quarta-feira, 6 de junho de 2012

Em busca da verdade


"Verdade, mentira, certeza, incerteza…
Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego pára na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho
Verdade, mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer cousa mudou numa parte da realidade — os meus joelhos e as minhas mãos.
Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto."
(Alberto Caeiro, "Verdade, mentira", em Poemas Inconjuntos)


Desconfiemos de tudo e todos que não nos permitam a desconfiança. Fujamos de tudo que recrimine a dúvida. Não aceitemos nada que proponha verdades que não podem ser questionadas; afinal, aquilo que não pode ser questionado não é verdade. 

A verdade é receptiva a qualquer pergunta ou desafio, simplesmente por ser verdadeira; e por ser verdade, prova a si mesma pelo simples fato de ser o que é. A verdade comporta indagações e pode ser testada a qualquer momento, porque ela é uma constante, e nunca fornecerá elementos que vão contra a sua própria essência. A mentira, por outro lado, não suporta provocações, pois não é firme. Se interrogada, ela tremulará, cambaleará, não encontrará justificativas para si própria, deixando, com isto, expostas as suas fragilidades.  

"A mentira teme o confronto com a verdade. Aloja-se nas sombras, espraia-se, às escondidas, e encontra, infelizmente, guarida. (...)
A verdade espera... Seus opositores enfermam, envelhecem e morrem, enquanto ela permanece."
("Verdade libertadora", de Joanna de Ângelis, psicografada por Divaldo Pereira Franco, no livro "Sob a proteção de Deus")


A imposição de padrões só é aceitável àqueles que não têm inteira capacidade de discernimento – não à toa as crianças devem obediência aos pais; não à toa os indivíduos absolutamente incapazes para os atos da vida civil (art. 3 do Código Civil) necessitam ser representados. A partir do momento em que o indivíduo adquire consciência de si mesmo e do mundo à sua volta, a partir do momento em que se tem juízo para orientar-se conforme suas próprias concepções, não precisa que se lhe imponham convicções prontas; ele será capaz de formar as suas próprias.

A busca da verdade passa, necessariamente, pelo questionamento, pela dúvida, e até por um pouco de ceticismo. O homem só encontra a verdade depois de muito ter argumentado e contra-argumentado, consigo mesmo ou com outrem. A verdade é como a nota dada ao aluno submetido a uma avaliação: para descobri-la, ele precisa responder às perguntas, passar pelos desafios, enfrentar os exercícios. Ao fim das batalhas contra as incertezas, por baixo dos véus das possibilidades sem-fim, sucessivamente às perguntas: é lá que reside a verdade. Não há como conhecê-la sem antes propor a si próprio uma busca por ela.

"Mas o que vem a ser 'a verdade'? Definimos 'verdade' como a propriedade de uma sentença decidida afirmativamente, ou seja, considerada instância do sistema geral de nossas convicções teóricas. Ao inverso, 'falsidade' é a propriedade de uma sentença decidida negativamente e, portanto, excluída do mesmo sistema. Ora, nossas convicções teóricas são convicções acerca do que é ou existe.
(...)
Podemos determinar a verdade de uma sentença apelando a outras sentenças, fornecendo argumentos. Temos, então, os três elementos exigidos: a opinião, a verdade e as razões. Mas de fato possuímos conhecimento? Se a verdade de uma sentença (digamos, p) foi obtida, por exemplo, mediante uma dedução lógica supondo-se como verdadeiras dadas premissas (digamos, q e se q, então p), um interlocutor descontente com a nossa estratégia poderia indagar se as premissas são verdadeiras. A possível falsidade das premissas determinaria a possível, embora não necessária, falsidade da conclusão. Ou seja, precisaríamos responder ao adversário mediante a oferta de novas razões. Mas novas perguntas conduziriam a novas razões, em um regressus ad infinitum.
No intuito de estancar o processo aparentemente infindo da busca de razões, podemos cair na tentação da fundamentação última: se a verdade de cada uma das sentenças mencionadas é sempre condicionada, buscamos a sentença ou sentenças fundantes e incondicionadamente verdadeiras capazes de garantir a verdade de todas as demais sentenças de nosso sistema de convicções."
(Ernesto Laclau e Niklas Luhmann, "Pós-fundacionismo, abordagem sistêmica e as organizações sociais". EDIPUCRS, 2006, p. 16)


Ninguém entabula contato com a verdade sem antes desejar chegar até a ela. Ainda que alguma determinada circunstância, em um dado momento da vida, escancare a verdade diante de nossos olhos, não saberemos que é a verdade se não estivermos dispostos a querer conhecê-la. Sem a vontade de descobrir a verdade, é possível que ela passe por nós e de nós se escape sem que saibamos. 

E o aspecto mais insano deste processo é constatar quão longa pode ser a busca pela verdade. Ou seria o aspecto mais benéfico? Mais interessante? Afinal, no curso de uma pesquisa, é possível (e é comum!) encontrar muito mais do que aquilo que inicialmente se procurava. Destarte, na busca pela verdade, acabamos também conhecendo um pouco mais de muitas coisas, inclusive de nós mesmos. E a cada novo conhecimento adquirido, novas portas são abertas em nosso ser, pois o fato é que é impossível continuar sendo a mesma pessoa a partir do momento em que se conhece algo novo. 


O conhecimento é um conascimento. De fato, todo conhecimento é o renascimento do objeto conhecido no sujeito conhecedor e, concomitantemente, o renascimento do sujeito conhecedor numa nova forma de ser.” 
(Goffredo Telles Júnior, em "O Direito Quântico". São Paulo: Max Limonad, 1974. P. 141)



Porém, embora se frise a importância de estar aberto à percepção da verdade, não devemos nos desesperar, tampouco desgastar-nos em levar ao extremo esta busca. Para conhecer a verdade não basta querer: é preciso estar maduro para tal. Com vontade, perspicácia e maturidade, ela aparecerá, e no momento oportuno, nós estaremos aptos para enxergá-la. A cada um, segundo sua necessidade e merecimento, ela fulgurará, em seus pertinentes vieses.



A Verdade

"Eu sou o caminho e a verdade." - Jesus. (JOÃO, 14:6.)
Por enquanto, ninguém se atreverá, em boa lógica, a exibir, na Terra, a verdade pura, ante a visão das forças coletivas.
A profunda diversidade das mentes, com a heterogeneidade de caracteres e temperamentos, aspirações e propósitos, impede a exposição da realidade plena ao espírito das massas comuns.
Cada escola religiosa, em razão disso, mantém no mundo cursos diferentes da revelação gradativa. A claridade imaculada não seria, no presente estágio da evolução humana, assimilável por todos, de imediato.
Há que esperar pela passagem das horas. Nos círculos do tempo, a semente, com o esforço do homem, provê o celeiro; e o carvão, com o auxílio da natureza, se converte em diamante.
Por isto, vemos verdades estagnadas nas igrejas dogmáticas, verdades provisórias nas ciências, verdades progressivas nas filosofias, verdades convenientes nas lides políticas e verdades discutíveis em todos os ângulos da vida civilizada.
Semelhante imperativo, porém, para a mentalidade cristã, apenas vigora quanto às massas.
Diante de cada discípulo, no reino individual, Jesus é a verdade sublime e reveladora.
Todo aquele que lhe descobre a luz bendita, absorve-lhe os raios celestes, transformadores... E começa a observar a experiência sob outros prismas, elege mais altos padrões de luta, descortina metas santificantes e identifica-se com horizontes mais largos. O reino do próprio coração passa a gravitar ao redor do novo centro vital, glorioso e eterno. E à medida que se vai desvencilhando das atrações da mentira, cada discípulo do Senhor penetra mais intensivamente na órbita da Verdade, que é a Pura Luz.
XAVIER, Francisco Cândido. Vinha de Luz. Pelo Espírito Emmanuel. 14.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1996. Capítulo 175.

Um comentário:

Paulo Renato Scheunemann disse...

Acreditar ter encontrado a verdade plena é perder o caminho à ela completamente. Penso que a verdade seja tão mais a busca do que encontro, os encontros vão ocorrendo ao longo do caminho, num aprendizado gradual. Acredito que a verdade esteja disponível, nós que ainda somos muito rasos pra contê-la, é como querer e não poder carregar. Lindo texto Ana!