sábado, 13 de outubro de 2012

Emoção que transcende situações e ultrapassa fronteiras


Como é possível que um mesmo acontecimento cause a mesma comoção e gere o mesmo sentimento, ao mesmo tempo, em várias pessoas de diversas partes do mundo? Só mesmo quando o acontecimento está repleto de beleza e verdade genuínas. Eu não consigo explicar a grandeza disto. 

Eu estaria sendo genérica e ingênua se dissesse que quando algo é realmente verdadeiro e belo, o é de forma incontestável; pois a verdade é que tudo é contestável e sempre haverá quem não consiga enxergar o que para outros parece nítido, ou ouvir o que para outros seja gritante... Mas, por outro lado, chega a ser inexplicável a maneira como uma mesma emoção pode emanar de uma pessoa diretamente para os corações de milhares de outras. Que força é essa?

E a globalização e a tecnologia são realmente inacreditáveis, porque só mesmo por meio delas seria possível verificar este fenômeno: a reação instantânea de milhares de pessoas que estão sentindo o mesmo que você no exato momento em que você se depara com aquilo que te faz sentir. Bendita a tecnologia quando ela espalha maravilhas e liga as pessoas umas às outras através do sentimento!

De fato, um sentimento verdadeiro é capaz de conectar pessoas. 

Créditos: http://www.tumblr.com/tagged/camila-cabello
Acho que ser humano é isto: é reconhecer a si mesmo por meio do outro, é identificar fora de si aquilo que existe dentro também, e assim, sentimo-nos todos iguais, de alguma forma. 

E por ser tão rara e tão única a sensação de sentir-se conectado com o mundo através de alguns míseros segundos de pura beleza, dá vontade de registrar esta sensação, de algum modo, para que ela nunca se perca, e para que nunca nos esqueçamos de como foi... Afinal, é certo que as emoções passam e os momentos ficam para trás; e é certo que, passado algum tempo, podemos nos ver diante da mesma situação e não sentiremos aquilo que sentimos quando a vimos pelas primeiras vezes. Por isso a importância do registro: para ficar marcado que um dia, uma vez, em vários lugares ao redor do mundo, por vários computadores ligados, milhões de pessoas - que nunca se viram e provavelmente jamais se conhecerão - viram a mesma coisa e sentiram a mesma emoção.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Gravidade



Eu e você costumávamos falar do futuro e planejá-lo como se ele fosse uma realidade totalmente moldável ao nosso gosto. Agora, o futuro chegou, e as realidades que projetamos estão a um passo deste exato minuto. Fico feliz em ver que temos maturidade suficiente para aceitar que nem tudo poderá ser exatamente como achávamos que seria, e que temos amor suficiente para nos esforçarmos e tentarmos moldar nossa vida até onde for possível fazê-lo. 

O nosso futuro está mais palpável a cada dia que passa. Algumas das sementes que plantamos já dão seus frutos, e os únicos frutos que ainda não colhemos são aqueles cujas colheitas precisamos interromper. Não é que tenhamos desistido de sonhar: apenas entendemos que alguns sonhos não eram para nós, e precisaríamos sonhar outros. 

E mesmo se esses novos sonhos não vingarem, estou certa de que teremos estrutura para aceitar isto e seguir em frente, e sensatez para, a despeito disso, alcançarmos a felicidade. Disto eu posso me orgulhar: não somos perfeitos, e não conseguiremos tudo nesta vida, mas ao menos pudemos crescer e amadurecer juntos. 

É uma vitória nossa. Empenhamo-nos nisso ao longo de todo este tempo. O prazer da nossa companhia nunca nos impediu de não nos conformarmos em simplesmente estarmos alegres um com o outro, porque sabíamos que a alegria era insuficiente: bom mesmo é ser feliz, e a verdadeira felicidade só vem com a maturidade. Por isso, buscamos amadurecer, tiramos bom proveito das nossas experiências juntos, e graças a isto, hoje somos como somos.

Nem sempre foi assim. Quando tudo começou, não imaginávamos que o objetivo era esse. Éramos tão jovens. Você, mais que eu; pois apesar de eu haver nascido bem depois de você, o fato é que sempre tive um espírito velho. Eu me perguntava se não sendo estava injusta ou egoísta em furtar de você a oportunidade de vivenciar todas as experiências pelas quais um jovem da sua idade passa quando não está atado a um relacionamento tão sério. Mas algo me dizia para continuar. Obviamente, eu não sabia o quê. Eu nunca sabia. No começo, nada fazia muito sentido. Eu não sabia por que tinha começado, e a cada dia que passava, continuava sem saber por que não terminava. Você também não sabia, embora estivesse gostando. Era mais ou menos como a gravidade, puxando-nos para o centro da terra: uma força que não era inexplicável; nós é que ainda não sabíamos explicá-la. 

Hoje, vejo que esse impulso que nos movia era Deus. E mesmo quem não acredita em Deus há de concordar que o mundo não é movido pelo nada. Seja como que for que queiram denominar essa força dotada de razão que instiga as coisas a se unirem àquelas das quais precisam para fazer o mundo continuar girando, foi ela que me despertou do meu sono naquele dia em que acordei decidida a te trazer para a minha vida. E foi ela que sussurrava em meus ouvidos, todos os dias, para não parar, para não desistir. E eu não sabia por que estava fazendo tudo aquilo, mas fiz. Foi uma daquelas coisas que a gente só vai entender muitos anos depois.

Hoje eu sou suficientemente madura para compreender que há uma razão pela qual aparecemos um na vida do outro, e você fez parte deste processo de amadurecimento. Foi bom para nós dois. O meu amor te transformou de menino a homem, e o seu amor me deu coragem para ser a mulher que eu sempre quis ser - pois o fato é que nunca tive disposição para ser menina. Nosso encontro foi a colisão da infância com a maturidade; mas eu estava enganada se pensava que era a única adulta a ter algo a te ensinar como criança, porque, em verdade, o adulto que você se tornou me ensinou uma porção de lições que eu provavelmente me recusaria a aprender se não tivessem vindo de alguém tão adorável.

Quem me conhece sabe: meu egocentrismo é tamanho que poucas pessoas conseguem ter efeito sobre mim. Você é uma delas. A explicação mais lógica para isto é que eu me deixo afetar por você porque você me traz um pouco de mim, porque admirar a suas qualidades é enxergar um pouco do meu próprio trunfo, porque credito a mim mesma o sucesso do nosso relacionamento e, sendo assim, estar com você é lembrar a mim mesma o quanto eu me amo e me acho o máximo. E isto não deixa de ser verdade, porque você sabe que eu sou mesmo egoísta. Mas há algo além disso... Você realmente conseguiu adentrar àquele pedaço escondido de mim, àquela barreira quase intransponível que separa o meu amor próprio do meu amor por tudo que não sou eu, àquele espacinho apertado no meu coração no qual há pouquíssimas pessoas e ainda assim elas disputam espaço. Este espaço era minúsculo, e estava praticamente lotado. 

Você sabe, eu amo poucos, mas amo-os muito. Hoje eu entendo que estes poucos, em maioria, são pessoas que nunca persistiram muito para fazerem-se amadas... Simplesmente aconteceu. A vida me-los deu, e eu os amei. Você se tornou um destes poucos, sem fazer nenhum esforço. Talvez seja típico de mim deixar-me encantar por quem não precisa do meu amor, ou talvez você seja mesmo tão incrível que consiga despertar sentimentos mesmo sem querer, ou talvez isto simplesmente tivesse que acontecer. Ou provavelmente todas as alternativas estão certas, e especialmente a última. 

Eu poderia elencar um milhão de motivos pelos quais acredito que Deus tenha cruzado nossos caminhos... Mas é perda de tempo ficar listando. Em algum lugar na nossa mente e nosso coração, ainda que de uma forma não muito organizada, nós temos consciência de todas as razões. Se não tivéssemos, não estaríamos colocando em prática tudo que aprendemos juntos durante todo este tempo. 

Hoje, tudo faz sentido. Que engraçado. Você realizou todos os meus sonhos, até os que eu não sabia que tinha. Deu-me o ânimo que eu precisava na época em que nos conhecemos, e a base que precisaria para me tornar o que sou hoje. Sem saber, já estávamos traçando nosso futuro, trilhando nossos caminhos. E hoje estamos aqui. E sabemos que não foi por acaso.

Passado, presente e futuro se cruzam... Só hoje posso entender algumas coisas que ficaram para trás, e ainda hoje há coisas que só entenderei amanhã. A cada dia, nossa história vai fazendo mais sentido. Você esteve comigo o tempo inteiro. Algo acima de nós sabia do que seríamos capazes juntos; e posso afirmar que este gigantesco quebra cabeças que já montamos juntos ainda é muito pouco perto de tudo que ainda faremos juntos nesta vida.

A famigerada maturidade

Às vezes, não sempre, eu olho para dentro de mim mesma, e quando me comparo com algumas pessoas da minha idade, acho-me ligeiramente mais madura. Talvez seja apenas um questão de ponto de vista, pois quando penso na forma como me comporto nas situações comuns que partilho com meus amigos e conhecidos, não acho que esteja passando a impressão de ser diferentes da maioria das pessoas. Provavelmente os outros também são assim: têm suas concepções e sua maturidade, mas não precisam ficar expondo-os o tempo todo; agem com sensatez quando é preciso ser sensato, e agem normalmente em situações normais; e é isso que penso deles, porque nunca estou com eles quando é hora deles provarem que são maduros.

Porém, não há como negar que mesmo entre um ou outro evento trivial da vida, por mais trivial que seja, nós deixamos pistas dos mais marcantes traços de nossa personalidade. E eu não vejo - ou ao menos não com tanta frequência - nas pessoas de nossa idade muitos contornos adultos. Eu sei que faz pouquíssimo tempo que encerramos a etapa da adolescência; contudo, esta é, seguramente, a transição mais rápida da vida. O mundo exige de nós que sejamos adultos antes mesmo que consigamos nos enxergar como tais. Por que não vejo tanta gente se sentindo pressionado desta forma como nós eu me sinto?

Lembro-me dos pensamentos que eu tinha quando era menina, da maneira como eu imaginava que seria quando eu tivesse a idade que tenho hoje. Tudo parecia muito distante e muito natural: ser adulto era saber tudo, ter um lugar no mundo e estar consciente disso; e eu realmente não imaginava que seria tão difícil. Talvez 'difícil' não seja a palavra certa, porque o que sinto hoje não é a arduidade, é apenas... A complexidade. 

Eu sempre imaginei que a infância e adolescência eram apenas etapas preparatórias para a idade adulta, como se esta fosse realmente a época em que a vida começava; e por pensar assim, preparei-me muito para o dia de hoje, para quando o hoje chegasse. Pois bem, chegou. De certo modo, posso dizer que já sou muito (não tudo, mas boa parte) daquilo que imaginava que seria, se levar em conta a imagem que passo. 

É difícil, para mim, aceitar que as demais pessoas não passaram todo o seu passado esperando pelo agora, pois esta foi a minha realidade, e é estranho ver que, provavelmente, só eu pensava assim. Talvez por isso só eu seja como sou. Nasci velha, e a cada dia que passo fico mais velha, sempre mais velha que os outros.

A verdade é que, de certa forma, sempre estive um passo à frente: mais madura do que os outros da mesma idade, sempre aparentando ser mais adulta, ainda que nem sempre em um sentido positivo. Mas e quando eu for realmente adulta, quando todos nós formos realmente adultos, qual será o meu mérito? Sou dramática ao já exigir de todos que ajam como adultos, pois o fato é que as coisas hoje já não são como antes, e mesmo a fase adulta tem ínsita em si uma infância. Mas vai chegar um dia em que essa infância vai passar, e aí sim todos estaremos no mesmo nível, os adultos-crianças passarão a ser totalmente adultos, e os adultos-adultos serão... Adultos. Do que poderei me vangloriar quando isto acontecer? Todos serão maduros, e eu também serei, com a diferença de que, desta vez, isto não será motivo de admiração. Serei apenas o que se espera que qualquer um da minha idade seja, e ninguém mais me achará distinta. 

Há sempre um mérito em estar adiante dos outros, mas no meu caso, o que há adiante que eu possa conquistar e que todos já não tenham conquistado? Não há nada. Meu mérito será ter chegado lá antes de todos, mas quando se passar um enorme lastro de tempo após todos terem chegado lá também, minha vitória nem terá mais brilho. Se é que um dia teve. 

É curiosa a forma como vejo que me encaixo nesta sociedade de hoje. Às vezes sinto que tenho vontade de gritar que sou diferente, que não sou igual a todos, que não sou fútil como os outros, que não tenho os mesmos gostos e que, ao contrário deles, tenho objetivos e princípios. Flagro-me contrariada por não  reconhecerem minha falta de juventude, minha distinção, minha superioridade. E em seguida, sinto-me ridícula por realmente crer que sou mesmo superior, que sou mesmo tão digna de homenagens. E quando alimento esta linha de pensamento, lembro-me de há alguns anos atrás a situação era exatamente oposta: tudo que eu queria ser considerada igual, normal. Minha distinção era gritante, e ela me excluía de tudo que era comum à minha época, e por causa dela eu mesma me excluía de tudo. O orgulho de já ter entendido tudo aquilo que os meus colegas ainda levariam anos para entender não era suficiente para evitar a tristeza de não ser contada, não ser aceita, não ser vista como alguém normal.

A vida é tão engraçada. Eu me esforcei para deixar de ser invisível, e quando finalmente fui vista, fiquei feliz por saber que seria possível conciliar as duas imagens. Consegui ser aceita, e melhor ainda, consegui ser reconhecida pelo que era. Era honroso ser diferente em meio aos normais. 

Porém, a diferença nem sempre é tão evidente quando está rodeada de normalidade. Eu não posso sair por aí com um cartaz que explique como eu sou, nem tenho um cartão para entregar a quem me conhece; logo, as pessoas me julgam pelo que vêem, e quem me vê geralmente não crê que eu tenha as ideias que tenho. A princípio, pode parecer ser legal esse efeito surpresa que causo aos que se dão o trabalho de me conhecer e descobrem que sou um pouco diferente do que pareço ser; mas, com o tempo, fui me cansando do peso de não ser reconhecida logo de cara. 

Hoje em dia, ninguém tem tempo para conhecer ninguém, e este fato gera em mim um ridículo desespero para provar a todos que eu sou muito mais do que a imagem que passo quando passo no meio da multidão. É ridículo, eu sei; e principalmente porque, há pouco tempo atrás, o meu desespero era pensar que eu nunca conseguiria fazer parte da multidão.

Dias atrás, vi uma entrevista com o ator Johnny Depp na qual ele disse: "Não vou agir diferente só para provar aos outros que sou diferente. Eu sou o que sou". Ele está certo. E eu estou errada. E eu sou tola, e muito, muito arrogante por nutrir essa gigante exigência de que todos me notem e me reconheçam; pois quando faço isso, erro duas vezes: erro ao crer, de verdade, que sou mesmo merecedora da atenção e do reconhecimento; e erro ao crer que todos aqueles que julgo inferiores e normais demais não tenham também um lado (ou muitos) digno do mesmo reconhecimento (ou de muito mais). 

O meu problema é que me superestimo e subestimo todos os outros. Parece que me esqueço, mas o fato é que a vida já me mostrou, diversas vezes, que eu não sou a única que evolui. Vanglorio-me tanto de estar um passo a frente de tanta gente, mas certamente não sou tão sábia quanto penso, pois uma pessoa sábia jamais acredita que suas qualidades precisam ser reconhecidas. Humildade: eis a lição que eu ainda preciso aprender.  

Talvez o meu problema seja estar tão preocupada comigo mesma quando finalmente chegar este dia em que todos tivermos amadurecido. Depois que todos nós tivermos passado por todas as etapas e tivermos adquirido a sabedoria que se espera de nós, é certo que não seremos mais o centro do mundo. Novas gerações virão, e será a vez de outros jovens serem jovens como nós fomos, e adultos como nós fomos, até chegarem onde estaremos. E depois o mesmo, e assim se repetindo sempre, em um eterno ciclo, pois este é o mundo, e esta é a vida.

Afinal, quando eu estiver velha, não deverei me preocupar em querer estar além de onde os outros estão, mas sim, em fazer o melhor uso possível de todo o conhecimento que acumulei ao longo da vida, para passá-los aos outros... Para passá-los àqueles que vierem de mim.

E que eu não superestime meu potencial, nem subestime meus desafios... E que eu me lembre sempre que humildade e autoconfiança devem caminhar juntas.

E se eu vencer, que não queira levar todos os créditos sozinha. E se eu perder, que não queira colocar a culpa em todos exceto eu própria.

E que eu tenha força para correr atrás dos meus objetivos e lidar com os resultados, sejam eles quais forem; porque a gente está nessa vida é para isso mesmo: para dar a cara a tapa.

sábado, 15 de setembro de 2012

Espelhos da adolescência em Glee


Assim como este blog praticamente nasceu a partir do meu amor por Glee, assim como Glee é recorde de inspirações para os textos que aqui publico, volto às origens para falar mais uma vez deste seriado que dificilmente conseguirá ser superado por outro na história da minha vida. Contrariando várias previsões, Glee chega à sua quarta temporada; e agora, mais do que nunca (embora na terceira já tivesse esta oportunidade - a qual, devo dizer, foi muitíssimo bem aproveitada), tem o desafio de mostrar-se mais madura e provar que é capaz de continuar nos emocionando. É ainda cedo para fazer afirmações precisas, mas a julgar pelo primeiro episódio da quarta temporada, prevejo que o desafio será vencido com louvor.

O primeiro episódio nos trouxe uma Glee um pouco diferente, um pouco mais adulta, embora tenham se feito presentes os costumeiros momentos de humor (em menor escala, e isto não é uma crítica), e também o drama (e Glee, a despeito de ser oficialmente uma comédia, é ainda mais lindo quando é dramático), além de, é claro, os números musicais, que são o diferencial da série. A mim, pareceu que o episódio foi uma mistura de Felicity (em razão do enfoque dado ao início da vida adulta, com Rachel na faculdade e Kurt trabalhando e decidindo seu futuro) com Freaks and Geeks (como não lembrar desta lendária série ao ver as cenas de bullying e o clássico embate de populares versus esquisitões do colégio?).

A adolescência é um período complicado. O ambiente escolar (que é basicamente tudo que um adolescente comum tem na vida) torna tudo isto ainda mais tenso, e as consequências  da forma como o adolescente lida com tudo isto moldam seu caráter para sempre (já falei sobre isso em outra ocasião aqui no blog). Uma frase de uma nova personagem resume muito bem esta fase da vida: "It's high school, it's all about being special". 

Imagem retirada do site Apaixonados por Séries


A primeira temporada de Glee retratou com sensibilidade ímpar a dureza de não conseguir ser socialmente aceito na época em que tudo que se quer é ser socialmente aceito. A segunda temporada tratou, com uma maturidade e fineza que poucas vezes já se viu na TV, sobre os dilemas da sexualidade. A terceira temporada, por sua vez, focou-se na dificuldade de fazer escolhas quando é chegado o momento de fechar ciclos e iniciar novas histórias. Pois bem... A quarta temporada chegou para mostrar quais são estas novas histórias.

Eu geralmente consigo não rotular as pessoas com base em uma única informação, e não rotulá-las negativamente quando esta única informação não consona com a minha opinião ou meu gosto, e posso até dizer que tenho me esforçado grandemente para não fazer generalizações e não ser tão fanática a ponto de nutrir preconceitos contra quem não gosta das mesmas coisas que eu... Mas quando o assunto é Glee, tudo isto se torna muito difícil (é o seriado da minha vida!), e é por isso que eu devo dizer: quem não gosta de Glee é porque não tem sentimentos, ou nunca foi adolescente, ou é homofóbico (sim, porque o seriado é muito, muito gay mesmo). 

Durante este início de temporada, devo dizer que eu me vi na pele do Artie quando ele se sentiu forçado a zombar da cozinheira gorda ao sentar-se pela primeira vez na mesa dos populares da escola. Eu me vi na Rachel quando ela ligou para Kurt chorando e admitindo que sua nova vida era bem mais difícil do que ela imaginava. Também me vi nela quando ela tremeu nas bases ao ver casos de pessoas que tentaram o mesmo que ela está tentando agora e não deram certo. E me vi nela mais uma vez quando ela sentiu, pela primeira vez, que talvez não fosse tão boa quanto a consideravam quando ela vivia em um mundinho fechado e limitado. Eu me vi na pele da Marley e do Jake quando eles cantaram e se esforçaram para serem aprovados pelo Glee Club, o grupo ao qual eles queriam pertencer mais que tudo na vida. Senti-me na pele da Marley, de novo, quando ela cantava: "Será que devo desistir ou devo seguir em frente, mesmo se isto não der em lugar nenhum?". Eu me senti na pele do Will quando ele resolveu apostar no duvidoso e dar a alguém uma chance de superar-se e aprender a ser uma nova pessoa. E me vi no Kurt, que mal tinha coragem de descer do carro para ir pegar o avião para New York, quando ele mentalmente perguntava a si mesmo se realmente estava fazendo a coisa certa ao arriscar tudo e ir atrás do que deseja; vi-me também no Blaine, que mesmo amando Kurt e sofrendo por antecipação a angústia de ficar longe dele, resolveu apoiá-lo, porque sabia que esta decisão era a melhor para ele.

Eu vi a mim mesma em Glee em diversos momentos do primeiro episódio da quarta temporada, e não foi a primeira vez que isto aconteceu. Eu me encontro em Glee sempre.

Lembro-me agora de um podcast do site Série Maníacos que um dia escutei, no qual um dos participantes comentava sobre o quanto adorava a extinta série Freaks and Geeks, e outro participante respondeu que nunca conseguiu entender porque a série era tão prestigiada e bem falada. O defensor de Freaks and Geeks disse que não havia como não se lembrar dos anos de colégio ao assisti-la, e não se identificar com as tribulações dos adolescentes que queriam desesperadamente sentirem-se populares e admirados, mas que só conseguiam mesmo ser alvo de chacotas. Em seguida, o outro participante do podcast disse que não conseguia sentir isto porque não teve problemas de aceitação no colégio, pois era popular e tinha muitos amigos.

Consigo relacionar isto com a minha paixão por Glee, e quase posso seguir a mesma linha e dizer que só não se identifica com Glee quem nunca passou por conflitos de popularidade quando era adolescente. Minha adolescência não foi necessariamente tortuosa, e nunca cheguei a sofrer bullying, mas definitivamente eu não fui uma pessoa popular na escola. Não tinha muitas amizades, não fazia parte das rodas de conversas, e não era o protótipo de pessoa da qual todos queriam ser amigos. Eu sabia que não tinha o que era necessário para ser popular, mas nunca me rebelei, tampouco tentei incorporar um personagem para ser aceita. Eu sabia que tinhas minhas qualidades. A escola talvez não fosse o ambiente ideal para mostrá-las, mas eu sabia que um dia elas valeriam alguma coisa, e esta esperança me consolava.

A todos que têm histórias de adolescência parecidas com a minha, é impossível não sentir que Glee toca nas nossas feridas. Só quem passou por isso pode entender qual é a sensação de assistir um coral de perdedores fazendo uma linda apresentação em uma competição, ainda que em uma competição de baixo nível, ainda que cientes de que não havia a menor chance de vencer. Foi o que senti quando assisti pela primeira vez o último episódio da primeira temporada - e juro que ainda me emociono imensamente toda vez que o revejo. 

Só quem já pensou, alguma vez na vida, que sua existência é completamente ignorada, pode identificar o significado que "Don't stop believing" assume quando cantada por um coral de excêntricos e socialmente excluídos. 

Só quem já encontrou amigos verdadeiros e viu neles um porto seguro durante a travessia de um período de turbulências emocionais consegue assimilar a magia da cena em que o Glee Club se reúne para tirar a foto do anuário, aquela foto que todos tinham certeza de que seria rabiscada e ridicularizada, mas que apesar disto, registraria para sempre um momento de companheirismo e prazer em estarem unidos. 

Só quem já sentiu, pelo menos alguma vez na vida, a dor de precisar entender a si próprio e assumir isto para si e para os outros, pode sentir a emoção e a delicadeza da cena em que Santana e Brittany cantam "Landslide". 

Só quem já passou pela situação de precisar tomar decisões sobre o futuro, só quem já sentiu o medo e a ansiedade de não ter nenhuma certeza sobre o que vai acontecer, exceto a certeza de que não será como é agora, só quem já se viu diante dessa encruzilhada consegue reconhecer a si próprio na pele de Finn ao gritar com Will quando este tenta ajudá-lo a escolher uma profissão. Para mim, é a cena mais forte do décimo sexto episódio da terceira temporada.

Will: Você só não sabe o que quer.
Finn: Eu quero que o tempo pare.
Will: Então vamos achar algo que te dê essa sensação.
Finn: Qual? De ser jovem? Onde está? Mostre-me.


Só quem já sonhou com o dia em que você poderia sentir o mesmo que sentem aqueles que têm tudo que você não tem, pode compartilhar da mistura de incredulidade com euforia que Rachel sentiu quando ela foi anunciada a rainha do baile.

Ah, e só quem já passou por tudo isto, e anos depois, descobriu que podia brilhar e podia muito bem ser reconhecido e admirado sem precisar abrir mão de seu jeito de ser, só quem viveu e sobreviveu a tudo isto consegue compreender o orgulho e a alegria que sinto a cada vez que assisto a performance de "Paradise by the dashboard light", no penúltimo episódio da terceira temporada!


É... Desculpem-me, mas só quem não gosta de Glee - ou no mínimo, quem não é capaz de reconhecer a sensibilidade e genialidade deste seriado - é quem nunca foi adolescente. 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Escolhas e questionamentos

"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas

Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? 

(...)

O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão

Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação."

(Shakespeare, em 'Hamlet', Terceiro Ato)


Não tem jeito, essa é a vida. Em algum momento ou outro, temos que fazer escolhas e tomar decisões. É inevitável e não se pode fugir disso. Ou você faz escolhas enquanto é cedo e então passa a pautar toda a sua vida com base nelas, ou leva a vida sem maiores preocupações até chegar o instante em que a vida te força a decidir.

Eu escolhi ser precavida. Fiz escolhas muito significativas enquanto ainda era muito jovem, e desde então tenho lidado com os ônus e vantagens delas. Por pouquíssimas vezes desviei-me do meu caminho escolhido, e mesmo quando o fiz, não foi suficientemente grave a ponto de trazer prejuízos à caminhada. 



'I choose a road when I was young... If I had a chance to go back now would I redeem my moral vows or would I repeat for my own laughter?'

'Eu escolhi uma estrada quando eu era jovem... Se eu tivesse a chance de voltar atrás, eu me redimiria de meus valores morais ou repetiria tudo apenas para minha diversão?'
("Sometimes", No Doubt)


Toda escolha implica em renúncias, eu sei. Eu renunciei a uma parte supostamente natural da vida para poder realizar meus ideais. Houve vezes em que sofri, não nego; porém, de uma maneira geral, fui feliz. Sinceramente, fui muito feliz. Encontrei prazer no que acredito ser correto sem precisar passar por todos os estágios. Queimei algumas etapas, mas foi benéfico, pois agora vejo que estou alcançando a linha de chegada ao mesmo tempo em que o restante das pessoas (estou sendo modesta? Há quem diga que alcancei primeiro).


"To be or not to be", obra de  Raceanu Mihai Adrian

Tenho me saído muito bem. Até agora tem sido fácil aguentar. As recompensas têm sido infinitamente maiores que os fardos. Entretanto, algo me desassossega: quem me garante que o futuro também será assim? Será que será sempre fácil? Nunca foi extremamente fácil, mas também nunca foi muito difícil. Continuará sendo assim? A tendência natural das coisas é que elas se tornem mais difíceis. Definitivamente, vai ficar mais difícil com o tempo. E no futuro, provavelmente não terei as compensações que tenho hoje. Então como é que vou conseguir manter a pose?

O ensaio está terminando, e logo vai começar o show. Chamariam-me disciplinada e diligente por eu ter levado o ensaio tão a sério, mas agora que chegou a hora de fazer as coisas de um jeito realmente sério, pergunto-me se não deveria ter sido um pouco mais relaxada.

Estou sendo testada. Não pode ser coincidência que estas oportunidades apareçam justamente no período mais propício para me arrepender de aproveitá-las (ou de recusá-las).

Mas quem é que falou em oportunidades? Elas existem mesmo, ou são só criação da minha imaginação? Quando se quer que algo aconteça, é possível criar as condições adequadas para que ela aconteça. Será que é isto que estou fazendo? Pensamento é matéria. 

A realidade é mesmo um pouco diferente da imaginação. Fico frustrada quando uma não corresponde à outra. 

Não tem jeito, há pouco a ser feito quando a possibilidade é mesmo negada. Se me fosse concedida, será que eu resistiria? Às vezes penso que a graça é ver até onde consigo me controlar... Talvez por isto há momentos em que costumo provocar a situação, só para ver até onde ela é capaz de ir. Nunca cheguei ao ponto em que meu autocontrole é verdadeiramente colocado em xeque. Mas será que consigo mesmo me controlar? Acho que nunca me vi diante do ápice, mas se ele chegasse, será que eu resistiria? Dizem que Deus não dá asas a cobras. Isto deve significar algo. 



'You push and shove... I take the bait... It's a risky business, gonna play it anyway'
("Push and shove", No Doubt)


O problema não é externo, ele vem de dentro. Embora os estímulos venham de fora, os impulsos e sensações residem em nós. Sou capaz de me defender de mim mesma? 

Estaria eu tentando testar a mim mesma? É evidente que estou passando por um momento crucial na vida de qualquer ser humano, e ele coincide com o advento destes questionamentos e destas sensações tortuosas. Seria tudo isto uma prova? Estou eu querendo saber se estou preparada para o futuro que me espera?

Seja lá o que for, é angustiante. Nunca fico satisfeita com a forma como as coisas se deslindam. Quando quero, não acontece. Quando acontece, não quero. Quando coincide de acontecer e eu querer, recuso-me a aceitar, e depois fico remoendo, pensando se deveria ter aceitado. Mas, por outro lado, se eu tivesse aceitado, também ficaria remoendo, arrependida. O que é mesmo que eu quero?

Eu me esforço para manter esta imagem, pois é o que ditam os meus princípios, e ainda há o bônus de eu parecer interessante. Mas, em razão disso, dessa obsessão por ser tão como sou, acabo me tornando uma versão exagerada de mim mesma. Em contrapartida, causo a reação planejada, mas não usufruo disso, pois o mesmo trunfo que atrai o desejado acaba também repelindo-o. Meu jeito de ser é minha ventura e meu infortúnio ao mesmo tempo.



'Às vezes escondo alguma coisa, como uma lâmpada atrás da sombra
E às vezes me pergunto por quê
É por que as luzes estão muito fortes?
Ou é porque meus olhos estão fechados demais?'

'Sometimes I hide somewhat
Like a bulb behind a shade
And sometimes I ask myself why
Is it 'cause the lights are too bright
Or because my eyes are closed too tight'
("Sometimes", No Doubt)


Tenho descoberto que, ao menos para mim, é mais difícil querer ser coerente do que efetivamente ser coerente. É em nome da coerência que não me permito mostrar algumas das minhas fraquezas. E a cada vez que me abstenho de evidenciá-las, perco a chance de saber como seria o processo de superar a fraqueza e conquistar a força, e de saber como eu seria vista quando me vissem tão exposta.

Eu poderia esquecer tudo isto e simplesmente fazer o que quer que sentisse vontade de fazer, mas e como ficariam todas as coisas em que acredito?, tudo que conquistei? Sou capaz de jogar tudo para o alto apenas para experimentar a sensação?, apenas para ver como seria? E se fosse, será que faria isso mesmo? Será que valeria a pena?

Vanglorio-me tanto da minha distinção, de ser diferente, de ter gostos e hábitos diferentes, mas no fim das contas, não sou melhor que ninguém. Critico as pessoas que afogam as mágoas e as alegrias no álcool, pois nesse mal não incorro, mas nem por isso sou superior, pois tenho também os meus maus costumes. Não sou muito diferente de ninguém. Julgo-me mais madura que os demais por me identificar com os ideais dos jovens de outrora, aqueles que se preocupavam com princípios e valores, mas hoje, na vida real, na minha vida, quando é hora de me impor e impostar a voz para gritar a verdade, sou covarde. Eu não teria peito para enfrentar a repressão à liberdade de expressão, ou para protestar contra um governo ditatorial. Considero-me tão nobre, mas são eles, os imbecis que eu critico, eles é que têm coragem de falar o que pensam e viver a vida do jeito que querem. São eles que dão a cara a tapa todos os dias, enquanto eu fico aqui me escondendo sob uma máscara que me exibe melhor do que realmente sou.

E estas reflexões só me vêm à mente porque está chegando ao fim o tempo em que ainda se pode errar. A era para a qual me preparei durante a vida toda está finalmente chegando. Saberei como me portar? Terei fôlego para continuar sendo o melhor de tudo que sempre fui, ou melhor ainda? Continuarei satisfeita e resignada por ser o que escolhi ser? 

Agora já não adianta reavaliar meus atos, porque não posso refazê-los, e também porque não há o menor sentido em tentar me arrepender, pois não há nada de que eu deva me arrepender. Estou orgulhosa de tudo que fiz, de como procedi, das sementes que lancei, dos frutos que colhi, e estou feliz em saber que há muitos outros frutos preciosos a serem colhidos. E danem-se estes ímpetos de agora. Amanhã eles não valerão mais nada.



"A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos."  

(Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes')

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

As tentações da proximidade do fim

Não é que seja difícil admitir certas coisas... O problema é o que fazer com elas depois que já se sabe que elas existem. 

Uma vez tendo confessado a mim mesma o sentimento, já aceitei, mas ainda não planejei muito bem como vou lidar com isso. Estou lúcida o bastante para entender que isto existe e que não é certo, mas não estou imune às perturbações que isto me causa. Agora não era o momento para isso... Estou ocupada demais para me ocupar de coisas que não vão levar a lugar nenhum.

A pior parte de tudo isso é que eu sei que não tem propósito nenhum. Não leva a nada, não tem serventia nenhuma agora e nem nunca vai ter. É sempre a mesma história: quando enfim me apercebo quão próximo está o fim, mais começo a divagar sobre as mil coisas que poderiam ser, e que ainda há tempo para serem. É como se um agente vilanesco agisse sobre minha mente apenas para atormentar, apenas para me fazer perder tempo com cálculos de possibilidades mirabolantes, como se tentasse me induzir a fazer coisas que não quero e não posso... Como se estivesse me testando.

Sempre passo no teste. Sei me controlar, sei me defender das investidas maliciosas. Mas não acho que eu passe no teste com louvor. A luta contra os impulsos não é intensa, mas existe. Não preciso fazer muito esforço para me desvencilhar das emboscadas, mas ainda assim, ao menos algum esforço sempre me é necessário. 

É isto que me deixa desarranjada. Estes sentimentos não deveriam existir. Eu não deveria estar sentindo nem ao menos este lasco de vontade de não resistir. Estou treinada o suficiente para não cair nas armadilhas, mas não o suficiente para não me sentir ao menos um pouco tentada. É uma fraqueza minha, e me incomoda muito.

O que me aborrece é a minha própria estupidez: por que desperdiço minha vida dedicando pensamentos a algo que só existe para me afligir? E, pior ainda: se sei que é efêmero, que vai passar depois, por que o durante é tão inquietante? Quando a oportunidade chega, eu digo não, e depois, passado algum tempo, logo me desligo disto, os sentimentos se vão e nunca mais voltam; até esqueço que um dia existiram. É sempre assim, e sempre será, então qual o sentido de me preocupar?

O problema é que o agora é o momento mais difícil de nossas vidas. O passado já passou, e o futuro sempre pode ser algo diferente daquilo que se espera ou almeja... Mas o presente, ah, este é complicado, por que não dá pra fugir dele: ou você o vive ou você o vive, não há outra opção. 

É sempre a mesma coisa comigo: depois que tudo passa, pode até parecer que foi fácil, mas enquanto está acontecendo, parece que não vai ter fim. 

É uma idiotice cogitar a possibilidade de fazer o que as circunstâncias estão instigando que eu faça, é ridículo até mesmo pensar nisto, falar sobre isto, escrever sobre isto agora. Contudo, quando eu escrevo, a sensação se ameniza, pois o problema fica menor, pequeno o suficiente para caber nestas letras que digito. É por isto que preciso tirar isto de dentro de mim: okay, eu confesso o que estou sentindo. Não tenho muito orgulho de me sentir assim, mas enfim, é o que é, o que posso fazer?, isto é o que sou, sou humana e, infelizmente, como disse Terêncio, nada humano me pode ser totalmente alheio.

É natural que eu esteja sujeita a este tipo de coisa, mas isto não quer dizer que devo negligenciar. Tenho plena consciência de que estes convites só me açoitam porque sei que devo recusá-los - certamente jamais me perturbariam se eu fosse o tipo de pessoa que os aceita. Sou forte e sou fiel às coisas em que acredito, embora provavelmente não sou tanto quanto penso - pois se fosse, não precisaria ser tentada. 

Mas eu não vou sucumbir. Não vou esmorecer, vou continuar lutando contra qualquer indício de insubordinação minha. Vou golpear estes ímpetos, por menores que eles sejam, não vou ter pena.

Tudo vai passar. Agora eu deixo de me dedicar ao que realmente importa para ficar imaginando tudo que ainda posso fazer enquanto o fim não chega... Mas um dia, o fim vai chegar, e quando o tempo passar, nenhuma dessas angústias vai significar nada. Sequer me lembrarei destas tolices que me importunam hoje, ou, quando eu me lembrar, rirei delas. E  o mais importante de tudo: quando o fim chegar e tudo isto passar, vou sentir orgulho e alívio por não ter deixado o impulso me vencer. Nada é mais importante que os nossos princípios. Eu nunca me arrependi de tê-los colocado em primeiro lugar, e não vai ser agora que isto vai acontecer.

domingo, 26 de agosto de 2012

Anseios de um pateta

Sempre quero mais do que tenho, e o pior, mais do que posso ter. Esta sou eu: nunca estou satisfeita. Tenho quase tudo e ainda quero mais. Se me derem o mundo, quererei mais um planeta. 

É ridículo admitir que eu quero isto agora, mas a verdade é que eu quero. Eu nem preciso... Mas quero. Nem precisaria acontecer, bastaria que fosse possível.

As possibilidades me afligem e me encantam. Quase nunca estou a par delas, e isto me reconforta, pois não conhecê-las sempre pode significar que elas podem ser como quero que sejam. É torturante ignorar o que se passa fora de mim; todavia, por outro lado, é uma delícia, pois a incerteza nunca é a certeza do 'não': é sempre a probabilidade do 'sim'. 

Sinto-me frívola por despender tempo e energia querendo o que quero. É uma bobagem, não faz sentido, jamais poderia se concretizar, mas é o que sinto: quero, quero mesmo que abstratamente. E sou ridícula, porque certamente, se eu conseguisse o abstrato, passaria a querer o concreto.

Esta sou eu. Meu problema é ser feliz demais. Estou sempre sendo agraciada com bênçãos e presentes da vida, mas nem assim minha mente escapa das perambulações sobre o resto das coisas que ainda não tenho. 

E o pior de tudo isto é que geralmente não me sinto atraída por coisas tão substanciais quanto as que já possuo. Sou tão abençoada, quase nada em minha vida é superficial, tenho tudo de melhor, sólido e verdadeiro... Meus olhos não deveriam brilhar ao avistarem coisas menores do que as minhas próprias. Sou mal acostumada, isto é um fato; e sou tola, e vou pagar caro por isto, pois estou desvirtuando a ordem das coisas. Se Deus me dá sempre tantas joias, certamente não é para que eu perca tempo desejando bijuterias. Eu deveria me colocar no meu lugar e fazer bom uso do que tenho.

Está mais do que claro que o mais inteligente para mim é me regozijar com o que tenho, em vez de querer sempre mais, pois a verdade é que eu já tenho demais. Está tão claro que não vejo. E se eu tivesse ao menos um mínimo de bom senso, já teria parado de olhar para os lados e desejar o que não mereço (pois se eu merecesse, já teria recebido). É que o devo fazer: ser feliz com o que tenho, e extrair bom proveito do que tenho, antes que até mesmo isto seja tirado de mim. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Tempo, tempo, tempo, tempo...

"Por seres tão inventivo e pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo

És um dos deuses mais lindos..."
('Oração ao tempo', Caetano Veloso)



Imagem extraída da página do site
Musicoteca no Facebook
Há alguns atrás (não muitos, talvez uns três ou quatro), lembro-me de ouvir uma matéria em um programa de rádio na qual se dizia que, pelo número de títulos e medalhas, o Brasil já deveria ser considerado o país do voleibol, em vez de continuar sendo chamado de "país do futebol". Poucos anos (como eu disse) se passaram até o dia 07 de agosto de 2012, dia fatídico em que a seleção feminina de voleibol reinou absoluta em um eletrizante jogo contra a equipe russa nas Olimpíadas de Londres. A imagem que ilustra este parágrafo foi postada simultaneamente à transmissão do jogo na TV, com a legenda: "Brasil, o país do vôlei". Em todas as redes sociais, manifestos emocionados de quem torcia pelas meninas do Brasil. Apenas quatro dias depois, elas venceram os Estados Unidos na grande final e sagraram-se medalhistas de ouro, ocasião que ensejou uma enxurrada de mensagens e ilustrações nos blogs e Facebooks (enxurrada esta que eu endossei, confesso) nas quais todos se orgulhavam em afirmar que "vivem no país do vôlei". 

"Os anos dourados do futebol já vão longe", "a época do futebol já se passou", "já deram tudo que tinham pra dar", "agora é a vez do MMA, das lutas, do vôlei"... Tenho ouvido muito isso ultimamente. Francamente, dou o maior apoio. O futebol como esporte, em tese, tem muito a ensinar sobre cooperação, união, cumplicidade e atuação em equipe... Mas, infelizmente, na prática, está perdendo muito deste encanto. Nada tenho de ruim a dizer sobre o desempenho da seleção masculina nas Olimpíadas; porém, seria maravilhoso se começássemos a reconhecer o brilho de outros esportes e fazer-nos notar perante o mundo em razão de outros atletas.

Eu poderia citar razões pelas quais o voleibol, as artes marciais ou até mesmo outros esportes mereceriam destronar o futebol desta hegemonia, mas não vêm ao caso, a discussão não é esta. O assunto no qual realmente fico pensando em virtude disso tudo é sobre a concepção de mundo que as futuras gerações terão, e de que como esta transição supostamente lenta tem culminado bem diante de nossos olhos.

Minha geração pode ter sido a última a receber ordens dos pais sobre hora para chegar em casa, uma das últimas a enxergar o Brasil como o país do futebol e do samba, uma das últimas a ver a homossexualidade ou mesmo a sexualidade livre como tabu, e definitivamente foi a última que aprendeu na escola que Plutão é um planeta e que o Brasil nunca teve uma presidente do sexo feminino e os EUA nunca tiveram um presidente negro.

Eu me sinto velha quando digo a um conhecido que a geração de seu filho, que tem menos de 10 anos de idade, não vai mais conseguir qualquer tipo de emprego sem ter estudado; mas é a verdade.   Parece que fiz parte de uma era que durou muito tempo mas já passou há muito tempo. Da mesma forma, reluto em aceitar quando um conhecido, que tem a mesma idade que eu, diz a mim que quando seus filhos forem adolescentes poderão trazer namorados(as) para dormir em sua casa sem o menor problema; o resquício de conservadorismo que há em mim exclama que não, que não deixarei, que é preciso manter um mínimo de respeito à família que habita aquela casa... Mas será mesmo que isto constituirá falta de respeito daqui alguns anos? 

Imagino que daqui alguns anos - apesar de eu me considerar flexível, aberta às mudanças e receptiva às novidades - manterei a maioria dos princípios morais que abrigo hoje. Todavia, o que me deixa intrigada é o seguinte: até onde vai a linha que separa a conservação dos próprios ideais e a resistência em aceitar que o mundo simplesmente muda? Ao manter-me fiel a tudo que aprendi e sempre acreditei, até que ponto estou sendo prudente e sensata?, e até que ponto estou apenas teimando em abrir minha cabeça para aceitar as transformações pelas quais a sociedade passa?


Obra "Past, present, future", de Tito Salomoni

Noto que em alguns livros didáticos atuais há uma menção, no capítulo que narra a ida do homem à Lua, sobre a possibilidade de tudo ter sido uma grande armação dos Estados Unidos para poder intimidar a União Soviética. Rio quando penso sobre isso. Trata-se de uma hipótese totalmente inconcebível de ser discutida em sala de aula quando eu tive idade de estudar sobre isso. Isso faz com que eu me pergunte se é melhor aprender as verdades impostas e preestabelecidas para depois, já com maturidade e senso crítico, questioná-las e "desaprender" tudo, ou se é melhor mesmo aprender sobre a realidade e as possibilidades desde o início. 

Há uma porção de coisas que sabemos que não precisam ser levadas à risca mas que devemos achar que sim para que o mundo continue a girar. "Você não deve mentir nunca", "se não comer bem, nunca vai crescer", "se não estudar, nunca vai ser alguém na vida"... Não são verdades absolutas, não é exatamente assim que a vida funciona; mas, se desde a infância não aprendermos que estes mandamentos são inquestionáveis, será que  assimilaríamos ao menos um pouco estas lições? 

Eu dediquei uma vida inteira aos livros, e ao fim do Ensino Médio, vi vários colegas que passaram toda a adolescência trocando os estudos pelas aventuras passando no vestibular assim como eu. Será que eu teria me dedicado tanto se soubesse que seria capaz de conseguir isso sem o menor esforço? E, pior ainda: será que teria mesmo conseguido? Provavelmente não, pois não é assim que as coisas se dão comigo. Porém, não posso deixar de me questionar: como vou ensinar a meus filhos que algumas coisas realmente são como dizem que são e outras não?

Os tempos mudam, as ideias mudam. Não gosto de dizer que "evoluem", pois não posso afirmar que as coisas mudam sempre para melhor; e a menos que estejamos falando de moral, "evolução" para mim vai ser quase sempre um termo preconceituoso. O evolucionismo social (ou "darwinismo social") supostamente restou superado no século antepassado, mas me parece que ainda há muito dele arraigado na mentalidade das pessoas. Não suporto esta ideia de "o Brasil está atrasado, quando vai ser desenvolvido como os Estados Unidos?". Ora, desenvolvido em que aspecto? Certamente aqui a distribuição de renda é pior e o acesso à educação e à tecnologia também, mas se isto significa atraso, então por que as pesquisas sempre nos apontam como o povo mais feliz do mundo? Será que somos tão idiotas a ponto de sermos felizes sem motivo? O erro não está em nós: o erro é o parâmetro. Qualquer um hoje em dia vive com mais posses e lazeres que Jesus viveu ao seu tempo, porém, até hoje ninguém nunca teve moral mais elevada que Ele. E aí, o que é ser evoluído então!?

Não posso aceitar que tachem algo ou alguém de atrasado ou mal desenvolvido tomando como parâmetro algo cujos valores são questionáveis... Contudo, também não posso viver eternamente presa aos conceitos do passado. Já fui vítima disso, já fui prejudicada pela tirania de quem se recusa a repensar ideias velhas, e já testemunhei como é triste estar fechado para as coisas novas. E é triste não somente pela perda de oportunidades e pelo desperdício de prazer que a hodiernidade pode proporcionar, mas também pelo sentimento de impotência perante a dependência de algo que não tem mais lugar no mundo. 

Não é uma questão de aderir aos modismos, é uma questão de entender que certas coisas simplesmente ultrapassam outras. Muitas convenções não conseguem resistir ao passar do tempo, pois não são capazes de manter uma existência isolada das concepções novas que tomam seu lugar na sociedade. 

De uma forma ou de outra, acabo concluindo que não dá pra fugir muito da moda. Ao fazermos nossas escolhas e escolhermos nossas opções, mesmo que insistamos em não sucumbir às tendências momentâneas, é certo que a grande maioria de nós escolheremos por algo que seja pelo menos aceitável pelas pessoas de nossa época - talvez não algo popular, amado e idolatrado, mas no mínimo aceitável. Muitos conseguem, com muito ou nenhum esforço, ficar imunes às febres do momento; mas mesmo estes dubitavelmente optarão pelo arcaico. É fácil encontrar quem não se deixe afetar pela pressão capitalista de obter o modelo mais recente e moderno de celular, mas duvido que seja possível encontrar quem ainda opte pelo telegrama.

Enquanto escrevo, ouço a canção de um jovem cantor e aclamada "promessa da MPB", Leo Cavalcanti. A alguém que se nega a aceitar opiniões diferentes, ele canta: "Se você pensa que sabe tudo, que tudo que percebe é real, talvez lhe falte entender que o mundo é bem maior que o seu ideal"... A esta pessoa que "teima em se paralisar, para se defender e dormir na ilusão", ele adverte: "só julgar não leva a lugar nenhum". E atreve-se a dar lição de moral: "Os seus conceitos já não servem mais, pois toda teoria se desfaz". Considero esta canção como uma nova "Como nossos pais", uma versão atual e mais direta desta famosa canção de Belchior que vem nos lembrar que "o novo sempre vem"; uma verdadeira bronca às gerações antigas que recusam-se a ter fé na geração atual, ou pior ainda: que recusam-se a sequer darem ouvidos ao que ela tem a dizer.


Recentemente tenho escutado vários artistas jovens, novos nomes da música popular brasileira que não fazem questão de buscar fama, vender milhões de discos ou ter suas canções tocando nas FMs; nomes pouco conhecidos como Marina Wisnik, Danielle Cavallon, Thaís Gulin, Marya Bravo, Blubell, Estrela Ruiz e Téo Leminski, Rhaissa Bittar, Matheus von Kruger, Rômulo Fróes, Pipo Pegoraro, Arthur Nogueira, Ana Clara Horta, Lívia Rodrigues, Felipe Cordeiro, Qinho, 5aSeco,  Pélico, Gisele de Santi, Letuce, Marco Vilane, e o próprio Leo Cavalcanti (não posso deixar de mencionar que conheci boa parte destes talentos através do site Musicoteca, o qual adoro e recomendo). Esta é a chamada "nova MPB". Já li algumas reportagens que descrevem esta nova geração como "fortemente inspirada na Tropicália". 


"Uma revolução vem acontecendo na música brasileira, e sampleando as palavras de Raul Seixas, “não dá no rádio nem está nas bancas de jornais…”.
Desde que a chamada mpb viveu seus dias de glória, lá nos anos 60/70, nunca se viu e ouviu tantos bons e diferentes artistas surgidos numa mesma safra. Mas mpb talvez não seja exatamente o caso aqui…


Afinal, o termo significa música popular brasileira e costuma ser usado por dois grupo distintos em duas situações diferentes para rotular a mesma música: ou é engajada, panfletária e politizada, a ‘música cabeça’ tocada e retocada em bares da Vila Madalena; ou é romântica, brega e dançante, a ‘música alienada’ que toca nas rádios e vende milhões de discos.

E essa nova música brasileira não se encaixa em nenhuma dessas situações."

Fragmento da matéria "MPB 2.0", por Fábio Bridges (fonte: http://pequenosclassicosperdidos.wordpress.com/category/mpb-2-0/)


Vários outros nomes desta "nova MPB" têm alcançado relativo sucesso: Karina Buhr, Tiê, Lia Sophia, Bárbara Eugênia, Céu, entre outros, sendo que Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci são os expoentes desta geração, e também os casos mais famosos. Não deve ter sido coincidência que eu tenha encontrado justamente entre os comentários de um vídeo destes dois artistas (o vídeo da belíssima canção "Dia a dia, lado a lado") no Youtube um manifesto que expressa um pouco do que penso, o qual reproduzirei na íntegra:

"Muita gente besta fala que as musicas antigas eram boas e as atuais são ruins. Errado. O acesso às musicas boas antigamente era melhor. Se ouvia musica boa nas rádios, na TV (festivais)... hj em dia as rádios e as TVs estão em maior parte infestada por porcaria. As músicas boas de hoje é só pra quem procura, especialmente pela internet. Na TV não vejo Jeneci, Tulipa, Vanessa da Mata, Luisa Maita, Céu, Tiê, Roberta Sá... geração maravilhosa dos tempos atuais."
(Lucas P. Souza)

Discordo que as grandes mídias atualmente estejam completamente dominadas por entretenimento de má qualidade; entretanto, opiniões à parte, o ponto é este: enquanto muitos de nós repudiamos o novo ou mesmo acreditamos que ele não existe e que a única salvação é "viver de passado", há muita gente por aí trabalhando e construindo um milhão de coisas que podem nos provar o contrário. Talvez só não estejamos sabendo olhar para o lado certo... 

É difícil conciliar o "bom e velho" com o "doce novo". O bom senso poderia ser a solução, a chave para identificar o que deve ser rejeitado e o que deve ser aceito, mas ter bom senso é igualmente difícil.

Em "Tempos modernos" (eis um exemplo de clássico que não precisa ser abandonado), Lulu Santos canta: "Eu vejo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, com habilidade pra dizer mais 'sim' do que 'não'"... É tão adorável esta esperança. A obra de Lulu sempre me agradou, e pensar que ele cantou isso em 1982 me faz admirá-lo ainda mais. Ele foi de uma época que se sentiu usurpada por todos os 'nãos' que recebia: dos pais, do Estado. Esta geração entendeu por bem que deveria dizer somente 'sim' aos seus filhos, e em razão disso, boa parte da minha geração cresceu sem limites e vazia de ideais. Isto não tira o mérito das intenções de Lulu, Cazuza e todos os ídolos e heróis daquele tempo, mas também não prova que o melhor está sempre por vir e que a geração futura sempre saberá aprender com os erros do passado.

A verdade é que ninguém tem a receita. Ninguém sabe dosar muito bem as coisas. Todos achamos que saberemos fazer o que é certo quando chegar a nossa hora de fazer; e de fato, plantamos com a maior boa vontade, mas na hora de colher os frutos, sempre sentimos que poderia ter sido melhor. Porque a verdade é que sempre pode ser melhor, e só não é porque nós não somos melhores. Somos imperfeitos, e isto não é de todo anormal, porque somos humanos. A verdade é que somos todos tão humanos, tão iguais, tão errantes, e ao mesmo passo em que tudo muda tanto e tão rápido, quase nada muda. Ainda citando Lulu Santos: "Assim caminha a humanidade, em passos de formiga e sem vontade"... Em suma, tantos detalhes se alteram, a mentalidade das pessoas se transforma, mas somos todos ainda muito obstinados e ignorantes em tantos aspectos...

Lembro-me de Caetano Veloso, que semana passada completou 7o anos de idade, participando do programa "Altas Horas" em janeiro deste ano, e sendo questionado por um garoto (que não devia ter mais que 15 anos de idade) acerca de sua opinião sobre o grupo Restart e a atual condição da música produzida para a juventude contemporânea. O garoto obviamente esperava que Caetano, com toda a autoridade de quem desafiou os padrões do governo ditatorial militar com sua música revolucionária e postura ousada e corajosa nos anos 60, condenasse os jovens da atualidade. Mas Caetano foi sábio e respondeu que o que os cantores de hoje em dia fazem não é muito diferente do que os tropicalistas fizeram à sua época: cada um está em sua época, em seu lugar, em seu contexto. Entendi ele querendo dizer que não se pode esperar das pessoas as mesmas atitudes de outras que viveram outro contexto. Caetano disse ainda que o garoto estava tentando criar uma nostalgia que não existe, em vez de viver o seu próprio tempo.
Tela de Fátima Marques, "O sentido da vida, o tempo"

É verdade mesmo. Cada tempo tem sua magia e é perda de tempo perder tempo perdendo o tempo... Eu nasci no país do futebol, mas vai ser legal se meus filhos nascerem no país do vôlei. E mais legal ainda é eu estar aqui, vivendo o agora, presenciando esta transição.

Mais uma vez, sou obrigada a invocar Leo Cavalcanti, desta vez pela canção "Dentro", na qual ele, com toda a sabedoria de seus poucos anos de vida, repreende-nos: "A hora é agora e aqui". Até porque "não há tempo que volte" (pela terceira vez, faço minhas as palavras de Lulu Santos), então o jeito é mesmo "viver tudo que há pra viver", e com isso, nós vamos achando nosso jeito. Passado e presente, ideias novas e velhas, tradições e novidades... Aos poucos, vamos assimilando tudo. Um pouco de cada vez. Nem é sensato exigir que sejamos suficientemente sábios para saber tudo que é certo o tempo inteiro. Não somos perfeitos, falta-nos muito. O importante é tentar, e ter boas intenções, é claro; pois ainda que as consequências não sejam tão boas quanto planejamos, não vai haver culpa se a intenção inicial tiver sido boa.

As coisas sempre vão mudar, mudam o tempo inteiro, e estão mudando agora mesmo, diante de nossos olhos, debaixo de nosso nariz. Contudo, não há motivo para se desesperar! Não é o fim do mundo, é só o fim do mundo como o conhecemos (e aqui eu aludo à famosa canção do R.E.M.), para o nascimento de outros novos. Novos mundos, novas visões, novas coisas, novas concepções. 

Questionar a utilidade do passado, duvidar da capacidade do futuro, o que for: perder tempo com isso não tem o menor sentido a menos que se guarde um propósito verdadeiro de fazer alguma coisa boa para deixar aos que virão depois de nós. O que importa, no fim das contas, é querer contribuir. Porque se o plano é apenas viver a vida como se não houvesse amanhã, sem pensar no amanhã, não faz diferença se você está de acordo com o ontem ou com o hoje. 





Todo mundo continua a viver dos seus desejos

Mas os olhos buscam fora o que só se encontra dentro
Ah, e você ainda diz que as circunstâncias não te deixam ser feliz...

Vá tomar as rédeas de si, em vez de querer ir pra outro lugar
A hora é agora e aqui
Chega de brigar com o seu existir

Todo mundo tem conflitos, pra saber dos seus prazeres

Pois a mente se apavora com o amor e os seus deveres


Ah, pare de mentir que não acredita que é possível ser feliz

Vá tomar as rédeas de si, em vez de querer ir pra outro lugar
A hora é agora e aqui
Chega de brigar com o seu existir