segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Amor que muda



Vai ser preciso muito amor
Para mudar o jeito que as coisas são
Vai ser preciso muito amor
Ou não iremos muito longe...
("A lotta love", Nicolette Larson)




Em um dos mais antigos textos que já postei aqui no blog, falei sobre aquela que acredito que seja a verdadeira finalidade do amor: transformar as pessoas. Pois bem, muito embora isto sempre tenha estado muito claro para mim, ainda assim me impressiono com a mudança que o amor opera na vida das pessoas...


Dizem que há duas maneiras de aprender as coisas: pelo amor ou pela dor. Na dor, o aprendizado parece ser mais definitivo, já que sofremos tanto para conquistá-lo. No amor, todavia, o aprendizado chega de uma forma que mal percebemos: chega de mansinho, vai se enraizando, e quando nos damos conta ele já faz parte de nós.

A mudança causada pelo amor é lenta, suave, e talvez por isso também seja tão sólida: porque transforma aos poucos. Não dói, não esgota, não fere, mas deixa marcas.

E posteriormente, ainda que a pessoa vá embora de nossas vidas, seu legado não é apagado, porque já não somos mais os mesmos; não somos mais a pessoa que ela conheceu: somos o que nos tornamos após conhecê-la.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O curioso sucesso de Taylor Swift



Conheci Taylor Swift por meio da canção “Teardrops in my guitar” e logo depois ela lançou o álbum Fearless... Encantei-me por “Love story” e isto me levou a querer conhecer todo o álbum, que achei perfeito!

O que mais gosto nas canções de Taylor é a atmosfera de “primeiro amor dos tempos de colegial”, aquela coisa juvenil e até um pouco inocente... Impossível, por exemplo, não ouvir a faixa “Fearless” e imaginar-se como uma menina com o coração a mil por causa de um garoto; ou ouvir “You belong with me” e lembrar desses filmes adolescentes dos anos 90 em que o garoto perde tempo fingindo para si mesmo que gosta da garota bonita e popular, quando na verdade sempre amou a melhor amiga nerd (vide Correndo atrás; título em inglês: Whatever it takes).

Taylor Swift é um sopro de doçura em meio a tanta apologia feita ao sexo e ao party lifestyle dominantes no cenário musical pop. Acho curiosíssimo (e ótimo!) que ela faça sucesso e venda milhões de álbuns justo nos dias de hoje, em que o estilo “garota certinha, fofinha e romântica” já é dado praticamente como superado. 


Afinal, além de Taylor, que outra garota tem conseguido manter-se no topo sem aparecer seminua nos videoclipes e cantar qualquer coisa com Let’s have some fun e afins? Talvez apenas Selena Gomez, que nem consegue tanto êxito quanto Taylor – e diga-se de passagem, Selena é a única estrela da Disney que ainda mantem-se fiel a este estilo comportado; resta saber se ela realmente é assim ou se há alguma máscara que vai cair dentro de algum tempo, como aconteceu com Miley Cyrus.





É interessante, aliás, é um alívio que ainda haja espaço para canções de amor suaves e sem malícia, como “Mine”, mais recente single de Taylor Swift. Afinal, nem só das I gotta feeling da vida vivem as pessoas... 

A relação ideal

"I can't take it any longer, thought that we were stronger..."
("I hate this part", Pussycat Dolls)

Você sabe que um relacionamento (seja ele entre amigos, namorados ou família) é forte e sólido quando não se deixa abalar por certos tipos de problemas. Há tantos casais que brigam ou se desmancham por tão pouco, e outros que passam por coisas muito piores e permanecem juntos e com muita vontade de dar certo. Há famílias inteiras que desintegram em função de algum acontecimento, enquanto outras têm força e sabedoria para contornar a situação.
 
A solidez de um relacionamento depende, entre outras coisas, da paciência e equilíbrio das partes, e também de um pouco de tempo, porque é com ele que adquirimos segurança e confiança.
 
A confiança, eu gosto de dizer, não é algo que se pode exigir: é algo que se conquista. Não basta afirmar que você é uma pessoa confiável – por mais que realmente seja, o simples fato de dizer isso não fará com que a outra pessoa confie em você. É com o tempo que você vai mostrar a ela que é digno da sua confiança.
 
Estes dias estive escutando a canção “I’ll stand by you”, da banda Pretenders, e um verso chamou a minha atenção: “Nothing you confess could make me love you less” (“Nada que você confesse pode fazer eu te amar menos”). Fiquei pensando: é preciso estar em um estágio muito avançado do amor para poder dizer isso. Porque o amor está altamente vinculado à admiração (isso é lindo) e também às expectativas que temos em relação à outra pessoa (isso não é lindo, mas é verdade). Quando nos desapontamos com a pessoa amada ou quando descobrimos nela alguma faceta que desconhecíamos e não nos agrada, geralmente a relação sofre um baque. Para chegar ao ponto de ter certeza do amor que sentimos, ainda que sejamos decepcionados, é preciso amar demais – mais que isso, é preciso amar incondicionalmente.
 
Um dia chegarei lá... Um dia saberei amar assim. 

Raposas e uvas

Não parece incrível falar tão mal de algo/alguém e ao mesmo tempo querer ser aceito por ele? Não é curioso que, às vezes, a pessoa que você mais critica é justamente aquela a quem você mais deseja impressionar?


Qual seria a fonte desta crítica? Será que desprezamos por despeito? Talvez, ao percebermos que não somos bons o suficiente para estar em algo ou com alguém, nossa estratégia é criticá-lo, humilhá-lo, a fim de convencermos a nós mesmos que não gostaríamos de estar ali – quando, na verdade e bem lá no fundo, adoraríamos.

Muito ter para perder

 “When you have everything, you have everything to lose”
("Diamonds on the inside", Ben  Harper)
(Tradução: Quando você tem tudo, você tem tudo a perder)



Parece tão óbvio, mas geralmente não nos damos conta da profundidade desta afirmação: quem tem muita coisa, tem muita coisa para perder.

Não é a mais pura verdade? Quanto mais alto o pico, maior é a queda.

Considero-me uma pessoa afortunada: em termos de amor, amizade e pessoas querida, nunca tive muito, em termos de quantidade. Mas, falando em qualidade, sempre tive demais. São poucas as pessoas que fazem parte da minha vida; entretanto, todas têm uma importância muito grande. Qualquer uma faria muita falta.

Por isso é preciso cuidar das coisas que temos... Porque podemos perdê-las. 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Ode à música pop



Sim, eu amo! E não tenho vergonha de dizer.

Não faço a menor ideia de como, neste fim de semana, vim a desenterrar a música "Pop", do N'Sync, boyband que fez muito sucesso entre 1997 e 2001. Essa, aliás, foi a era do auge da música pop adolescente: o próprio N'Sync, os Backstreet Boys, Britney Spears, Jessica Simpson e Christina Aguilera lançando seus primeiros álbuns... Pode-se dizer que hoje em dia esse "pop chiclete" não faz mais tanto sucesso... O pop ficou mais agressivo, mais sensual, polêmico, apelativo. Mas enfim, continua sendo pop: música para as massas, música para consumir, para dançar. Não necessariamente música pra te fazer pensar, refletir sobre a vida... Simplesmente música para ouvir e gostar, para escutar no carro, nas festas, para se divertir.



A letra da música "Pop" é muito interessante; é como uma resposta a todos que criticam a superficialidade da música pop e apostam que ela tem prazo de validade, que é efêmera e não vai durar. Aos que pensam assim, o N'Sync retruca: "O que vocês têm que perceber é que o que nós fazemos não é uma tendência. Nós temos o dom da melodia e vamos levar isso até o fim"

A música pop, por mais que realmente diga mais respeito ao consumo que à arte, é o reflexo da sociedade, em especial da juventude, do que a sociedade quer e gosta em determinada época da história. É uma coisa de momento, e justamente por isso, sempre vai existir. 

Tudo bem, convenhamos que riqueza de letras e melodias nem sempre é o forte da música pop... Mas quem disse que música precisa ser sempre perfeita e profunda? Às vezes, tudo o que queremos é uma canção legal, para dançar, cantar bem alto, se divertir com os amigos ou até mesmo sozinhos em nosso quarto. Qual o problema?

Lazer é um anseio que o homem sempre teve, e nunca vai deixar de ter. A vida, afinal, não é e nem precisa ser 100% útil: uma parte do nosso tempo, por menor que seja, tem que ser dedicada à diversão. 

É basicamente isto: o pop é um prazer que deve ser degustado sem culpa (mas com moderação, é claro).

Você já se perguntou por que esta música te leva às alturas? Te faz viajar?
Você sente isso quando seu corpo começa a se mexer, e você não consegue parar
E a música é tudo que você tem... Isto deve ser POP!

Este é o refrão da música do N'Sync... O videoclipe foi lançado em 2001 (e lá se vai uma década, praticamente!), mas ainda hoje é diversão pura para quem assiste:

Os ricos também merecem piedade

O chargista Amarildo faz um retrato bem humorado e irônico da situação de Silvio Santos



“Sometimes it’s hard when you’re so deep inside to see all you could loose in a blink of an eye…”
(“Underneath”, Jessica Simpson)



Por conta da crise, fãs oferecem dinheiro a Silvio Santos

“Silvio você é o cara. Já ajudou muita gente e agora é nossa vez de ajudar”, diz Adriano, em uma das mensagens que têm chegado ao SBT

(17 de novembro de 2010)
Redação CORREIO
“Silvio você é o cara. Já ajudou muita gente e agora é nossa vez de ajudar”, diz  Adriano, em uma das mensagens que têm chegado ao SBT desde o último final de semana. São cartas e e-mails de telespectadores manifestando solidariedade para que Silvio supere o problema com o Banco PanAmericano, que precisou de um aporte de R$ 2,5 bilhões para não quebrar.
Com medo de que a questão do banco  ponha  em risco a carreira do apresentador, os fãs não estão poupando esforços e até oferecem suas economias para ajudar. “Pessoal do SBT, peço que mandem uma conta do Grupo SS para que eu possa depositar um pouquinho das minhas economias para ajudar o Silvio que tanto tem ajudado o povo sofrido. (Assinado Jorge)”, diz uma das mensagens.
Segundo reportagem publicada no portal UOL, a família de Silvio Santos está acompanhando cada passo das investigações e fazendo o levantamento contábil de outras empresas do grupo, como a Jequiti Cosméticos e a Sisan Empreendimentos Imobiliários.
Ontem, Silvio Santos não compareceu ao lançamento do livro de crônicas de sua mulher, Iris Abravanel, mas ela fez uma breve declaração sobre a atual crise do Banco PanAmericano. “Em todas as situações, a gente procura passar tranquilidade, sobriedade”, destacou.



Quem imaginaria Silvio Santos, um dos homens mais ricos do Brasil, falido? Pois bem, o apresentador e empresário, dono do SBT e de várias outros empreendimentos, está nesta situação. Devido a algumas decisões erradas (sabe-se lá quais, ou se foi este o real motivo!), seu banco Panamericano apresentou um rombo e Silvio precisou de um empréstimo de R$2,5 bilhões, dando inclusive o SBT e a Jequiti Cosméticos como garantia.

Não vou mentir: fiquei com muita pena. E achei muito tocante o gesto dos fãs que se juntaram para tentar ajudar o ídolo Silvio, arrecadando dinheiro para que ele possa quitar parte da dívida. Silvio ficou emocionado com a atitude, e devo dizer, eu também. Deve ser bastante gratificante representar algo especial na vida de pessoas que você nem conhece, a ponto de fazer com que elas se mobilizem a fim de ajudá-lo.

O dinheiro traz coisas muito boas, mas também oferece riscos. A riqueza é uma verdadeira provação. Os ricos nunca dormem em paz – e às vezes mal é necessário ser rico de fato, basta que as pessoas pensem que você tem dinheiro, e pronto, está decretado o fim de seu sossego: todos querem tirar proveito, aproveitar-se de você. Você nunca sabe em quem pode confiar, nunca sabe onde ou com quem pode sentir-se seguro, nunca sabe quem realmente gosta de você puramente ou quem finge interesse por conveniência.

Imagino como deve ter se sentido Silvio quando sua filha foi sequestrada. Aliás, em situações como esta é que percebo o quanto os ricos são vulneráveis: o que é tanta fortuna em comparação à vida de um filho? “Entregue-me toda a sua riqueza que eu te entrego o que é realmente valioso para você”. Que tipo de pressão poderia ser pior?

Não condeno a riqueza, se ela provém de trabalho, mérito, esforço e coisas lícitas. Há muito tempo assisti a uma entrevista com Roberto Justus na qual ele dizia: “Por que eu não posso ter um carro de luxo e uma casa boa? Trabalhei minha vida inteira para isso”. Concordo plenamente.

Acontece que, para aqueles que nasceram com menos oportunidades ou que simplesmente não querem se dar ao trabalho de lutar para alcançar as coisas que deseja, é muito difícil aceitar que aquele homem rico suou muito para chegar onde está. É mais fácil acreditar que ele teve sorte na vida, que Deus é injusto e cruel. E, claro, é muito mais fácil tentar tirar uma casquinha do dinheiro dele, do que tentar crescer na vida honestamente até atingir o mesmo patamar.

Não vou entrar aqui no mérito da questão da desigualdade social e da miséria que assolam o nosso país. Não sei se saberia opinar sobre isso de maneira desvirtuada das minhas convicções religiosas, portanto ficarei apenas na defesa dos ricos. Eu sei, é claro, que nem tudo é o que parece e não podemos generalizar. Nem todo pobre é desonesto e preguiçoso, assim como nem todo rico é merecedor e trabalhador. Sequer acho que este seja o caso da maioria. Todavia, o fato é que, em um país em que a maioria dos habitantes tem dificuldades de pagar a própria comida, o sofrimento dos ricos é motivo de chacota.

Acerca do problema recente de Silvio Santos, ouço tanta gente dizendo: “Bem feito”, “Tomara que perca tudo”, como se ser milionário fosse um crime. Até onde sei, Silvio nunca roubou nem fez nada ilegal para conseguir o monte de dinheiro que tem.

E, antes que eu me esqueça: obviamente os fãs de Silvio poderiam muito bem juntar dinheiro com outra finalidade, para ajudar crianças carentes, por exemplo. Mas bem, cada um faz de seu dinheiro o que quer, não é verdade? E uma ajuda financeira feita de coração a alguém que você admira com certeza vale mais que uma doação feita somente para parecer politicamente correta.

Para finalizar meu texto, colarei aqui uma oportuna lição retirada do Capítulo XVI do Evangelho Segundo o Espiritismo:

Utilidade providencial da riqueza. Provas da riqueza e da miséria
 Se a riqueza houvesse de constituir obstáculo absoluto à salvação dos que a possuem, conforme se poderia inferir de certas palavras de Jesus, interpretadas segundo a letra e não segundo o espírito, Deus, que a concede, teria posto nas mãos de alguns um instrumento de perdição, sem apelação nenhuma, idéia que repugna à razão. Sem dúvida, pelos arrastamentos a que dá causa, pelas tentações que gera e pela fascinação que exerce, a riqueza constitui uma prova muito arriscada, mais perigosa do que a miséria. É o supremo excitante do orgulho, do egoísmo e da vida sensual. E o laço mais forte que prende o homem à Terra e lhe desvia do céu os pensamentos. Produz tal vertigem que, muitas vezes, aquele que passa da miséria à riqueza esquece de pronto a sua primeira condição, os que com ele a partilharam, os que o ajudaram, e faz-se insensível, egoísta e vão. Mas, do fato de a riqueza tornar difícil a jornada, não se segue que a torne impossível e não possa vir a ser um meio de salvação para o que dela sabe servir-se, como certos venenos podem restituir a saúde, se empregados a propósito e com discernimento.
Quando Jesus disse ao moço que o inquiria sobre os meios de ganhar a vida eterna: "Desfase-te de todos os teus bens e segue-me", não pretendeu, decerto, estabelecer como princípio absoluto que cada um deva despojar-se do que possui e que a salvação só a esse preço se obtém; mas, apenas mostrar que o apego aos bens terrenos é um obstáculo à salvação. Aquele moço, com efeito, se julgava quite porque observara certos mandamentos e, no entanto, recusava-se à idéia de abandonar os bens de que era dono. Seu desejo de obter a vida eterna não ia até ao extremo de adquiri-la com sacrifício.
O que Jesus lhe propunha era uma prova decisiva, destinada a pôr a nu o fundo do seu pensamento. Ele podia, sem dúvida, ser um homem perfeitamente honesto na opinião do mundo, não causar dano a ninguém, não maldizer do próximo, não ser vão, nem orgulhoso, honrar a seu pai e a sua mãe. Mas, não tinha a verdadeira caridade; sua virtude não chegava até à abnegação. Isso o que Jesus quis demonstrar. Fazia uma aplicação do princípio: "Fora da caridade não há salvação".
A conseqüência dessas palavras, em sua acepção rigorosa, seria a abolição da riqueza por prejudicial à felicidade futura e como causa de uma imensidade de males na Terra; seria, ao demais, a condenação do trabalho que a pode granjear; conseqüência absurda, que reconduziria o homem à vida selvagem e que, por isso mesmo, estaria em contradição com a lei do progresso, que é lei de Deus.
Se a riqueza é causa de muitos males, se exacerba tanto as más paixões, se provoca mesmo tantos crimes, não é a ela que devemos inculpar, mas ao homem, que dela abusa, como de todos os dons de Deus. Pelo abuso, ele torna pernicioso o que lhe poderia ser de maior utilidade. E a conseqüência do estado de inferioridade do mundo terrestre. Se a riqueza somente males houvesse de produzir, Deus não a teria posto na Terra. Compete ao homem fazê-la produzir o bem. Se não é um elemento direto de progresso moral, é, sem contestação, poderoso elemento de progresso intelectual.
Com efeito, o homem tem por missão trabalhar pela melhoria material do planeta. Cabe-lhe desobstrui-lo, saneá-lo, dispô-lo para receber um dia toda a população que a sua extensão comporta. Para alimentar essa população que cresce incessantemente, preciso se faz aumentar a produção. Se a produção de um país é insuficiente, será necessário buscá-la fora. Por isso mesmo, as relações entre os povos constituem uma necessidade. A fim de mais as facilitar, cumpre sejam destruídos os obstáculos materiais que os separam e tornadas mais rápidas as comunicações. Para trabalhos que são obra dos séculos, teve o homem de extrair os materiais até das entranhas da terra; procurou na Ciência os meios de os executar com maior segurança e rapidez. Mas, para os levar a efeito, precisa de recursos: a necessidade fê-lo criar a riqueza, como o fez descobrir a Ciência. A atividade que esses mesmos trabalhos impõem lhe amplia e desenvolve a inteligência, e essa inteligência que ele concentra, primeiro, na satisfação das necessidades materiais, o ajudará mais tarde a compreender as grandes verdades morais. Sendo a riqueza o meio primordial de execução, sem ela não mais grandes trabalhos, nem atividade, nem estimulante, nem pesquisas. Com razão, pois, é a riqueza considerada elemento de progresso.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Cor de rosa X preto no branco

Algumas pessoas aceitam pagar o árduo preço de dizer o que deve ser dito. Mesmo sabendo que serão julgadas como más e insensíveis, têm a coragem de fazer o que ninguém se atreve a fazer.

Duas coisas levaram-me a este assunto, e ambas envolvem Glee (incrível a frequência com que falo de Glee aqui no blog; incrível a diversidade de temas que Glee propõe!).

A primeira delas é uma das personagens mais fortes e bem construídas da série: a treinadora das líderes de torcida do colégio, a durona Sue Sylvester, magnificamente interpretada por Jane Lynch, vencedora do Emmy de Melhor Atriz Coadjuvante de 2010 por seu excelente trabalho.

Sue tem um jeito todo masculino de ser, embora não seja homossexual. É mandona, rígida e nada sensível. Não se deixa comover, está sempre concentrada em fazer o que acha que deve ser feito – e em vários momentos, usa de artifícios nada honestos.

Quem acompanha ininterruptamente o seriado aos poucos pôde ir percebendo quais circunstâncias levaram a Sue a ser o que é hoje: ela cresceu sem a mãe e praticamente criou a irmã com síndrome de down, assistindo-a sofrer preconceito e sendo também vítima deste preconceito. Não obstante, a personalidade de Sue faz com que as pessoas se afastem dela, e isso torna praticamente impossível para ela assumir um relacionamento amoroso com alguém.

A visão de mundo que Sue formou com base em suas próprias experiências não é nada florida. Sue repete que a vida é dura, que as coisas não são fáceis. Sue não dá moleza para ninguém, não elogia, não consola, não perdoa, não ajuda, não passa a mão na cabeça; pelo contrário, está sempre se empenhando em fazer com que as pessoas tenham que “dar mais duro” ainda.



Agora, o segundo fato: neste domingo o elenco de Glee apresentou-se na grande final do reality show britânico X-Factor (vídeo acima). Eles cantaram o hino do seriado, “Don’t stop believing”, sucesso da banda Journey.

No momento da canção em que Amber Riley (que interpreta a personagem Mercedes) dá o seu famoso e tradicional “grito”, ela dirigiu-se ao jurado Simon Cowell para fazê-lo. Olhando bem para ele, cantou: “Don’t stop”, de “Don’stop believing” (“Não pare”, de “Não pare de acreditar”), abrindo o último refrão.

A ironia se deve ao seguinte motivo: Simon Cowell é também o idealizador e um dos jurados do reality show American Idol, similar norte-americano do X-Factor. Amber Riley já havia tentado participar do American Idol mas foi reprovada por Simon, que alegou que sua voz era excelente mas comum, e que negras com aquele timbre já haviam aos montes nos Estados Unidos.

Como que para vingar-se (ou talvez apenas para ser engraçada), Amber aproveitou-se da situação e cantou, diretamente para o homem que a reprovou, uma canção que fala sobre não desistir de seus sonhos.

Simon Cowell é conhecido como “o jurado chato”, que não tem dó dos candidatos e diz tudo o que quer dizer, sem pudores ou recalques. Certamente Amber Riley é talentosíssima e conseguiu superar sua reprovação no American Idol; hoje ela é estrela de uma das séries mais famosas e bem sucedidas do país e do mundo. Mas será que Simon foi realmente mau ao taxá-la de comum, ou simplesmente estava dizendo a verdade? 

Maldades de Sue e descortesias de Simon à parte: quanto ao que resta deles, creio que trata-se de duas pessoas (uma delas fictícia, mas anyway...) injustamente rotuladas como ardilosas e sem coração. Eu concordo que eles não medem palavras e agem com frieza; entretanto, penso também que elas não são assim necessariamente porque gostam de constranger, humilhar e destruir sonhos alheios.

Nos reality shows musicais, os jurados que não têm papas na língua são sempre vistos como os chatos, os cruéis (vide Marco Camargo no Ídolos da Record, e Miranda e Arnaldo Saccomani no Qual é o seu talento, do SBT). Porém, eu penso: a verdade tem que ser dita. Muitas vezes a verdade machuca, mas precisamos conhecê-la. O mundo não é feito de ilusões. Nem tudo é um mar de rosas.

Pessoas como Simon, Sue, Marco Camargo e muitas outras aguentam o fardo de serem vistos com maus olhos enquanto tantas colhem os louros (indevidos!) de sua hipcrisia, por não terem a coragem de falarem a verdade, aquela verdade tão cruel que acaba maculando a imagem de quem se atreve a dizê-la. Pois bem, alguém precisa dizê-la! Caso assim não fosse, quanto tempo ainda viveríamos sob o manto das mentiras contadas por quem tem medo de nos ferir?

Sue, com seu jeito impiedoso, tenta fazer com que suas alunas sejam fortes e aprendam a lutar sozinhas por si mesmas. Simon, com seu jeito desbocado, tenta mostrar aos candidatos que embora talento e sonhos sejam coisas muito lindas, elas não são garantia precisa de sucesso. A vida é muito mais que isso: é preciso lutar, sofrer, ouvir muitos nãos antes de chegarmos onde queremos.

Muitas vezes, tudo o que precisamos é de um choque de realidade. A vida não é fácil mesmo, e alguém tem que nos contar isso. Mesmo que ninguém conte, um dia descobriremos e aí pode ser pior, porque descobriremos na prática, precisaremos “quebrar a cara” para entender. Mas... é como dizem: preferimos ser iludidos com uma mentira a sermos magoados com a verdade!

Talvez, pensar menos

“Parei de pensar e comecei a sentir...”

(“Olhos vermelhos”, Capital Inicial)


O pensador, escultura do francês
Auguste Rodin

Sou uma pessoa que filosofa demais, pensa demais nas coisas. Okay, não em todas, não sobre tudo, mas de uma maneira geral, sou assim. Acho isso legal, filosofar é sempre bom porque desta forma formamos melhor as nossas opiniões, analisamos melhor as coisas, vendo-as por ângulos diferentes e não se deixando enganar pelos conceitos prontos que nos são impostos. Mas é como dizem: tudo que é em excesso, atrapalha.

Várias situações aparentemente simples já me pareceram extremamente difíceis, rendendo-me grandes problemas e dificuldades para executar as coisas, e isto provavelmente se deveu à minha mania de pensar demais nelas.

Talvez na época eu não tenha me atentado, mas hoje, raciocinando e repassando os fatos em minha mente, percebo que o problema só desapareceu depois que parei de ficar maquinando, filosofando em cima das coisas mais bobas. Enfim, a dificuldade só foi resolvida depois que “parei de pensar e comecei a sentir”, exatamente como na canção que mencionei ali no início do texto.

Posso estar enganada, mas às vezes a solução pode ser essa, em especial para o medo. Em certos momentos o medo é justamente proveniente de nossa mente, que fica tentando prever o que vai acontecer, o que pode acontecer, como será, como vai terminar, e tantas coisas mais. E se simplesmente parássemos de pensar, e fôssemos em frente? Talvez dê certo.

Não estou, com este texto, querendo incentivar as pessoas a agirem sem pensar, a serem inconsequentes – isto não é recomendável. Estou apenas tentando dizer, com base em experiências próprias que, em algumas situações, pensar demais pode impedir-nos de viver algo muito bom, ou prejudicar-nos enquanto tentamos realizar algo que em tese deveria ser fácil, quase automático.

Revirando cadernos antigos, encontrei este poema de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) que fala sobre isso... Colarei aqui apenas as partes que convêm:

"Creio no mundo como um malmequer
Porque o vejo, mas não penso nele

Porque pensar é não compreender


O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia, tenho sentidos...
Se falo na natureza não é porque a amo, amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama.
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência
E a única inocência é não pensar..."

Conclusão: pensar é legal; na verdade é essencial. Porém, se em uma situação em que as coisas deveriam ser fáceis e na verdade nos parecem muito complicadas, pensar um pouco menos pode facilitar.

Só rogo, pelo amor de Deus, que ninguém use este tipo de pensamento diante de situações que envolvam coisas ilícitas ou prejudiciais! Estou me referindo a coisas boas, saudáveis e normais... Se alguém me oferecer droga, por exemplo, com certeza eu vou pensar demais e recusar, e esta é a melhor coisa a ser feita! Okay, guys? 

domingo, 5 de dezembro de 2010

O que te incomoda?


Dias atrás li um texto super interessante no blog Menina de Cachos (o qual eu sigo e tem um propósito muito parecido com o do meu): “De Eva a Geyse”. Se não me engano, li-o na mesma semana em que foi exibido o sexto episódio da segunda temporada de Glee, com certeza um dos episódios mais bem feitos de toda a série, e o mais chocante também.

Quem assistiu sabe por quê: o jogador de futebol Dave Karofsky, típico brutamontes que gosta de dar mostras de sua masculinidade por meio de atitudes estúpidas e violentas, neste episódio toma uma atitude que pode ser a chave para descobrir a verdadeira razão de ele implicar e aterrorizar tanto o personagem Kurt Hummel, jovem assumidamente homossexual.

Paralelamente a esta grande revelação (apesar de que até hoje nada tenha ficado muito bem explicado; creio que os roteiristas de Glee ainda têm muito mistério guardado para ser revelado nos próximos episódios), impressionou-me o posicionamento da autora do texto “De Eva a Geyse”. Embora não concorde com todos os seus argumentos, gostei da maneira como ela abordou a questão, olhando-a por um ângulo em que eu ainda não tinha olhado: a reação da sociedade frente às pessoas que não reprimem sua sexualidade ou qualquer outra coisa que a moral/costumes/lei imponha que sejam reprimidos.

Para falar sobre este assunto precisarei deixar de lado (não esquecer, apenas deixar de lado para esta ocasião) algumas concepções minhas, pois só assim compreenderei melhor certas coisas. Não sou 100% entusiasta do lema “Seja você mesmo”, conforme já expus aqui, mas independente disto, dedico este texto à análise do outro lado da história: o espectador do indivíduo que decide agir conforme suas próprias vontades e pensamentos.

Como é de praxe aqui no blog, para aprofundar-se no entendimento de alguma coisa preciso fazer perguntas, então here we go: por que algumas atitudes alheias nos incomodam tanto, mesmo quando não afetam diretamente as nossas vidas? Por que sentimos que estamos sendo afrontados quando alguém resolve tratar abertamente de sua própria maneira de ser, ainda que isso não nos diga respeito?

No Direito, fala-se muito em “moral e bons costumes”, que dizem respeito a todos os pudores que a sociedade possui e que devem ser respeitados, a fim de que os sentimentos dos indivíduos não sejam feridos. Pois bem, como surgem esses pudores? De onde eles vêm?

A filósofa Marilena Chauí, em seu livro “Repressão sexual”, ajuda a entender a questão quando diz que “a repressão sexual será tanto mais eficaz quanto mais conseguir ocultar, dissimular e disfarçar o caráter sexual daquilo que está sendo reprimido” (1991: p. 10).

Pois bem, muito embora a frase e a própria obra de Marilena tratem da repressão sob o prisma da sexualidade, podemos muito bem fazer uso dessas palavras para falar de outros tipos de repressão também.

Tendemos a condenar as coisas que julgamos como erradas, e quando enxergamos estas coisas dentro de nós mesmos, procuramos escondê-las. Não satisfeitos em reprimir a nós mesmos, queremos também reprimir os outros. Incomoda-nos ver alguém tratar com tanta naturalidade aquilo que temos lutado tanto para ocultar.

É correto, assim penso eu, que o código moral da sociedade condene alguns tipos de comportamentos e a lei venha a positivar isto, caso contrário o mundo seria um caos onde todos fazem o que bem quiserem e jamais teríamos controle sob a formação da personalidade de nossos filhos e até mesmo da nossa própria, se estivermos em condição de fragilidade e influenciabilidade.

Contudo, não podemos chegar ao extremo de apedrejar alguém em razão das escolhas que fez se este alguém não estiver importunando ninguém com seu jeito de ser, ou esteja somente exercendo um direito seu.

Não sou a favor do escancaramento e da falta de respeito e discrição. Somos livres para fazermos o que achamos melhor, mas nossa liberdade não pode constituir uma afronta aos sentimentos das pessoas. Da mesma forma, também somos livres para pensarmos qualquer coisa de qualquer pessoa, mas não temos o direito de agredi-la ou desrespeitá-la em virtude destas opiniões que formamos.

A questão é complicada dos dois lados, mas tudo poderia ser bem mais pacífico se todos fizéssemos uso de uma coisa muito simples chamada bom senso

Mamães mais velhas

A atriz Sarah Jessica Parker teve o primeiro filho aos 37 anos, e recentemente, aos 44, teve gêmeas

É preciso cuidado, racionalidade e sensatez para interpretar as vontades da natureza. Nem tudo que é natural e instintivo é o mais certo a ser feito, do ponto de vista da razão e da moral. 
Adriane Galisteu: 35 anos e mãe
pela primeira vez

Já tive muitas discussões (no bom sentido da palavra) com amigas sobre qual a melhor idade para ser mãe. Várias amigas me dizem que querem ser mães cedo, ainda jovens; cada uma por um motivo. Pois bem, muito embora eu não pense que haja uma idade-padrão para ter filhos, não endosso o coro destas minhas amigas.

Eu realmente acredito que ser mãe é uma tarefa muito mais complexa do que podemos calcular. Não se trata apenas de dar à luz, alimentar, cuidar da higiene, colocar na escola, providenciar roupas e remédios – essa é a parte simples. O mais complicado é a criação, a efetiva criação, a formação do caráter, a transmissão dos valores. Manter uma criança viva é relativamente fácil; difícil mesmo é formar um ser humano decente, feliz e bem resolvido. E esta tarefa requer preparo, preparo que só a experiência, a maturidade e a vida podem oferecer à corajosa mulher que topa ser mãe.

A única coisa que conta a favor da mãe jovem é a sua própria juventude e a saúde decorrente dela (embora isto também seja muito relativo; há pessoas velhas mais saudáveis que muitas jovens). Fora a própria saúde, a única coisa que uma mãe jovem tem a dar a seu filho é o amor, mas o amor não é uma exclusividade da juventude. A mãe “velha” também ama.


A cantora Ivete Sangalo foi mãe aos 36 anos
Óbvio que há casos e casos, mas de uma maneira muito generalizada, posso afirmar que a mulher mais velha tem melhores condições de ser uma boa mãe, posto que provavelmente possui mais sabedoria (proveniente da experiência adquirida ao longo de muitos anos), força, equilíbrio e até mesmo melhor condição financeira.

Contra o meu posicionamento pode advir o fato de que o corpo da mulher está mais preparado para a gravidez quanto mais jovem ela for. Pode-se dizer, portanto, que “a natureza quer” que a mulher seja mãe mais cedo. Porém, vejamos só: a natureza também “quer” que a mulher esteja constantemente engravidando (pois ovula todo mês), que o homem esteja constantemente mantendo relações com fêmeas diferentes (é cientificamente provado que o homem possui mais apetite sexual e mais disposição para manter relações com parceiras distintas) a fim de perpetuar a espécie, entre outras coisas; mas nem por isso acatamos todas estas condutas como corretas. Há de se estabelecer normas de modo a firmar um equilíbrio entre natureza e razão.

O argumento de que “ser mãe mais nova é melhor porque assim seus filhos não correm o risco de ficarem órfãos logo” também não me parece ter muita procedência. Quem garante que uma moça de 20 anos não morrerá mais cedo que uma mulher de 35?

É claro que existe um limite: a partir de uma certa idade torna-se perigoso ou até mesmo impossível para uma mulher engravidar. Porém, não havendo chegado este momento, qual o problema? Particularmente, acho inteligente esperar atingir um maior patamar de maturidade e estabilidade para tomar a decisão de ser mãe. 

Tiririca

Estes episódios envolvendo o humorista Tiririca, recentemente eleito para o cargo de deputado federal pelo Estado de São Paulo, deixam-me confusa. Não sei o que pensar, não sei o que sentir por ele. 

Não sei se sinto pena, por estar sendo tão ridicularizado, por ter sido usado por políticos com histórico sujo que conseguiram se eleger às custas dele, por ter sido enganado, ou se eu é que estou sendo enganada. 

Talvez ele não seja tão ingênuo quanto parece, talvez saiba que está sendo usado mas também quer tirar suas vantagens, ou talvez esteja conduzindo a situação com mais esperteza do que imaginamos.

Ouvi na rádio no dia 26 de novembro que o Ministério Público faria uma denúncia em face de Tiririca, para que ele fosse condenado pelo crime de falsidade ideológica, em razão de ter mentido sobre seu grau de escolaridade. Pois bem, ele já foi absolvido.

Eu me pergunto se Tiririca está sendo excessivamente perseguido. Gostaria de saber se o Parquet age com esta mesma eficiência em relação a outros candidatos eleitos que representam risco para nós, eleitores e membros da comunidade.

Por outro lado, não posso criticar o promotor por fazer o seu trabalho. É verdade que este tipo de atitude deveria ser tomada sempre, e não somente em casos que alcançam grande notoriedade; mas de qualquer forma, se isto não é o que acontece sempre, devo recriminar as poucas vezes em que acontece? 

sábado, 4 de dezembro de 2010

Sou eu que amo o passado e que não vejo que o novo sempre vem?


“Você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando
Mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem...”
(“Como nosso pais”, Belchior)

Desde pequena, sempre amei premiações relativas ao mundo música, entretenimento e afins: Grammy, Emmy, VMA, VMB, Oscar... Há algum tempo eu deixei de assisti-los mas sempre acompanho os resultados, e torço pelos meus preferidos.

Esta semana foi divulgada a lista com todas as indicações ao Grammy Awards 2011, prêmio máximo da música norte-americana

Vejamos os indicados na categoria mais festejada, “Gravação do ano”:

B.o.B. e Bruno Mars – Nothin’ on you
Eminem e Rihanna – Love the way you lie
Cee-Lo Green – Fuck you
Jay-Z e Alicia Keys – Empire state of mind
Lady Antebellum – Need you now


Para começar a falar sobre o assunto, colarei aqui um  trecho muito interessante que li na biografia de Madonna feita por Taraborelli: 

“Madonna disse com frequência que em sua opinião – aliás, compartilhada por inúmeros historiadores da cultura – uma das razões pelas quais a música pop é tão poderosa na sociedade contemporânea é porque muitas vezes serve como um espelho de nossa cultura. Se alguém quer descobrir a quantas andas o mundo, um exame atento da Top 40 da Billboard pode ser uma boa maneira de começar. Embora os jornais forneçam notícias diariamente, a pop music, pelo menos em alguns níveis, pode compor um quadro mais amplo da sociedade. Por exemplo, pode-se não encontrar nenhuma canção sobre paz, amor ou mudanças sociais entre as Top 40; nesse caso, essa ausência é eloquente. Pode significar que a sociedade está com os olhos voltados para outro lado nesse momento, que prefere comercializar suas desditas em troca de cançonetas pop bonitinhas sobre os bons tempos e o romance. Apatia e esperança, otimismo e alegria – seja lá como estiver a cultura pop naquele momento, é assim, normalmente, que estará a música.”
 (TARABORRELLI, Randy. Madonna: uma biografia íntima. São Paulo: Globo, 2003. P. 278 e 279)

Pois bem, por esta categoria do Grammy já podemos ter uma boa ideia de como anda o mundo da música, e até mesmo como anda o próprio mundo.

Com exceção de Lady Antebellum e Cee-Lo Green, todas as canções indicadas são parcerias de rappers com cantores pop. Não se trata de uma novidade: há muitos anos os rappers têm se aproveitado (no bom sentido) da visibilidade e popularidade dos cantores de música pop para obterem acesso direto às rádios de grande difusão, e assim, quem sabe, conquistarem um espaço além daquele restrito ao mercado de black music, haja visto que nos EUA há uma clara divisão entre cultura produzida POR e PARA brancos e cultura produzida POR e PARA negros. Deu tão certo que esta barreira está aos poucos sendo derrubada: hoje, pode-se dizer que o hip hop é o ritmo mais rentável e popular nos EUA, e não apenas entre negros, mas entre todos.

De fato, as três parcerias indicadas ao Grammy são boas.

“Love the way you lie” marca a volta do rapper (branco!) Eminem às paradas da Billboard; ele lançou um álbum em 2009 mas não fez tanto estrondo quanto o atual. A canção é ótima e certamente o que a rendeu tanto sucesso é o refrão melódico e grudento cantado pela inconfundível voz da caribenha Rihanna – que ultimamente tem sido disputadíssima, devido ao fato de que seu nome constando no nome da música é garantia de êxito. Todavia, não se pode tirar o mérito de Eminem na música: a letra fala de um relacionamento possessivo, onde duas pessoas se amam mas constantemente se agridem. Não sei quanto aos outros, mas para mim foi uma surpresa ver esse lado mais sensível de Eminem, que geralmente utiliza seus raps para destilar ódio contra celebridades ou apedrejar as pessoas que o decepcionaram ao longo de sua vida (principalmente sua mãe e sua ex-esposa). Ouvi-lo cantar sobre amor e relacionamentos, por mais que também haja ódio e revolta na canção, foi chocante. 



“Empire state of mind” foi uma sacada de gênio: o badaladíssimo rapper e produtor musical Jay-Z (como se isso não bastasse, ele ainda é marido da cantora Beyoncé, uma das maiores estrelas dos últimos tempos) junta-se à linda e talentosa Alicia Keys (queridinha dos acadêmicos do Grammy) para fazerem uma ode à cidade de Nova York. “Sou o novo Sinatra”, ele canta, provavelmente fazendo menção a “New York, New York”, clássico que também homenageia a metrópole. A parceria é excelente, a ideia é boa, e melodicamente falando tudo soou ainda melhor. A música ficou incrível e foi uma das mais executadas no ano de 2010. Já é considerada popularmente “o novo hino de Nova York”.

“Nothin’ on you” também é uma parceria legal do rapper B.o.B. que tem feito muito sucesso ultimamente, e do cantor Bruno Mars, que não obstante seja também proveniente do berço do hip hop, opta por canções mais grudentas e românticas, aproveitando-se de sua boa aparência e voz bonita – esse estilo também faz muito sucesso. Levando em consideração apenas esta canção, talvez pareça que a indicação não foi merecida; entretanto eu acredito que a indicação foi uma maneira de prestigiar o trabalho de B.o.B. como um todo... Já procurei saber sobre a música que ele faz e pude perceber que é um R&B bem legal, com raps legais e boas parcerias, como esta. Seu álbum "The adventures of Bobby Ray" é muito bom, tem umas canções estilosas como "Don't let me fall".

“Need you now” é uma balada country do grupo Lady Antebellum, também bastante bem executada nas rádios norte-americanas – e este fato é chocante se levarmos em consideração que o tradicionalíssimo mercado de música country nos EUA é bastante fechado, contando com rádios e emissoras de TV próprias, quase nunca misturando-se com os outros gêneros musicais. A country music possui categorias próprias no Grammy; logo, uma canção country ser indicada em uma categoria aberta é, no mínimo, surpreendente.



Por fim, temos “Fuck you”, do cantor Cee-Lo Green, (ex?) integrante do grupo Gnarls Barkley. A canção é excelente, uma primazia, mas pode-se dizer que só começou a tocar com mais frequência nas rádios depois que fez parte da série Glee, contando inclusive com uma versão cantada por Gwyneth Paltrow (devo dizer: a versão ficou muito boa; porém sou suspeita para opinar, porque amo Glee). Com sua voz impressionante, Cee-Lo escreveu uma canção franca e irreverente (a começar pelo nome!) sobre dor de cotovelo, com uma batida bastante sessentista, que remete aos primórdios da black music, lá da época da lendária gravadora Motown. Talvez seja isso que deixe a canção tão atraente! Eu adoro tudo que remete à essa época.


Agora sim volto ao assunto do título do texto. Uma das primeiras impressões que tive ao ver a lista recheada de Katies Perries e Justins Biebers foi: É nisso que o mercado musical se transformou? O Grammy chegou a esse nível, de prestigiar modinhas? 



Okay, foi cruel da minha parte. Eu sei – e inclusive sou uma grande defensora desta tese! – que há hoje muitos artistas bons e que ser modinha não é sinônimo de má qualidade. Contudo, alguns artistas não tinham que estar ali, sendo indicados ao Grammy. Tudo bem uma canção ser boa, fazer sucesso, tocar muito; mas afinal, o Grammy trata de qualidade, não de popularidade.

Tudo isto me levou a pensar: será que foi falta de opção? Será que não há nenhuma canção melhor para ser indicada? Será que alguns artistas foram indicados simplesmente porque não há outros mais qualificados?

E neste momento me lembrei do trecho da música de Belchior que coloquei no início do texto. “O novo sempre vem”, e o novo é isto. É o pop e hip hop que ouvimos nas rádios e veremos no Grammy. Não melhor, nem pior, apenas novo.   

Certamente, nos anos 50, quando surgiu Elvis Presley, muita gente deve ter ficado chocada com sua ousadia e quebra de paradigmas. Certamente muita gente deve ter achado que sua música era lixo e que ele logo seria esquecido. E, vejamos: hoje ele é um ícone, e sua música é sinônimo de muito bom gosto.

Lembro-me de assistir ao Grammy de 2004 pelo SBT, comentado por João Marcelo Bôscoli (adoro esse cara). Naquele ano houveram shows de Prince com Beyoncé (épico, adorei!), Sting com Sean Paul, Justin Timberlke com Arturo Sandoval, entre outros. Lembro-me de João Marcelo dizendo que a proposta do Grammy daquele ano era misturar artistas passados com novos, a fim de deixarem claro que os artistas de hoje não devem nada aos de outrora – no que ele acrescentou que “este é um assunto muito discutível”. Eu concordo plenamente, e penso também que essa discussão dificilmente poderá estar imune a posicionamentos parciais e tendenciosos.

Falando de uma maneira generalizada, creio que cada geração tem seus ídolos, e a música feita em cada época representa o estilo de ser das pessoas. Os jovens de hoje acham um saco as músicas das décadas de 60 e 70, que seus pais e avós ouviam – mas imagino como será engraçado, no futuro, eles tentanto explicar a seus netinhos o sucesso de Lady GaGa, Chris Brown, Rihanna e afins... Os netinhos vão reagir da mesma forma: vão rir e dizer que “este tipo de música é horrível, bom mesmo é que se produz hoje”.


Em um primeiro momento, decidi que torceria para “Fuck you” ganhar o Grammy, porque esta sim é uma canção diferente, que incorpora velhos elementos e traz de volta a música dos bons e velhos tempos. Só depois percebi o quanto estava enganada, não em relação à canção, mas em relação aos meus motivos. Uma música não é melhor que a outra só porque invoca o passado. Uma música não é pior que a outra só porque está condizente com as tendências do momento. Porém, só mesmo quando sair o resultado saberemos se a academia do Grammy está de acordo.