sexta-feira, 27 de julho de 2012

Otimismo, quimera ou apatia?


    "Põe-me as mãos nos ombros...
    Beija-me na fronte...
    Minha vida é escombros,
    A minha alma insonte.



    Eu não sei por quê,
    Meu desde onde venho,
    Sou o ser que vê,
    E vê tudo estranho.



    Põe a tua mão
    Sobre o meu cabelo...
    Tudo é ilusão.
    Sonhar é sabê-lo."

    (Fernando Pessoa)



Eis o personagem deste texto: incerto sobre ser um otimista incurável, um iludido involuntário, ou simplesmente, emocionalmente indiferente.

Sua dificuldade não exatamente era fincar os pés no chão: era acreditar que aquela realidade era mesmo real. Aliás, a dificuldade não de fato era acreditar na realidade: era agir e sentir como se acreditasse. 

Sabia que aquele era seu mundo, sua vida, mas por algum motivo, não vibrava suficientemente quando aconteciam coisas boas, tampouco sofria suficientemente quando aconteciam coisas ruins.

Tudo aquilo era real, ele tinha consciência disso. Não duvidada sobre a veracidade dos fenômenos à sua volta; mas algo lhe dizia que deveria. Afinal, se eram mesmo tão reais, por que não lhe causavam o impacto e as sensações que deveriam causar em um ser humano normal?




"Francamente, o que você esperava aprender a respeito daqui?
Se eu fosse outra pessoa, será que tudo isto desabaria?
Estranho, onde você estava quando o show começou?
Eu queria que o mundo real parasse de me perturbar..."
("Real world" - Matchbox Twenty)



Naquele exato momento, não estava sofrendo como era de se esperar que sofresse. Invariavelmente, estava ali como sempre. Estranhamente, conservava em si uma forte (apesar de desapaixonada) fé de que tudo acabaria bem. Sim, tinha certeza dessa fé, este sim era um sentimento do qual estava convencido. Mas como poderia descrever-se com base nisto? O que este sentimento dizia sobre os demais sentimentos que tinha (se é que os tinha)? Estava tranquilo ou alheio em relação a tudo? Por que não estava apavorado? Incomodava-se com o fato de não estar com medo: será que estava simplesmente confiante?, ou simplesmente desinteressado?, ou simplesmente não sabia de que havia algo para temer?  O que é que o confortava? O que é que lhe faltava: noção ou coração? 

A única explicação para o seu comportamento era que tudo fosse uma ilusão... Mas não era. Ou talvez a justificativa fosse o fato de que ele vivia sempre no seu próprio mundo imaginário, prendendo-se demasiadamente às suas distrações e suas ilusões de estimação ("a realidade pode ser combatida com um pouco de imaginação", disse Mark Twain), mas nem isso explicava. Ele já tinha passado por várias situações que despertariam em qualquer pessoa normal um sentimento inelutável; caso fosse ele também normal, haveria de sentir algo, pelo menos alguma coisinha. 




"Eu posso te fazer feliz..."
("Verdade, uma ilusão" - Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown)



Às vezes ele tentava agir como se não fosse do jeito que era: forçava reações usuais de pessoas realmente sensíveis, assumia comportamentos característicos de cada determinada ocasião, apenas para tentar fazer emergir de dentro si o sentimento típico de um ser humano que se importa de verdade com as coisas da vida... Mas não gostava daquilo. Não queria forçar normalidade. Se ele era humano, deveria sentir-se como um. 


"Eu quero que você chute a minha canela
Eu quero que eu deite na cama e sinta a dor de dividir...
(...) Pode rir de mim, pode rir comigo
Eu mamei em todas as tetas
Eu não pareço ninguém"
("Anatomia sexual" - Letuce)


Bobo. Se era mesmo tão pouco impressionável, deveria estar contente com isso. Imunidade é uma coisa boa. Todavia, deveras, a única coisa que o impedia de estar satisfeito era a paranoia, a possibilidade de haver algo além. Era muito desconfiado, não conseguia crer que tudo era tão fácil; teimava em imaginar que a vida guardava um propósito oculto. Talvez a realidade, como disse Einstein, fosse uma mera ilusão, embora uma ilusão muito persistente.

Entretanto, restava ainda a possibilidade de que a resposta fosse mais simples do que ele imaginava: o incômodo pela ausência de incômodos era, por si só e outrossim, um sentimento, e um sentimento que fazia dele tão humano quanto os demais. E, como não existem sentimentos isolados, talvez também ele tivesse outros. Onde estavam? Por baixo de uma provável barreira construída por alguém que tem medo de sofrer? Estava ele tentando proteger a si próprio? Seria sua apatia um mecanismo de defesa? Talvez. Não parecia, não era assim que se sentia; mas provavelmente... Era a melhor explicação.


"A consciência humana está quase sempre envolvida por ilusões, que impossibilitam, por um lado, a capacidade de autopercepção; por outro, dificultam o contato com a realidade das coisas.

            Não culpemos ninguém pelos nossos desacertos, pois somos os únicos responsáveis – cada um de nós – pela qualidade de vida que experimentamos aqui e agora.

(...)             Procuremos auscultar nossas percepções interiores, usando nossos sentidos mais profundos e observando o que nos mostram as leis naturais estabelecidas em nossa consciência. Confiar no sentimento de justiça que sai do coração, conforme asseveram os Guias da Humanidade, é promover a independência de nossos pensamentos e viver com senso de realidade. Aliás, são essas as características mais importantes das pessoas espiritualmente maduras.
            Estamos na Terra para estabelecer linha divisória entre a sanidade e a debilidade; portanto, é imprescindível discernir o que queremos forçar que seja realidade daquilo que verdadeiramente é realidade. Muitas vezes, podemos estar nos iludindo a ponto de negar os fatos preciosos que nos ajudariam a perceber a grandiosidade da Vida Providencial trabalhando em favor de nosso desenvolvimento integral."
("Ilusão", por Hammed, psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto, no livro "As dores da alma")

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