normal ser um garoto. Mas, para um garoto, parecer uma garota é degradante, porque você pensa que ser uma garota é degradante"


E mesmo quando a homossexualidade restringe-se à escolha do parceiro, não deixando transparecer em nada na forma de agir ou vestir-se, os homens mais uma vez saem prejudicados. Lady GaGa, Britney, Madonna, Lindsay Lohan e tantas outras famosas passam a noção, nos videoclipes ou na vida real, de que uma mulher lésbica não é necessariamente uma mulher com trejeitos masculinos, e pode muito bem ser bastante feminina. Mas e os homens? Vejo tão poucos gays que não sejam afeminados - e certamente não é porque eles não existem, mas porque não se assumem. Um exemplo é o próprio Ricky Martin: mesmo sendo gay, acho ele bastante másculo, mas infelizmente muitos discordam de mim, simplesmente porque ele dança rebolando, como se mexer os quadris fosse exclusividade das mulheres.


A legislação brasileira não admite o casamento civil gay, mas a sociedade felizmente tem se mostrado cada dia menos preconceituosa. O preconceito vem diminuindo... mas ainda existe, e percebo que tem atingido muito mais os homens que as mulheres.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Consolo urbano

Créditos da imagem: Olhares Fotografia Online



"These streets will make you feel brand new... Big lights will inspire you!"
("Empire state of mind", Jay-Z & Alicia Keys)


Dia 08 de novembro foi o Dia da Urbanidade. Desconhecia essa data, como ainda desconheço a sua necessidade; mas de qualquer forma, aproveito a ocasião (já passada) para falar do quanto aprecio a vida urbana e de como consigo ver poesia nela, apesar de tudo.

Desde muito pequena, sempre preferi a cidade ao campo. Conforme fui ficando mais velha, acabei encontrando minha justificativa - se bem que não passa de uma "desculpa", mas ainda assim faz sentido.

A natureza é linda, claro, e eu até compreendo que as pessoas associem-na à paz, ao sossego e à tranquilidade. A paz deve partir de dentro, primeiramente; é preciso cultivar a paz dentro do espírito; entretanto, estas atitudes constituem, nos dias de hoje, quase um desafio. A humanidade nunca foi tão atormentada com tantos problemas de diversos tipos, nunca se viu tão vulnerável às fraquezas de ordem psicológica; portanto, às vezes, procurar a paz no mundo à nossa volta pode ser uma boa alternativa – em alguns casos pode ser até a salvação.  

Todavia, o excesso de calmaria transmitido pelas paisagens naturais não me é tão confortante quanto os ruídos das cidades, por mais absurda que esta afirmação possa parecer.

Observar o cotidiano da cidade me passa uma forte ideia de que está tudo certo, tudo okay. Ver tanta ação acontecendo só me faz chegar a uma conclusão: o tempo não para. E tudo isso funciona ainda mais quando estamos tristes ou sem força para seguir em frente.

Os carros estão passando pelas ruas, guiados por pessoas que precisam chegar a algum lugar.
Uma mãe atravessa a rua, apertando a mão de seu filho, a fim de levá-lo à escola. Ele precisa estudar e ela o está levando para fazer isso.
Os vendedores estão dentro de suas lojas tentando vender seus produtos. Os consumidores estão andando de loja em loja, procurando o produto que lhes saia mais em conta. 
Os garis varrem as ruas, os eletricistas consertam a fiação, os mototaxistas transportam seus clientes.
As pessoas estão trabalhando, fazendo o que devem fazer.
O tempo está correndo.
A vida está acontecendo.
O mundo não parou apenas porque aconteceu um problema em minha vida.
Tudo continua. A vida continua.
E eu também devo continuar.

... Get a life.

O que é tudo isso que acontece na sua vida? Pra quê serve?

A sua vida é gasta às custas da sua própria vida. Você cria situações a fim de ter sobre o que falar, ter o que fazer. Passa o dia inteiro falando com essas pessoas porque o simples fato de estar falando com elas gerará assunto para falar depois.

Você frequenta a faculdade, mas pra quê? Não gosta das aulas; ao fim, responde a chamada, mas não absorveu nada. A pessoa que chega em casa é a mesma que saiu, você não mudou nada, não aprendeu nada.

Você acha que precisa de dinheiro, de amigos, de um emprego, de um relacionamento. E quando você tiver tudo isso, saberá o que fazer? No que se transformará sua vida quando você tiver uma vida? O que é tudo isso que você está vivendo agora?

Você faz escândalos por não conseguir o que quer, que é sempre o que todos os outros também querem. Você está só sendo dramático ou de fato sua vida é tão vazia assim?

Você repudia tudo que não é vazio, detesta as pessoas que detestam a mediocridade, mas se esquece que são pessoas assim que estão fazendo o mundo girar, criando as coisas das quais você precisa para resolver os seus problemas.

O que você faz? Quem é você?

Quem é você quando você acorda? E quando você se deita para dormir, quem é você?

Os seus dias passam rápido. Nada ocupa mais que a falta de ter o que fazer.

Quem são essas pessoas que você coloca em um pedestal? Você as vê caindo todos os dias, e as coloca de volta.

Você acha que aprendeu muita coisa e ri da cara de quem ousa achar que tem algo a te ensinar. Mas o que é mesmo que você sabe? Se sabe tanto, por que ainda está aí? O que você tem para oferecer ao mundo?

Ah... Busque um sentido para a sua existência. 

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O RPM foi compreendido?

Ontem a Rede Globo exibiu o especial "Por toda minha vida", desta vez contando a história da banda RPM. Assisti e achei o máximo, embora tivesse mais outras expectativas...

Ouço RPM desde menina e com certeza essa fase (rock brasileiro dos anos 80) é uma das que eu mais gostaria de ter vivido! Antes mesmo de eu nascer, a banda já havia acabado... Já escrevi aqui no blog sobre o meu fascínio pelo passado, e toda vez que ouço essas músicas ou vejo vídeos fico com este sentimento... O RPM ao vivo devia ser incrível...

Eu gosto muito de pesquisar sobre música, história da música e o contexto social das épocas em que as canções foram lançadas. A verdade é que não sei se tenho uma explicação perfeita que justifique o estrondoso sucesso do RPM – porque neste ponto todos concordam: nunca houve tanto estardalhaço no Brasil por causa de uma banda; os números comprovam: o primeiro álbum, “Revoluções por minuto”, de 1985, vendeu 500 mil cópias apenas no ano de lançamento, e o segundo, gravado ao vivo em 1986, bateu um recorde, chegando a 2 milhões de cópias vendidas. (Fonte: http://www.anos80.com.br/notorious/rpm_rpm.html; acesso em 05/11/10, às 15h).


A banda era incrível, as músicas eram super empolgantes e possuíam uma sonoridade inovadora e espetacular (como bem frisou Ney Matogrosso no documentário exibido ontem), letras geniais, Paulo Ricardo era carismático, os rapazes tocavam muito bem, etc e tal. Mas a minha dúvida é: foi mesmo a combinação de todos estes fatores que alçou a banda a tamanho estrelato?

Não era a primeira vez que jovens ousados e talentosos liderados por um rostinho bonito geravam tanta histeria. Há exatos 20 anos, Roberto, Erasmo e Wanderléa também estouraram com o programa Jovem Guarda, cantando canções com letras irreverentes (okay, hoje são puríssimas, mas para os anos 60 era bastante audaciosas; “Quero que vá tudo pro inferno” chegou a ser censurada), lançando moda e vendendo centenas de cópias de seus álbuns.

Tampouco era a primeira vez que um som totalmente novo, diferente de tudo que já se tinha ouvido, invadiu as rádios. Os tropicalistas, no final dos anos 60 e início dos anos 70, também faziam canções que mesclavam a recém-nascida MPB (nos moldes em que hoje a conhecemos) com as guitarras do rock’n’roll norte americano, e houve até quem incluísse samba, jazz e baião.

Portanto, qual foi o segredo do sucesso do RPM? Por que deu tão certo?

Seja qual for a linha de raciocínio adotada para tentar responder esta pergunta, não se deve deixar de fora a época em que tudo aconteceu: fim da ditadura militar, movimento Diretas Já, Rock in Rio. O RPM passava uma ideia de rebeldia muito grande, mas uma rebeldia “com causa”, com ideais. Ainda sim, não creio que tenham sido estes ideais que chamaram a atenção de tantos jovens que converteram-se em fãs. Creio que foi o próprio sentimento de identidade, de revolta, de estilo, que o RPM inspirava, somados à força da imagem que eles tinham, os shows cheios de iluminações especiais, as roupas que eles usavam... Afinal, não podemos nos esquecer que foi justamente nesta época que a imagem começou a ser uma grande aliada da música pop.

Arrisco até afirmar que o RPM estava, sem saber, preparando a massa consumidora de música pop para a grande revolução que começava a contagiar esta indústria e que ainda não tinha surtido efeitos em nosso país, mas que chegaria em pouquíssimo tempo. Madonna e Michael Jackson reinventaram a linguagem do videoclipe justamente nesta época (segunda metade dos anos 80), assim como criaram um novo estilo de fazer shows, com performances, coreografias, espetáculos de luz e som, tudo muito bem elaborado para chocar e ganhar os espectadores (já falei sobre isso numa postagem sobre Miley Cyrus aqui no blog, logo no final do texto).

É claro que o RPM tinha uma vertente totalmente distinta de Michael Jackson e Madonna; não pude, todavia, evitar traçar este paralelo. Eles fizeram música de qualidade, muita qualidade, mas não podemos ficar cegos ao fato de que a juventude e o sex appeal dos rapazes contribuíram muito para que conseguissem aquela fama surreal.

Afinal, o que levou os adolescentes dos anos 80 a se identificarem tanto com o RPM? Foi a aura de rock star que eles tinham?, foram as ideias propagadas nas letras das músicas?, ou foi tudo isso junto?
A mim, particularmente, o que mais encanta é o binômio som revolucionário + letras revolucionárias. Não à toa, revolução está no próprio nome da banda, que teve origem em uma das primeiras canções lançadas pela banda: Revoluções por minuto, a minha favorita deles, uma canção estupenda, genial (vejam o vídeo abaixo no Youtube).


O que são esses teclados catatônicos, essa coisa meio nave espacial? Simplesmente incrível; eu imagino como deve ter sido ouvir isso pela primeira vez em pleno ano de 1985. E a letra? Mesmo hoje, 25 anos depois, é atual, é muito inteligente, perfeita para um mundo que começava a lidar com os dilemas da globalização, do capitalismo que muito em breve predominaria em praticamente todo o mundo (o Muro de Berlim caiu em 1989, quatro anos depois do lançamento desta canção); e igualmente perfeita para o mundo de hoje, que ainda possui os mesmos problemas para resolver.

“Agora a China bebe Coca Cola, e na esquina cheiram cola; biodegradante, aromatizante tem. Sinceramente, sinto inveja da geração que tinha canções assim para ouvir nas rádios e tocar nas festas de colégio: animadas, com uma batida legal, e ao mesmo tempo uma letra ótima.

Tudo isto me leva a pensar se alguma banda atual será tão comentada e lembrada, nas próximas décadas, como o RPM continua sendo e sempre será. Certa vez li uma entrevista do empresário Tutinha (dono da Rádio Jovem Pan e criador do programa Pânico) na qual ele dizia que os artistas de hoje em dia são bons, mas não farão história. Acho que concordo.

Ainda nos anos 90 surgiram bandas muito boas - eu destaco o Skank -, mas e agora? Não é que eu não goste da música que está sendo feita atualmente; eu gosto, mas acho que não vai ser algo a ser transmitido de pai para filho, como são as músicas do RPM, Paralamas, Titãs, Kid Abelha e afins.

Mas, voltando ao RPM, e voltando à discussão... Uma banda que agrade mente e ouvidos ao mesmo tempo é digna de méritos mesmo.

Créditos da imagem: blog
Ocean of Noise
É justamente por isso que batizei este texto com este título. Quem analisa somente as letras do RPM, sem se atentar ao som, pode pensar que era uma banda altamente engajada, cujo compromisso maior era passar uma mensagem de ativismo, preocupação e indignação com tudo que estava acontecendo. Mas aí, quando você esquece as letras e ouve o som, você pensa que também era uma banda que queria fazer um som diferente, fazer realmente uma revolução musical. Por fim, quando você procura saber sobre todo o reboliço que eles causaram, pode pensar que tratou-se apenas de uma sensação teen, como tantas outras. No final das contas, “qual era” a do RPM? O que eles queriam, afinal?

Eu sou fascinada pelas letras das músicas deles. Até mesmo “Olhar 43” (essa nunca vai cair de moda), que era mais juvenil e menos politizada, tinha um jeito todo especial de enfatizar aquela sexualidade que permeava a cabeça dos jovens daquela época, jovens esses que nasceram de outros jovens que testemunharam e vivenciaram a revolução sexual; “filhos de Woodstock”, eu diria. Ademais, acho muito interessante a forma como a figura da mulher é colocada na letra da música: o eu lírico mostra-se interessado em uma mulher sedutora, enigmática, sensual, bonita, que tem consciência da atração que exerce, e que está disposta a brincar com os desejos dos homens; exatamente o tipo de personalidade que as mulheres dos anos 80 estavam criando coragem para assumir, após tantos séculos em que elas passaram aprisionadas ao estigma da mulher submissa e sexualmente reprimida.

Porém, eu tenho minhas dúvidas. Se a intenção do RPM era entrar para a história por causa das letras das músicas, acho que houve uma pequena frustração; afinal, não tenho que voltar no tempo (ainda que isso fosse possível!) tampouco preciso entrevistar adultos que foram jovens nos anos 80 para saber que nem todas as pessoas admiravam o RPM por causa das ideias, das mensagens. Tenho certeza de que muitos admiravam mesmo é o estilo, a imagem cool, ou simplesmente a beleza dos integrantes – e quanto a este último aspecto eu coloco boa parte da culpa em nós, mulheres, sempre enxergando nos ídolos famosos os príncipes que sonhamos para nós mesmas, caindo às vezes na futilidade e na superficialidade, prestando o ridículo papel de gritar e se descabelar por um corpinho. Isto sem mencionar aquela velha fantasia que as mulheres têm com os bad boys. Imagino que o Paulo Ricardo tenha se amoldado perfeitamente neste perfil idealizado pelas moçoilas da época.

Mesmo assim, mesmo com toda a frivolidade e idolatria vazia que pudessem existir, ainda assim aquela geração foi privilegiada. Talvez, passada a euforia, muitos deles hoje analisem as músicas e entendam que tinham um significado.

Por isso falei, no início do texto, que tinha mais expectativas em relação ao especial “Por toda minha vida”. Eu adoraria saber como foi o processo de composição das canções, o que eles estavam pensando, o que quiseram realmente dizer. Gostaria de saber se as interpretações que faço estão corretas. Mas, de qualquer jeito, foi ótimo. É sempre bom conhecer a história por trás da história, os bastidores. Sem mencionar que este tipo de acontecimento serve também para apresentar as velhas bandas às novas gerações.

Anyway...
O que importa é que eles deixaram um legado (tenho usado tanto esta palavra aqui no blog!) incrível, músicas que nunca vão envelhecer, e que muita gente continuará escutando por muito tempo ainda, seja para relembrar os velhos tempos, seja para tentar imaginar como eles foram... Eu me encaixo neste último tipo.