sexta-feira, 18 de março de 2011

Amor e ódio... Largando as bonecas


É claro que eu não te odeio. Definitivamente. Mas te odeio em alguns momentos. Você é uma das pessoas que mais amo, e talvez por isso seja tão fácil te odiar.

Todo o amor que já existe, que sempre existiu e que fica aqui dentro guardado e quase empoeirado, por falta de uso, parece explodir da maneira errada sempre que você me decepciona. E, nessas horas, eu acabo fazendo coisas como a que fiz. Ajo mal, expresso-me mal, justamente por sentir-me mal com o que vejo de você. Mas é claro que a errada sou eu. Você é simplesmente você, e não tem obrigação nenhuma de ser o que eu espero de você. Esse é o problema. Não sei se estou preparada para ver as minhas lembranças de infância tornarem-se adultas.

Amar é complicado. O amor, em tese, é o sentimento mais puro, mais altruísta, menos desprendido... Porém nós, seres humanos imperfeitos e estúpidos, distorcemos esse conceito ao tentar vivenciá-lo, e interpretamos o amor como um sentimento que envolve ciúmes, possessividade, expectativas e, por que não dizer?, ódio também. O ódio dos que amam é o mais forte; e quanto mais forte o sentimento, menor a racionalidade, porque se usássemos melhor o cérebro, saberíamos que o ódio não deveria ser a expressão angustiada do amor. O amor não deveria se angustiar. Quem ama entende, releva, perdoa. Não se trata de ser cego; trata-se de enxergar as coisas e saber lidar com elas. Só sente ódio quem não sabe lidar com as situações da vida.

Peço perdão. Ainda estou aprendendo. Tem sido difícil. Com base em tudo que já vivemos, imaginei que você poderia ser o que eu quisesse... Mas foi burrice minha. Você não é uma das minhas bonecas, muito embora eu tenha te pegado no colo e brincado de “mamãe e filhinha”. E como você cresceu rápido... Sinto-me velha, impotente, fraca, e acima de tudo, repleta de expectativas que nem deveriam existir.

Há tantas coisas que eu já aprendi e que queria que você aprendesse também... Sua teimosia me irrita, porque eu só quero te ver bem. Há tantos sofrimentos dos quais você poderia se poupar; há tantos caminhos que eu já tracei e você não precisaria percorrer tudo de novo até descobrir o destino; por que não me escuta? Então me lembro que você não sou eu, você não é como eu sou. É tão nítido! Mas às vezes esqueço... Às vezes desejaria ver mais de mim em você. Mas você não é minha tela de pintura. Não é o meu monstrinho de massinha. Não posso te moldar da forma que eu desejo. Concluir isso me traz tristeza, mas sabe de uma coisa? Sou tão idiota por ficar triste. Isso é ótimo. É maravilhoso que você tenha uma personalidade tão única.

Você está fazendo sua própria história, vai traçar seus próprios caminhos. Todo mundo precisa de conselhos, mas você não é obrigada a escutar os meus. Talvez haja outras pessoas que você prefira escutar, outras fontes às quais você prefira recorrer, e eu preciso aceitar isso. Você faz sua vida. E sei que vai fazer tudo certo. O importante é onde você quer chegar.

Você já está aprendendo a andar. Não precisa mais se apoiar em mim, segurar na minha mão. Já está até aprendendo a atravessar a rua, mas será que não preciso mais te dizer para ter cuidado, olhar para os dois lados? Ninguém é tão maduro a ponto de não precisar mais ouvir lições de moral... Mas ouvir isso é chato, eu sei. Às vezes é melhor que eu apenas fique calada, e que eu saiba te respeitar. Vou tentar. Prometo.  

quarta-feira, 9 de março de 2011

Não desconsideremos as individualidades

Quadro "Operários", de Tarsila de Amaral

O fato de todos sermos seres humanos não quer dizer que somos iguais, talvez nem mesmo parecidos. As particularidades são grandes demais para serem desconsideradas em virtude de semelhanças anatômicas, fisiológicas e outras do tipo. Temos essa mania de reduzir os seres humanos a meros seres humanos, esquecendo de quanto podem ser complexos, diferentes, infinitos.

As mães – e os pais e avós também – costumam “oferecer a companhia” de seus filhos a outras crianças. Basta saber que um amigo tem um filho da mesma idade e já dizem: “Ah, eles vão poder brincar juntos”. E assim acontece: ao frequentarem a casa dos amigos, o casal leva o filho, tranquilo por saber que haverá outra criança lá para brincar com ele. Chegam lá e “despejam” o filho na área juntamente às outras crianças, deixando-o “livre” para tentar achar alguma semelhanças com elas. “Vai, filho, brinca!”, eles dizem; como se interagir com desconhecidos fosse uma coisa automática, natural.

Muitas vezes a criança nem gosta de brincar, ou não gosta de brincar das mesmas coisas que as outras. Mas alguém se importa? Aos olhos dos adultos, uma criança é só uma criança, como as outras, e elas são todas iguais. “Se colocadas em um recinto juntas, vão brincar, vão jogar algum joguinho típico de criança, porque é isso que crianças fazem”. Certo?

Como se depreende desta simples hipótese, desde a infância a individualidade é sufocada, ou melhor, é menosprezada. Ninguém quer se dar ao trabalho de pensar que as pessoas são diferentes e podem não se identificar umas com as outras. É mais cômodo achar que são todas iguais. Que todas as mulheres são iguais, que todos os homens são iguais, que todos os estudantes são iguais, que todos os gays são iguais, que todos os cristãos são iguais, que todos os criminosos são iguais, que todos os famosos são iguais, que todos os negros são iguais... Só para citar alguns exemplos. É mais fácil jogar todos em uma jaula e deixar que se virem sozinhos, com a confiança de que sua semelhança (mesmo que às vezes a única semelhança seja o fato de que são pessoas!) garantirá a boa convivência.  

Ao escrever os exemplos do parágrafo acima, pensei nas prisões, nas pessoas condenadas às penas privativas de liberdade. Pensei nos relatos desesperados de pessoas que, embora confessem ter cometido algum crime, imploram para não serem enviadas à cadeia. Para nós, que estamos do lado de fora da situação, é tão fácil escutar este tipo de coisa sem sentir nem uma ponta de compaixão! Afinal, “bandidos são todos iguais”, “são de uma raça só”,  “farinhas do mesmo saco”,  “se entendem em sua própria língua, a língua dos marginais”. Será que é tão simples assim? Todos sabemos da crise penitenciária existente no Brasil. As cadeias são verdadeiros infernos na Terra. Considerar justo que diferentes tipos de pessoas dividam o mesmo espaço é esquecer que eles são humanos no mais amplo sentido da palavra: são pessoas com sentimentos, opiniões, sonhos ou distúrbios como outros quaisquer. É certo que cometeram um crime, ou vários, por maldade, acidente ou falta de opção – mas o simples fato de que todos erraram não os torna iguais, não apaga a individualidade de cada um.

É muito triste ser forçado a conviver em um local ou situação em que você não se sente bem. Em qualquer lugar estamos no nosso planeta; com qualquer pessoa estamos com alguém que é mortal tal qual também o somos; mas isso basta? A vida é muito mais que isso. Cada pessoa é uma universalidade de coisas, de pensamentos, ideias, filosofias de vida, sonhos, planos, manias, costumes, defeitos, cheiros, preferências. Como ignorar isso tudo em razão de um só ponto que todos têm em comum?   

Viver não é brincadeira


"... Mas é preciso viver
E viver não é brincadeira, não!
Quando o jeito é se virar, 
Cada um trata de si,
Irmão desconhece irmão..."



A vida é uma coisa tão séria, tão complexa. O simples fato de estarmos vivos traz uma carga de responsabilidade tão grande. Às vezes me impressiono ao pensar nisso. Parece tão simples jogar esse joguinho: colocar uma criança no mundo, alimentá-la, providenciar que ela continue viva e cresça, até que consiga se virar sozinha e um dia morra, e game over. Mas não é só isso. Não se trata de apenas manter-se vivo. Viver é muito mais que sobreviver.

Será que temos noção do quanto um ato de maldade praticado por nós pode influenciar negativamente na vida de uma pessoa, a ponto de estragá-la, e pior ainda, o suficiente para que esta pessoa também estrague a vida de outras? A situação toda pode virar uma bola de neve. A vida não é brincadeira.

Nem sei o que é pior: não ter noção das consequências de seus próprios atos e continuar cometendo erros sem o menor peso na consciência, ou estar ciente de tudo e ter que conviver com a culpa matadora todos os dias.

Para que este texto não fique com este aspecto tão depressivo, vou dizer o que é que me acalma quando penso nisso tudo: a certeza de que o mal não vai prevalecer. O bem é tímido, recatado, mas é poderoso. E nunca é tarde para colocá-lo em ação, porque nenhuma batalha está perdida. Ainda há esperança para este mundo.  

terça-feira, 8 de março de 2011

Princípios inabaláveis

Detalhe do quadro " A criação de Adão", de Michelangelo
 "Demais, se se considerar o poder moralizador do Espiritismo, pela finalidade que assina a todas as ações da vida, por tornar quase tangíveis as conseqüências do bem e do mal, pela força moral, a coragem e as consolações que dá nas aflições, mediante inalterável confiança no futuro, pela idéia de ter cada um perto de si os seres a quem amou, a certeza de os rever, a possibilidade de confabular com eles; enfim, pela certeza de que tudo quanto se fez, quanto se adquiriu em inteligência, sabedoria, moralidade, até à última hora da vida, não fica perdido, que tudo aproveita ao adiantamento do Espírito, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda se acha por essa forma cumprida, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador."
(Livro "A Gênese", de Allan Kardec. Capítulo I, item 42) 



Sinto-me tão privilegiada por ter crenças tão fortes sem nunca precisar ter passado por nada tão trágico. Não, privilegiada não: sinto-me feliz. Privilégios não existem.

Geralmente as lições que aprendemos com maior intensidade são as ensinadas pela dor. Já eu, sempre fui tão feliz, e sempre tive todas as minhas convicções tão certas, tão enraizadas. É claro que já passei por coisas péssimas, momentos ruins, situações em que achei que tudo fosse desmoronar... Mas nunca duvidei. Nos momentos de sofrimento, minhas certezas só se mostravam mais perfeitas. Na hora da dor é que entendemos o sentido de algumas coisas.

De uma maneira geral, tenho uma vida feliz. Todas estas situações ruins que já vivenciei fizeram-me mais forte e mais confiante. Nem todas foram resolvidas, mas a maioria acabou servindo de meio para reiterar todos os princípios nos quais me baseio e me inspiro. Quanto às outras, ainda estão aí, para serem resolvidas algum dia, fazendo uso destes mesmos princípios.

Posso parecer insuportavelmente certinha ao dizer estas coisas, mas o que posso fazer? Fico feliz de verdade. É muito bom ter coisas lógicas, inteligentes, sensatas e confortantes para acreditar. Melhor ainda é estar com pessoas que partilham desse entendimento e estão do seu lado, mesmo que longe, mesmo que em silêncio, para fazer o mundo continuar girando e te dar a certeza de que tudo está em seu devido lugar.

Triste deve ser não acreditar em nada, ou ter crenças sem fundamento. Na hora em que se precisa delas, elas falham, porque são fracas, não têm base. Elas caem por terra, e você cai junto.

Triste deve ser conviver com pessoas que não acreditam em nada, ou ao menos em nada bom; pessoas perdidas, desequilibradas ou não suficientemente humildes para aceitar que existe algo acima delas mesmas. Podem até ser uma boa companhia para dar risada e gozar dos prazeres mundanos da vida, mas na hora do sofrimento, não contribuem em nada.

Certas pessoas têm o poder de te fazer sentir que tudo está bem, simplesmente por estarem vivas. Às vezes não dizem nada, e nem precisam, porque suas presenças bastam. Adoro pessoas inteligentes, sensatas, confiantes, esperançosas. Adoro pessoas que dizem que tudo vai dar certo – e que não dizem isso somente porque é um clichê bonitinho capaz de te acalmar, mas porque conhecem a lógica da vida e sabem que é isto mesmo que vai acontecer. Adoro o otimismo inteligente. Isto sim é consolador. Assim dá pra acreditar que as coisas vão melhorar.

E eu? Já fui testada tantas vezes... E ainda estou aqui.

Regularmente, tenho o costume de procurar saber sobre algumas coisas, ler ou ouvir alguém falar, simplesmente para me informar, para saber a quantas anda o mundo em que vivo... E nada disso foi capaz de fazer eu me revoltar contra os meus princípios. Ainda estou aqui. Depois de tudo que li, vi, ouvi, senti, ainda sou a mesma, ou talvez melhor. Creio como sempre e acredito até mais do que antes.

Desculpe se te chateio. Desculpe se você não tem estômago para o meu discurso cristão e moralista. Você tem direito de acreditar e gostar do que quiser, do que achar melhor. Só não duvide do que eu digo. Aposto como você também adoraria ser feliz. Sua pose de rebelde e avessa ao politicamente correto funciona em termos de estilo, mas fora do mundo das aparências, você sofre. E sofrer é poético, mas não é legal.

Sei que é difícil aceitar que é possível ser feliz sem sair do normal. Eu sei, parece bizarro pensar que exista felicidade dentro da rotina, do que é certo, direito. Você fica com suas convicções, e eu fico com as minhas.

Só não se esqueça que quando você se cansa da sua vida de gozo ilimitado e ausência de regras, é a mim que você recorre. Você jura que está feliz, mas só está alegre. Artificialmente alegre. Quando o efeito passa, você precisa de conforto, estabilidade, segurança e paz. E aí você me liga.

Vou continuar aqui, e minha vida vai seguir cada vez melhor. Pode me odiar, porque eu não te odeio. Pode atacar as coisas que eu penso. Tudo soa muito divertido quando se está bêbado. Mas quando chegar a ressaca, eu estarei aqui. Você sabe que sim. 

Agora sou o modelo

Pois é. Agora eu sou o modelo. É interessante estar do outro lado. Sempre tive os meus modelos, ídolos, inspirações, ou seja lá como chamamos aquelas pessoas que de alguma forma te motivam e te fazem querer melhorar.

E é tão bom ter alguém assim... Parece até que eles fazem o trabalho duro por você. Mesmo naqueles dias em que você está com preguiça, ou abalado, triste, sem forças para lutar, aquela pessoa sempre está ali, persistente e perfeita como sempre. E vê-la te dá forças. Ela não nasceu perfeita (apesar de que chegar até esta conclusão requer muita maturidade! É tão mais cômodo achar que a natureza foi menos generosa conosco do que com os outros), e precisou suar demais para chegar a ser o que é: um exemplo.

Eu também posso chegar lá. Posso ser boa, posso ser motivo de admiração para alguém. Mal alcancei isto e já há quem me veja como um modelo. Sou um modelo para alguém. Já sinto o peso da responsabilidade.

Não posso desistir. Quero melhorar cada vez mais. Não vou perder a fé na vida, a fé nas coisas. Preciso disso na minha vida, e há quem precise que eu seja assim.

Isto tudo é um pouco rigoroso. Tenho que ser perfeita? Não é possível, ainda. Só preciso manter o otimismo e a força de vontade. É um saco? É. Preciso fazer um esforço sobrehumano para não deixar a peteca cair, porque sei que tem gente me assistindo. Parece até que perdi o direito de cometer erros. Mas querem saber? Adoro isso. É tão gratificante.

Nem sou grande coisa, não sou tão boa quanto acham. Talvez até mesmo uma das pessoas que se inspirem em mim acabe se tornando muito melhor que eu. Tomara! Adorarei saber que tive participação nisso. 

segunda-feira, 7 de março de 2011

A geração da música eletrônica – depois de falar sobre a Geração Fun

A repercussão do último texto que postei gerou a necessidade de me explicar um pouco mais a respeito do assunto...

Não sou hipócrita; pelo menos não nesse ponto. Eu nunca disse que odeio diversão ou que condeno todos os artistas do momento. Muito pelo contrário... O que eu abomino é a supervalorização do “estilo festivo de ser”, e principalmente, o abandono dos princípios em nome da diversão. Todavia, àqueles que preferem se divertir de uma forma limpa, sadia e honesta, e que conseguem perfeitamente gozar dos prazeres mundanos sem precisar desvencilhar-se das coisas em que acredita, acho que estão certíssimos e devem mesmo aproveitar tudo de bom que o mundo de hoje nos proporciona! Sem se esquecer dos seus valores, é claro...

Dito isto, entro agora no assunto que pretendo: a transformação que a música pop vem sofrendo nos últimos anos, em virtude da valorização da diversão.

Já declarei aqui o meu amor pela música pop, e já falei também sobre como ela reflete de certa forma os valores difundidos pela sociedade de uma época. Pois bem, em razão de todas as coisas sobre as quais falei no texto “Geração Fun”, tenho percebido o quanto o mercado da música pop tem se adaptado a estes novos padrões. O resultado disso é que o pop de hoje em dia está ficando cada vez mais eletrônico, ritmado e moldado para tocar em danceterias. Grandes ícones da música pop tem lançado hits mais voltados para a dance e house music. Dois grandes exemplos são (a minha adorada) Britney Spears e a latina Jennifer Lopez, que nesta semana lançaram canções minuciosamente projetadas para estourarem nas baladas da vida: “Till the world ends” e “On the floor”. Em menos de uma semana, essas duas canções já atingiram posições de destaque em paradas musicais do mundo inteiro!



“Till the world ends” não foi exatamente “lançada”: na verdade ela “vazou”, ou seja, foi parar na Internet antes da data prevista. A música foi escrita para Britney pela cantora e compositora Ke$ha, que aliás, é a perfeita personificação da diversão que a juventude de hoje tanto procura e venera, sempre lançando singles que falam sobre sair para dançar, beber e curtir com os amigos. Princípios à parte, Ke$ha tem talento e sabe escrever hits dançantes como ninguém.
“Till the world ends” atingiu patamares inacreditáveis de sucesso apenas no primeiro dia em que foi descoberta pelos internautas! Tal sucesso apenas consolida essa nova fase da carreira de Britney Spears, que vem fazendo um pop menos street dance e mais eletrônico desde o single “3”. Embora Britney já flerte com a dance music desde o início de sua carreira e tenha intensificado esta vertente em seus álbuns “Blackout” (“Piece of me” e “Break the ice” são exemplos disto) e “Circus” (vide “Womanizer”), “3” foi seu single mais escancaradamente dance.

Quanto a Jennifer Lopez, seu novo single “On the floor” conta com a participação do rapper latino Pitbull e contém até um sample do hit de lambada dos anos 90 “Chorando se foi”, além, é claro, do componente eletrônico. Uma fórmula inteligentíssima para quem, como Jennifer, estava precisando voltar a fazer sucesso no mundo musical.
Jennifer Lopez no
videoclipe de "On the floor"
Jennifer também é atriz e fez vários filmes de sucesso nos últimos anos, mas há tempos ela não emplacava um hit forte nas paradas musicais. “On the floor” tem mudado isso, haja visto que em apenas uma semana a música obteve o primeiro lugar nas paradas de vários países e seu videoclipe foi visto mais de 13 milhões de vezes no Youtube em apenas 3 dias! E o número está aumentando conforme vou escrevendo este texto. Trata-se, sem dúvida, de um grande momento na carreira de Jennifer. “On the floor” ultrapassou até mesmo Britney e Lady GaGa em vários países. O sucesso, a meu ver, é merecido. A canção é excelente, muito empolgante e bem produzida.

As 5 canções mais baixadas no mundo (clique na imagem para vê-la em tamanho maior), no ITunes, em 07 de março de 2011... Reparem que Jennifer e Britney estão no Top 3, e as demais canções do Top 5 também são todas de  dance music!

Britney e Jennifer são apenas dois dos inúmeros exemplos que temos de artistas que estão lentamente convertendo-se à dance music para se manterem no topo. E o verbo “converter” foi utilizado na frase anterior sem a menor intenção de dar a entender que estes artistas estão “se vendendo”, até porque a música pop e a música dance sempre foram muitíssimo interligadas e inclusive dependem uma da outra.

Outros exemplos:

  • Os Black Eyed Peas, que a priori eram um grupo de hip hop, mas o enorme sucesso de “Pump it” fez-los repensar a carreira e investirem pesadamente na house music. Ponto para eles: nunca fizeram tanto sucesso, desde que abandonaram o hip hop para dedicarem-se exclusivamente a esta nova empreitada, que inclusive lhes rendeu o feitio de serem os donos do maior hit da nova geração, “I gotta feeling”. Atualmente, eles explodem no mundo inteiro com “The time (Dirty bit)”, uma releitura do clássico tema do filme “Dirty Dancing”, de 1987.
  • Enrique Iglesias também começou sua carreira apostando forte em sua veia latina, cantando baladas românticas em espanhol, mas desde que resolveu lançar-se nos Estados Unidos tem optado por canções mais eletrônicas. Deu certo: atualmente, seu contagiante e sensual hit “Tonight I’m loving you” (ou “Tonight I’m fucking you”, para os que não tenham tanto pudor) já chegou ao Top 5 da Billboard.
  • Rihanna é outra que começou como princesinha pop e agora tem canções tocando incessantemente em danceterias, como “Only girl in the world”.
  • A adolescente latina lançada pela Disney Selena Gomez lançou seu primeiro CD em 2009, cantando pop rock com alguns elementos eletrônicos. A canção mais dance, “Naturally”, foi o single de maior sucesso, o que levou-a a investir ainda mais nesta vertente. Em seu segundo e mais recente álbum, a canção com melhor desempenho foi justamente outra canção dance, “A year without rain”.
Discussões na comunidade do Orkut "Billboard Charts" acerca do efeito da dance music
na carreira da cantora Selena Gomez (clique na imagem para
vê-la em tamanho maior)

  • E como esquecer-se de Lady GaGa? A moça dispensa maiores comentários, é a maior dona de hits dançantes dos últimos 3 anos.
E o que acho disso tudo? Acho que é uma fase. Acho que vai passar. Mas também acho ÓTIMO! Particularmente, posso dizer que todas as canções que citei neste texto me agradam. Adoro músicas que fazem dançar!


Sim, é uma fase. Os jovens nunca vão se cansar de diversão, apenas as vertentes mudam. Assim como houve o estouro da música disco nos anos 70 (e por que não dizer que a dance/house music de hoje representa para a nossa geração a mesma coisa que a disco music representava para a geração setentista?) e da new wave nos anos 80 (idem), isto tem ocorrido agora. Daqui há alguns anos, talvez o hip hop volte a dominar, ou talvez surja um novo ritmo, talvez proveniente da mistura de dois ou mais outros. Quem sabe? Aproveitemos enquanto podemos! Estamos vivendo o auge de uma era! 

quinta-feira, 3 de março de 2011

Geração Fun

E a minha saga de irritação continua... O que há com essa sociedade de hoje? Quem colocou na cabeça desse povo que o mais importante da vida é a diversão, e que ela pode ser colocada acima de qualquer princípio? Será que vivemos mesmo, como no título da famosa obra do anarquista francês Guy Debord, na “sociedade do espetáculo”? A impressão que tenho é que as pessoas pensam que vale tudo em nome do show.

Janaína foi eliminada do Big Brother Brasil na noite de terça feira, certamente porque não era uma participante muito carismática ou talvez porque o público prefira Paula – quanto à eliminação de Diogo nem vou fazer muitos comentários; o que penso sobre homens como ele já foi dito aqui no blog.

Particularmente, também tenho simpatia por Paula, e nem acho Janaína tão incrível, mas o que realmente tem me irritado são os motivos pelos quais as pessoas (principalmente os jovens) detestam-na. Dizem achá-la insuportável por ter mania de otimismo, discurso moralista, por querer ser sempre boazinha, sensata, madura etc. Porque aos olhos dos nossos cultos e sábios jovens (!) , pessoas assim são “entediantes”.

Os adolescentes (expressão aqui usado não no sentido jurídico ou biológico, mas sim no que diz respeito à maturidade!) que chamam as Janaínas da vida de chatas e entediantes são os mesmos que passam o dia na Internet atualizando seus Facebooks, Twitters, Tumblrs e Orkuts, bem como espiando os dos outros; fazendo downloads de músicas e capítulos de séries americanas, vagando por sites de notícias sobre famosos, assistindo videoclipes recém lançados através do Youtube... Em suma, são jovens que consumem bastante cultura americana, idolatram celebridades americanas, só assistem séries americanas (geralmente odeiam as novelas e demais programas brasileiros), têm opiniões pré-fabricadas e sem muito embasamento a respeito de política e, munidos desses argumentos, afirmam a torto e a direito que o Brasil é uma droga e um país muito “atrasado”. Atrasado em relação a quê? Aos Estados Unidos, claro.

Não sei se há alguma razão de ordem cultural, mas há tempos eu reparo o quanto o povo americano valoriza a diversão, e a usa como parâmetro para quase tudo. A expressão “have fun” (“divertir-se”) é usada nos Estados Unidos com freqüência muito maior que em outros países. A diversão é, para eles, uma espécie de base, e também de fundamento: se há diversão, é sinal de que está tudo certo. Se a pessoa não se diverte, há algo de errado na situação. Divertir-se é fundamental, e é tudo que se procura na vida – para eles.

"I don't want to be told to grow up"                            "Eu não quero me digam para crescer
I don't want to change                                                     Eu não quero mudar
I just want to have fun"                                                   Eu só quero me divertir"
(Simple Plan, "Grow up")

  
E ao que tudo indica, estes valores estão realmente incutidos nas cabeças dos nossos adolescentes.

Então que importam os princípios, a moral, a ética, o caráter? Nada disso é divertido. E os jovens querem diversão. Querem entretenimento. Não querem pessoas com um objetivo na vida, querem pessoas que proporcionem um show legal para eles assistirem.

Os artistas e demais celebridades já entenderam isso:

O casamento de
Megan Fox: tão romântico,
para quem se dizia tão doida!
  • Britney e Christina há muitos anos abandonaram o comportamento de “mocinha virgem, cristã e recatada” para apostarem em um estilo mais agressivo, selvagem, irreverente e por vezes até mesmo vulgar. Para Christina, “surpreendentemente”, sua carreira explodiu após essa mudança!
  • Temos também o caso de Katy Perry, Megan Fox e outras mocinhas que, ao que tudo indica, são garotas normais, meigas e até mesmo sonhadoras como quaisquer outras, mas apostam na pose de “doidonas” para chamar a atenção. Katy fez sucesso logo em seu primeiro single por cantar que “beijou uma garota, só para experimentar”, e depois disso ainda fez videoclipes nos quais aparecia com sorvetes nos seios e cenas sensuais... Mas será que ela é mesmo essa garota? Sua recente mudança de postura, após o casamento, e a doçura da letra da canção “Firework” (que ela mesma já declarou ser sua predileta), evidenciam que Katy não passa de uma romântica. Já Megan dava declarações polêmicas sobre ser bissexual e preferir beijar mulheres, mas recentemente também casou-se, com direito a cerimônia na praia e tudo... Mais mulherzinha, impossível.
  • E o que dizer de Beyoncé, a grande diva de nossa geração? Quem a vê cantando, seja nos videoclipes ou mesmo nos shows, pode jurar que ela é um furacão de volúpia, mas fora dos palcos, Beyoncé é uma moça tímida, discreta e reservada.
  • Eu incluiria neste rol o cantor espanhol Enrique Iglesias, que adota um estilo “garanhão insaciável”, mas em seu dia a dia também é um rapaz tímido. Seu videoclipe “Tonight” foi recentemente censurado em virtude das cenas de nudez e de sexo – as quais são freqüentes em seus vídeos, nos quais Enrique sempre aparece “se dando bem”, fazendo sexo com várias mulheres, mas ao contrário do que parece, Enrique não é um “pegador”: ele namora há quase uma década a mesma garota, a tenista russa Anna Kournikova, e já afirmou ter perdido a virgindade com 25 anos, além de só ter tido mais uma namorada além de Anna.
É isto que o povo quer!
Então por que Katy, Megan, Beyoncé, Enrique e tantos outros famosos, que não são tão soltos e irreverentes quanto aparentam ser, insistem em vender essa imagem? A resposta está na própria pergunta: porque isso VENDE! Sexo, nudez, pele à mostra, rebolado, loucura, tudo isso vende. Ser “fodão” vende. Os jovens não dão mais atenção a vídeos que não contenham cenas das loucuras que podem acontecer em uma festa, não idolatram artistas que apenas queiram cantar e passar suas mensagens, não elegem seus BBBs favoritos com base no caráter. O que eles querem? Alguém que os divirta. Alguém que produza alguma coisa bem maluca, original e politicamente incorreta para eles consumirem. E que se danem o respeito, o sentimento, os princípios, porque nada disso os diverte, nada os mantém interessados.

Quero deixar bem claro que não condeno a cultura pop americana – pelo contrário, quem já deu uma olhada em meus outros textos sabe que adoro cultura pop e inclusive estou sempre usando-a como deixa para abordar meus assuntos preferidos –, não condeno Britney, nem Christina, nem Katy Perry, nem Meghan Fox, nem Beyoncé, nem Enrique Iglesias (pelo contrário, sou muito fã de alguns destes nomes que citei! Sou mesmo), e nem amo Janaína. Mas me irrito com a forma como as coisas acontecem hoje.


Lamento profundamente os conceitos permeados pela atual geração, da qual eu quase me envergonho de fazer parte – quase, porque dizer que tenho vergonha dos jovens dessa geração é igualar-me a eles quando dizem que “têm vergonha de serem brasileiros”: é cuspir no prato que se come, é generalizar, é julgar-se superior, esquecendo-se de que também somos parte daquilo que detestamos e que temos muita coisa em comum.

Também não sou tão utópica; aliás, tenho melhorado muito. Em outros tempos, eu desprezaria uma participante como a Maria, do BBB 11, mas confesso que a adoro! Tudo indica que realmente era garota de programa, e ela protagoniza algumas das cenas mais depravadas do programa, mas acho-a tão autêntica, tão espontânea. Maria não tem medo de ser ridícula. Ela é quem é, e não se importa com os estereótipos. Como uma mulher bonita e atraente, ela em tese deveria portar-se como tal, mas não, ela gosta de às vezes ser menina, às vezes ser mulher, às vezes ser séria e às vezes ser palhaça. Ela amarra o cabelo de lado, no maior desleixo (e no maior estilo anos 80!); e humilha-se para um rapaz que não a quer mais, quando geralmente são os homens quem correm atrás das mulheres... Tudo isso sem se importar nem um pouco com o que vão dizer!

Estou ciente que o Big Brother Brasil é um programa de entretenimento. Nesta seara, faz sentido que o público elimine os participantes que não o entretém. Sob esta ótica, a eliminação de Janaína é compreensível e aceitável. Mas dizer que ela é “chata” porque é “muito otimista” e “sempre faz a coisa certa”... é lamentável.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sobre amar e ser amada: a influência dos meios de comunicação

Aos que tenham reparado no título do texto, eu realmente pus o particípio do verbo amar no gênero feminino, porque pretendo analisar o tema sob a ótica feminina. Afinal, eu sou mulher, e nesta condição, sei como algumas coisas são difíceis para nós. O mundo foi “dominado” pelos homens por milhares de anos, e por mais que nós já tenhamos revolucionado este cenário, ainda há muitos conceitos a serem derrubados, ou pelo menos modificados. Não se apagam séculos de opressão com apenas algumas décadas.

As histórias contadas pelos livros, filmes e programas de TV, muito embora cumpram com sua tarefa de entreter, emocionar e até mesmo passar boas mensagens, também mexem um pouco com os sentimentos e a formação da identidade feminina e acabam passando uma imagem errônea de como as coisas funcionam. Aliás, seria mesmo errônea? Talvez seja apenas lamentável, haja visto que fora da tela e das páginas, muita gente ainda pensa como nestas histórias.

Estou me referindo ao velho padrão segundo o qual a mulher deve ser bela e encantadora, enquanto o homem pode ser como for. Certamente, a menina que não nasce tão abençoada com traços perfeitos, cabelos sedosos e corpo gracioso sofre muito com esta ditadura. Fica difícil acreditar que é possível ser amada mesmo não sendo parecida com uma atriz de cinema ou perfeita como as mocinhas dos livros de romance.

Desde a antiguidade, as lendas e histórias de amor têm como destinatária de todo o amor do herói uma donzela bela, delicada, charmosa e doce. Vejamos um trecho do famoso "Marília de Dirceu", de Tomás Antônio Gonzaga:


"A minha amada 

é mais formosa 

que branco lírio, 

dobrada rosa, 

que o cinamomo, 

quando matiza 

co’a folha a flor: 

Vênus não chega 

ao meu amor."

Nos filmes, novelas e séries, não é diferente: a cena em que o homem se apaixona é o momento em que a moça passa em câmera lenta, linda, com os cabelos balançando ao vento, enfim, esbanjando charme e perfeição. Em todos os momentos em que o homem se flagra com pensamentos românticos, a moça está lá, belíssima, com um sorriso que faz o mundo parar. Nunca vi um personagem masculino que cai de amores por uma garota que não seja incrível. Alguém já viu uma cena de novela das nove com uma mulher mais gordinha, de cabelos crespos e rosto imperfeito caminhando pela orla, e de repente o galã a vê e seu coração acelera? Eu nunca vi.

Para deixar tudo ainda mais bagunçado, aquele que é tido como “o poeta do amor” ainda possui a proeza de soltar a pérola: “As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”.

A lindíssima Helô Pinheiro, no auge de sua juventude,
musa inspiradora de Vinicius de Moraes.
Interessante notar que essa exigência de beleza e perfeição só diz respeito às mulheres. Vinicius de Moraes, por exemplo, não era bonito. Mas claro que isso nunca o impediu de se achar merecedor das garotas mais lindas do Rio de Janeiro. Okay, ele era talentoso, poeta, etc e tal... Mas então por que as grandes poetas, intelectuais e demais mulheres inteligentíssimas porém feias não conseguem o mesmo feitio?

Homens feios, gordos, sem charme, sem carisma ou até monstruosos nunca constituem problema. A mulher é que não pode ser feia. É o que vemos em clássicos como “A bela e a fera” (a jovem linda e o monstro), “O corcunda de Notre Dame” (o corcunda velho e esquisito, e a cigana exótica e bela) e “King Kong” (o gorila horripilante e a donzela loira).  Tudo isso é visto como muito normal, mas quando ocorre o contrário – mulher feia e homem bonito –, assume tom de piada, de deboche, como na novela e série “Betty, a feia” (ou “Ugly Betty”, e ainda “Bela, a feia”), e no filme “O amor é cego”.


Quando o casal é composto por um homem feio e uma mulher bonita, todos acham normal, e até se emocionam...

... Mas quando ocorre o contrário, a história precisa ser contada em tom de comédia, de gozação, porque isto é considerado "anormal".

Das histórias que escutamos e vemos desde sempre, a conclusão a que se pode chegar é que a mulher tem a obrigação de ser linda, ou nunca será amada. E o seu par pode até mesmo ser horroroso ou estúpido, que importa? Ele pode. E ela tem que aceitar, porque sua função é apenas ser linda e servir de musa inspiradora. Não tem direito de reclamar ou querer algo melhor, apenas deve ficar ali, perfeita, como um efeite.

Como fica a autoestima de uma garota que não possui uma beleza convencional e cresce recebendo mensagens como estas? Provavelmente se tornará uma mulher retraída, que não consegue se amar e se aceitar, e que acha que não merece ser amada por homem nenhum porque não corresponde ao que eles esperam de uma mulher.

Estou ciente de que os veículos de comunicação não os únicos responsáveis por isso. Não os culpo por completo. Se as novelas, filmes e livros reproduzem estas coisas, é porque certamente elas também ocorrem “no mundo real”. Entretanto, é inegável que a mídia não retrata as mudanças na sociedade na mesma proporção em que elas têm crescido.

Todo mundo conhece algum caso, em seu círculo de amigos ou de conviventes, de mulher gordinha e bem resolvida que namora rapazes bonitos, ou de outras pessoas não muito bonitas que ainda assim levam uma vida social normal e são felizes no amor. Por que não vemos isso nas novelas? E se vemos, por que em uma proporção tão pequena? Talvez porque a TV precise de beleza; aparecer na TV requer perfeição, porque como ela se vale principalmente do recurso visual, precisa mostrar coisas bonitas a fim de cativar os telespectadores.

Será, todavia, que as pessoas não se identificariam mais se os seus programas prediletos mostrassem situações mais verossímeis? Os ambientes e fatos mostrados nas séries, novelas e filmes não são muito críveis: é simplesmente irreal imaginar um lugar onde todos são lindos, todas as mulheres são magras e andam maquiadas 24 horas por dia. Visualmente é lindo, e é claro que impressiona, dá ibope... Mas enquanto isso continuar, seguiremos alienando a mente de meninas e moças que nunca vão conseguir se sentir adequadas.  

Homem de verdade

24/02/2011 - 13h12
Nina Lemos: O verdadeiro homem da casa do "BBB11"
NINA LEMOS

COLUNISTA DA FOLHA


"Só tem viado aqui dentro". A frase não foi dita no "Big Brother" por nenhum integrante do grupo dos "machos alfa", mas por Daniel, o único gay assumido que continua no programa.
Se o BBB do ano passado foi marcado por brigas entre gays, simpatizantes e homofóbicos, o desse ano expõem outro conflito (muito parecido): o entre homens machistas e mulheres.
Daniel, quando chamou os caras de "fracos", explicitou a guerra. E mostrou que é ele o homem da casa que realmente ama as mulheres (fato que nada tem a ver com orientação sexual, como se sabe).
Sim, porque o "viado" a que Daniel se refere não é o homem gay. Mas o machão que não sabe lidar com moças, as trata mal e, por vezes, as odeia.
"Não torço para esses homens uós. Se eles ganharem, vão botar para ferrar com as empregadas deles. O Diogo briga com mulheres. Não posso aceitar essas humilhações que ele faz."
Diogo, para quem não assiste ao programa, já chamou uma das participantes de "gorda nojenta" e de "balofa". Adriana, de quem ele era "amigo", já foi chamada de "songa".
"Eu cuspo em mulher, grito", disse certa vez o exemplar mais ogro do grupo.
O "amigo gay" das moças não foge da raia. Pelo contrário: as defende com "macheza". Desde que a tal garota foi chamada de "gorda nojenta", nunca mais deixou de votar em Diogo.
O curioso é que as meninas, que, sim, já chamaram os homens de machistas e também formaram um bloco, não votam contra os caras que as maltratam.
Talvez por medo, por não resistir a um afago ou por estarem acostumadas a levarem patadas de homem na vida real e acharem que é assim mesmo.
Depois de discutir com os homens, elas não suportam o tranco e acabam pedindo desculpas para os machos feridos usando chavões do estilo: "Eu exagerei, estava nervosa. Desculpe". A culpa é sempre da mulher, claro. E coitado do homem que ainda teve que lidar com essa louca!
Daniel é amigo dos machos, sim, e a convivência é harmônica. Mas ele é o único da casa que ainda não abaixou a cabeça para os rapazes fortes e pediu "desculpas por existir".
O grupo dos machos alfa tem tudo para chegar à final do programa (grande objetivo deles). Mas já está mais que provado quem é o "homem" da casa.



Achei este texto muito interessante, e ao lê-lo, pude ter mais certeza ainda de minhas convicções acerca do que é verdadeiramente ser homem, neste mundo tão louco em que vivemos, neste mundo que ainda guarda em seu íntimo algumas velhas ideias sobre “homem provedor”, “homem que sustenta”, “homem que manda”, mas que ao mesmo tempo já aceita homens que fogem deste estigma e até recebem a homossexualidade com maior tranquilidade.

O que penso é que ser homem, ser um verdadeiro homem, não é uma questão de opção sexual. É uma questão de personalidade. Um homem pode se envolver com outros homens e ainda assim ser um grande homem (porque gostar de homens não é sinônimo de ser mulher, e um homem não deixa de ser homem apenas porque prefere não se relacionar com mulheres). Por outro lado, eu poderia citar um sem-número de homens heterossexuais, no maior estilo “macho alfa”, que não sabem ser homens. Não há como discordar de Nina Lemos, a autora do texto acima: de que adianta ser másculo, viril, ter coragem de falar tudo que pensa e agredir quem bem entender, e não saber cumprir com sua palavra?, não ter cárater?, não saber tratar uma mulher? Um homem de verdade, independentemente de sua orientação sexual, sabe tratar uma mulher.

Certa vez, perguntaram-me se eu achava que o homem deveria sempre pagar a conta ao sair com uma mulher, e se isso era uma demonstração de cavalheirismo. Respondi que isto é relativo, que depende da situação.

Meu conceito de cavalheirismo vai além de abrir a porta do carro, pagar a conta e puxar a cadeira para a moça se sentar. Cavalheiro, no meu entender, é o homem que vale-se de suas condições de homem para fazer alguma gentileza à mulher. Cavalheirismo, para mim, seria fazer uso do que o sexo masculino tem de melhor, de superior, para dar apoio, proteção e carinho ao sexo feminino. Sim, porque reconheço que em alguns aspectos, o homem é superior – tanto generalmente, quanto em cada caso individual.

Neste ínterim, um homem dotado de condição financeira superior que a mulher é cavalheiro quando se oferece para pagar a conta. Se ambos estão em um mesmo patamar, por exemplo, já não se trataria de cavalheirismo, mas sim, de gentileza mesmo. Um homem alto, forte e másculo que não deixa sua companheira carregar coisas pesadas, em função do porte frágil dela, é cavalheiro. Em suma, um homem que usa de seus méritos para agradar a mulher, tendo em vista as fragilidades da mesma, é um grande cavalheiro.

E de que adianta gabar-se tanto de sua força e de sua masculinidade se não houver a coragem de cumprir suas promessas, enfrentar seus próprios medos, honrar sua palavra? Um homem de verdade precisa ter essa bravura, que não tem nada a ver com usar de violência física, mas sim, com ideais e com caráter.

Às felizardas (como eu!), que conseguiram encontrar homens assim, sejam gratas, e não desperdicem a maravilhosa oportunidade de criar meninos que também serão grandes homens, assim como seus pais são – pois esta espécie certamente já está em vias de extinção.  



"Because a real man knows a real woman when he sees her 

And a real woman knows a real man ain't afraid to please her 
And a real woman knows a real man always comes first
And a real man just can't deny a woman's worth"

(Alicia Keys, "A woman's worth")


("Porque um verdadeiro homem conhece uma verdadeira mulher quando a vê
E uma verdadeira mulher sabe que um verdadeiro homem não tem medo de satisfazê-la
E uma verdadeira mulher sabe que um verdadeiro homem sempre vem em primeiro lugar
E um verdadeiro homem simplesmente não pode negar o valor de uma mulher")

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O que tenho ouvido ultimamente – Parte V: Cantoras brasileiras

Privilegiei os artistas norte-americanos e ingleses em minhas listas anteriores, mas agora estou aqui para falar de cantoras brasileiras, em grande parte de MPB, que também não são ainda grandes conhecidas do público. Okay, há uma exceção ao fim da lista, mas é justificada!

Marya Bravo
Filha de Zé Rodrix e dona de uma grande bagagem cultural, descobri a música de Marya Bravo pelo Orkut e de cara adorei sua voz linda e triste, e suas canções profundas e voltadas para o rock'n'roll. 
Fiquei encantada pelo álbum "Água demais por ti", de 2009. A interpretação de Marya é maestral, as canções são uma delícia para os ouvidos e também gostei das letras.



Tulipa Ruiz
Conheci Tulipa quando a vi cantando no programa "Altas Horas", e sua voz e estilo diferentes me deixaram curiosa.
Tenho escutado bastante o seu álbum "Efêmera", de 2010, que traz uma MPB bem gostosa, meio pop.



Sandy
Não me matem por tê-la colocado entre Marya e Tulipa; sei que Sandy não canta MPB e tampouco é pouco conhecida, mas não podemos negar que seu primeiro álbum solo tem tido pouca aceitação. Lamentável, porque é um ótimo álbum!
É triste atestar isto, mas Sandy infelizmente vai conviver pelo resto da vida com o estigma de ter sido uma cantora infantil com pose de virgenzinha. O povo brasileiro se prende muito a estes rótulos e raramente volta atrás em suas opiniões. Mas ainda há quem saiba apreciar coisas novas sem ficar preso ao passado - e ainda que se leve o passado em consideração, que mal as pessoas tanto vêem em Sandy e Junior? Eles faziam um pop juvenil tão legal, e em especial nos últimos anos de carreira amadureceram bastante... O álbum de 2006 é um dos meus prediletos e não tem nada de infantil, pelo contrário, é muito maduro e bem feito, pop da melhor qualidade.
Pois bem, em sua nova empreitada - o álbum "Manuscrito", de 2010 - Sandy continua pop, mas mais introspectiva, reflexiva, como que tentando descobrir-se. Esta busca pelo autoconhecimento rende canções lindas e interessantes, como a do vídeo abaixo.







Ainda estou com muito material guardado para escutar, de outras cantoras neste mesmo estilo, como Juliana R. e Luisa Malta, mas por enquanto, as que mais têm tido espaço em minhas playlists são estas que citei. Música brasileira sempre cai bem, principalmente quando cantada com competência e sensibilidade.

O que tenho ouvido ultimamente – Parte IV: Indie rock e artistas alternativos

Gosto de estar sempre atualizada com as novidades do mundo da música, checar os charts (paradas musicais) do Brasil e dos EUA, pesquisar pelo site da Billboard e tudo o mais... Mas de vez em quando também é bom fugir um pouco disso e ouvir música menos "badalada".

Recentemente descobri várias bandas de indie rock (rock independente) bem legais, e também outros artistas alternativos, que fazem um som bem interessante e original. Aqui vão alguns exemplos:

Ellie Goulding
Cantora inglesa muito boa, chegou a ganhar alguns prêmios na Inglaterra e ficou em primeiro lugar na lista da BBC "Som de 2010", mas não consegue tanto destaque na mídia... Faz um pop não muito convencional, com elementos eletrônicos e um quê de new wave. 
Recomendo o álbum "Bright lights", de 2010.





Marina and The Diamonds
Também a descobri na lista da BBC, na qual ela ficou em segundo lugar. Marina é galesa e tem ascendência grega. Segundo a própria BBC, "se uma jovem Liza Minelli estivesse estrelando um musical da Broadway que contasse a história da vida de Tori Amos, soaria como isto".
Assim como o pop de Ellie Goulding, o de Marina foge do lugar-comum e mescla música eletrônica, pop, black music e indie rock... É uma loucura, fica difícil descrever, mas é ótimo!






The Pepper Pots
Esta dica é pra quem gosta das girl groups dos anos 60, aquelas sobre as quais estou falando aqui no blog: The Ronettes, The Crystals, The Marvelettes, The Supremes, The Chiffons... 
As Pepper Pots fazem esse tipo de pop, bem melódico, girlie ("mulherzinha") e sessentista. Quem gosta da Motown vai adorar!


The Secret Sisters
Dupla americana cuja música tem base country, mas um tanto quanto folk também... Se bem que, ao escutá-las, não consigo pensar em nada além da música country de raiz - tanto que no primeiro álbum há até uma regravação de "Big river", do lendário Johnny Cash. Há também quem compare o som delas a Patsy Cline e June Carter (segunda esposa de Johnny Cash), e outras divas da música country.





Delphic
"Isto é o que teria acontecido se o New Order abraçasse o ambiente techno, ou se o Neil Tennant dos Pet Shot Boys tivesse passado um tempo em raves", é como a BBC descreve o som do Delphic, uma banda inglesa super legal que faz um som meio eletrônico, mas não necessariamente pop. Até agora, minha canção favorita é "Submission".




The Like
Não faço a menor ideia de como conheci as meninas do The Like, mas foram uma grata surpresa! Trata-se de uma banda de indie rock influenciada pelas girl groups dos anos 60, o punk rock dos anos 70, bem como outras bandas de rock com vocais femininos.  Todo o álbum "Release me", de 2010, é excelente.







Hurts
Esta dupla inglesa de synthpop nos remete ao new wave dos anos 80, como Tears for Fears e Pet Shop Boys, e faz canções que se destacam pela sensibilidade. Super recomendados! Algumas canções realmente são tão lindas que doem (como "The water" e "Stay", do vídeo abaixo), conforme sugere o nome do grupo.






Brava 
Até que enfim uma banda brasileira na lista! Pois bem, a banda Brava emplacou uma canção na trilha sonora de Malhação, "Todo mundo quer cuidar de mim", em 2004. Ela fez bastante sucesso e levou todo mundo a se perguntar se era Paula Toller, mas na verdade quem cantava era a filósofa carioca Paula Marchesini.
A banda Brava faz um pop rock bem legal, introspectivo, sentimental, com letras boas e melodias agradáveis. 





The Drums
Outra banda que descobri na lista da BBC "Som de 2010"... Os garotos do The Drums pegaram o quinto lugar, e me cativaram com seu som, que ora me soa como o rock cru do White Stripes (porém, um pouco menos agressivo); ora me soa como a new wave dos anos 80; e ora me soa como o surf rock dos anos 60, em especial as canções dos saudosos Beach Boys.
Enfim, todo o álbum de estréia é excelente, eu destaco "Best friend" (vídeo abaixo, faixa que abre o disco), "I need fun in my life", "Book stories", "Forever and ever Amen", "Down by the water"... Vale a pena conferir!





The Blade 
Mais uma banda brasileira, apesar do nome em inglês. Conheci essa banda paulista pelo orkut, e logo me interessei quando vi que o som deles era inspirado no rock dos anos 60, entre outros estilos musicais.
O The Blade permanece escondido e limitado ao cenário independente, então fica difícil ouvir falar deles, mas é possível baixar as canções por meio do site da banda, pelo link: http://www.theblade.com.br/musicas.html
Particularmente, gosto muito do álbum de 1997, "Rage", em especial da canção "Beast".




Binocular 
Okay, o som do Binocular nem é tão alternativo assim, é um pop rock bastante comercial, mas como ele nunca foi tão divulgados, incluí-o nesta lista. 
Na verdade, nem se trata de uma banda, mas sim de um único cantor e instrumentista, o americano Kevin Rudolf. Lançou um álbum maravilhoso em 2001, recheado de belíssimas canções como "You" (que fez parte da trilha sonora do seriado Smallville), "Wait until", "Gone away" e "Deep".




Em 2004 Kevin lançou, ainda sob o pseudônimo de Binocular, a canção "Maybe you're gone", que entrou para a trilha sonora do filme "Um show de vizinha" ("The girl next door"). A música só toca nos créditos finais do filme, mas ainda assim conquistou alguma repercussão - aliás, foi desta forma que conheci o trabalho do Binocular! 
Para quem gosta de pop rock romântico no estilo The Calling e 3 Doors Down, o Binocular é uma boa dica, embora seu som tenha menos guitarra, seja mais tranquilo e até tenha alguns elementos de eletrônico. 


Pancho’s Lament 
Assim como o Binocular, Pancho's Lament é uma banda de um homem só e não é exatamente alternativa. Seu som também é pop rock romântico, e a "banda" alcançou fama por ter praticamente todas as canções do primeiro álbum (lançado em 2000) incluídas na trilha sonora do seriado Jack e Jill.
As canções são lindíssimas, com bastante violão e letras ótimas. Minha queridinha é "Little angels", sou capaz de ouvir dez vezes seguidas!







Enfim, espero ter ajudado a divulgar um pouco melhor estes artistas que, justamente por serem "alternativos" e/ou "independentes", acabam não chegando ao conhecimento de muita gente. Se por um lado isso é bom, por salvá-los da possibilidade de virarem "modinha", por outro é no mínimo um desperdício que haja tanta boa música sem gente para ouvir!