sábado, 5 de novembro de 2011

O álbum "Up", de Shania Twain

Dias atrás, selecionei "Up", o quarto álbum da cantora country Shania Twain, para escutar no carro. É sempre bom escolher álbuns os quais não escuto há tempos, pois sempre ouço as canções e interpreto suas letras de uma maneira diferente de como foi à época em que adquiri o álbum.
"Up" foi lançado em 2002; eu era, então, uma adolescentezinha quando o comprei. Lembro que não gostei de imediato: seu antecessor, "Come on over", de 1997, era maravilhoso, foi um fenômeno de vendas e de prestígio, e causou uma verdadeira revolução no mundo da country music. Com certeza eu esperava mais de "Up". Mas é preciso dar um desconto: nunca é fácil dar o próximo passo após fazer tanto sucesso assim. Todos depositam muitas expectativas. 
O que me decepcionou, na época, foi o fato de o álbum ser pop demais. Eu senti que Shania estava perdendo sua essência country - e o fato de o encarte trazer, de cara, dois CDs, um com as versões originais e outro com versões remixadas, só me fez acreditar ainda mais nesta tese. Ademais, achei algumas canções bastante fúteis e sem sentido. 
Hoje, porém, já tenho um conceito bem melhor de "Up". Entendo melhor algumas letras, e encaro algumas canções com menos seriedade. Várias delas realmente não têm outra intenção a não ser divertir, então por que exigir mais que isso? 

"Up" tem suas canções sobre o amor e sobre a vida, como praticamente toda obra de um artista popular; entretanto, uma característica muito peculiar do álbum, e que chamou a minha atenção, é o tom crítico e ironizador a respeito da sociedade contemporânea e seus padrões. 

"What a way to wanna be", por exemplo, fala da ditadura da beleza e da magreza (Shania canta: "Nós gostamos de comprar, nós gostamos de gastar / Para nos manter atualizados com a última tendência / Mas nós não nos satisfazemos / Vivendo como um escravo da moda / Sem pensar por nós mesmos ... Por que sermos perfeitos? / Não vale a pena / Descanse / Isto não é um concurso de beleza"), e "Ka ching" ironiza o consumismo e a obsessão por dinheiro ("Vivemos em mundinho que ensina cada menino e menina a ganhar o tanto quanto puder, e então gastar tudo frivolamente. Nós criamos problemas com cartão de crédito, e gastamos o dinheiro que não temos ... Tudo que sempre queremos é mais, mais do que tivemos antes, então leve-me à loja mais próxima!").




"Up" também traz canções que frisam a questão da independência feminina. A penúltima faixa, "In my car (I'll be the driver)", é um manifesto tipicamente feminista, em que a mulher se recusa a deixar que o homem assuma o papel principal no que se refere a um bem que ela adquiriu com o próprio esforço, como se permitir que ele dirija seu carro fosse anular sua autonomia ("Você pode escolher o canal enquanto assistimos TV, tudo bem / E pode escolher o sabor do sorvete, eu não me importo ... Mas no meu carro, eu dirijo / No meu carro, eu estou no controle!"). Já a terceira faixa, "She's not just a pretty face", ressalta a importância de encarar as mulheres bonitas como muito mais que "um rostinho bonito", como o próprio título sugere.


Contudo, em minha opinião, são as canções românticas que realmente se destacam. "(Wanna get to know you) That good" é a minha predileta, e inclusive rendeu um texto inteiro aqui no blog. É uma canção linda e envolvente, com uma letra tocante que fala sobre o desejo de conhecer cada detalhe da personalidade e da vida da pessoa amada ("Quero te conhecer por inteiro até te saber de cor / Quero te conhecer com todas as minhas forças / Quero te conhecer muito bem / Como ninguém te conhece / Quero alcançar as profundezas da sua mente...").


O estilo e a batida levemente new wave de "Thank you baby" me faz lembrar Tears For Fears, e a letra, igualmente bela, é um agradecimento ao ser amado, por tudo que ele representa na vida do eu-lírico ("Eu desisti de esperar o amor chegar / Teria que acontecer algum dia / Eu sabia que encontraria, algum dia / Obrigada, querido / Por fazer esse dia chegar tão cedo").


"I'm jealous" também é uma das mais lindas canções do álbum, cuja letra, que mais parece uma poesia, lembra muito a letra de "Inveja", canção de Sandy e Junior que consta do álbum lançado um ano após "Up" (será que o compositor se inspirou na canção de Shania?). 


"Eu queria ser o sol brilhando em sua face, acariciando-a como um amante
Eu te envolveria em um abraço caloroso, e nos abraçaríamos mutuamente
Tenho ciúmes do sol
Eu não quero dividir você com nada
Quero te ter só para mim
Não posso evitar, estou tão apaixonada
Não consigo estar suficientemente próxima de você..."
("I'm jealous")

Não obstante, "When you kiss me" e "Forever and for always" é que são consideradas as grandes baladas do álbum: ambas foram lançadas como singles e são favoritas dos fãs. Ambas são realmente lindas, em melodia e letra, embora eu prefire as acima citadas. A letra de "Forever and for always" é quase que uma continuação de "From this moment", hit do álbum anterior de Shania.


De uma maneira geral, "Up" é um ótimo álbum. Gosto muito mais dele hoje do quando o escutei pelas primeiras vezes. Todavia, permaneço acreditando que há poucos resquícios de country nas 19 canções: inegavelmente, "Up" é o álbum mais pop de Shania Twain - o que não é necessariamente ruim, apenas um pouco desapontante, se levarmos em conta que Shania é uma das cantoras mais aclamadas do mundo da country music e foi a grande responsável, nos anos 90, por alçar este estilo a uma posição mais popular.


Eu consigo identificar um potencial country na grande maioria das canções de "Up"; entretanto, é notável a intenção dos produtores musicais de fazê-las soarem menos assim, e mais como canções pop. As grandes exceções talvez sejam a própria faixa-título, e também "Waiter, bring me water", "Ain't no particular way" e "I'm gonna getcha good"  - não à toa, esta última foi lançada como o primeiro single, e foi o maior hit do álbum. Estas sim têm uma toada bem country, apesar de eu ainda achar que poderiam ser bem menos pop do que efetivamente são. 


Escutando o álbum, a impressão que temos é que ele só não é mais country porque não quer. O excesso de remixes, batidas eletrônicas e a escassez de elementos típicos deste gênero musical, como o banjo, a guitarra e o violino, fazem-me concluir que Shania e Robert 'Mutt' Lange (seu marido e produtor do álbum) realmente tencionavam produzir algo mais comercial, mais universal e menos segmentado.  


Entrementes, é provável que eu seja voz minoritária quando afirmo estas coisas. Em uma resenha do site Country Music, "Up" é avaliado como um álbum country normal. "Não há nada no CD verde [o que contém as versões originais das canções] que diga que Shania não é uma excelente e moderna cantora country. Se você gosta de algum dos seus álbuns anteriores ou música country popular, vá em frente e adquira este álbum", diz o crítico Matt Bjorke (fonte: http://countrymusic.about.com/library/bluprev.htm). Outrossim, a Billboard afirma que a essência de "Up" traz "a quintessência de Shania, leve como vapor, doce como açúcar, temperado com personalidade e inegável carisma"; e a Rolling Stone, por sua vez, disse, à época, que o álbum "teria sido um nocaute mesmo se fosse limitado ao disco de country music... Mas o segundo disco, de incessante e cinético pop, é uma revelação" (fonte: http://www.metacritic.com/music/up!/critic-reviews). Eu devo mesmo estar errada, pois trata-se de críticas elaboradas por revistas especializadas. 


Mas, de qualquer forma, "Up" constitui bom entretenimento. Só lamento que tantas canções incríveis foram desperdiçadas.


No fim das contas, mais de 20 milhões de cópias foram vendidas no mundo inteiro, e a todos (eu, por exemplo) que compraram uma, especialmente se o fizeram despretensiosamente, certamente gostaram do que levaram para casa.

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