sábado, 23 de abril de 2011

Até que o sexo esfrie: o que importa hoje em dia, em termos de relacionamentos

Amor, sexo e relacionamentos são temas frequentes aqui no blog, e nas ocasiões em que comento a respeito, costumo fazer críticas ferrenhas à atual geração de jovens e adultos. Bem, aqui estou eu novamente para criticar mais um pouco.

O que realmente importa, atualmente, nos relacionamentos amorosos, independente de serem entre homossexuais ou heterossexuais? O que as pessoas buscam ao relacionarem-se? Qual o verdadeiro desejo delas?

Eu ainda acredito em amor verdadeiro, companheirismo, lealdade e aperfeiçoamento mútuo; inclusive, estou muito certa de que este último é o principal objetivo da união entre duas pessoas que se amam, e todos os demais são, ou deveriam ser, os mais importantes componentes de um relacionamento de sucesso. Todavia, nada disso vem com rapidez, tampouco com facilidade. A solidificação de um relacionamento requer muito tempo e paciência... Coisas que ultimamente quase ninguém tem.

Em virtude da correria do dia a dia, os relacionamentos têm sido vistos única e exclusivamente como forma de diversão e prazer. Em consequência disso, personalidade, inteligência, bom humor, honestidade e todas estas características que em tese deveriam ser procuradas estão sendo preteridas em detrimento de... orgasmos. Sexo gostoso, isso é tudo que se busca hoje. Virtudes? Companheirismo? Quem ainda se importa com isso?“Ao fim de um longo dia de trabalho, de que serve uma pessoa incrível se ela não me fizer gozar?” O prazer físico vem muito mais rápido, e por este motivo, tem sido priorizado.

"Not everybody knows how to work my body,
Knows how to make me want it,
But boy, you stay up on it"
(Rihanna & Drake - What's my name)

"Nem todo mundo sabe como mexer com meu corpo,
Sabe como me fazer desejar,
Mas garoto, você nunca perde o pique"

Em “Sexed up”, canção que cabe perfeitamente para esta discussão, Robbie Williams canta sobre um relacionamento que esfriou, e dispensa sua parceira sem o menor pudor, deixando bem claro que a escolheu somente porque ela lhe proporcionava prazer, e da mesma forma, pode encontrar outra que o faça também, porque “nós não ficamos mais excitados um com o outro, e é isso que faz a diferença hoje”. A repulsa ao sentimento de pertencer a um relacionamento verdadeiro é notória (“Você diz que estamos fatalmente errados, mas eu estou entediado, tudo bem?”), e óbvio é também o fato de que pouco importa a personalidade da mulher: “É sábado, eu vou sair e encontrar outra você”, ou seja, todas são iguais, e se podem proporcioná-lo bom sexo, então isso é tudo que interessa (“Eu escolhi você, mas já está tudo gasto”). Em que pese o meu lamento pela situação em que se encontra nossa sociedade, mal posso condenar Robbie Williams por falar do tema com tanta honestidade – ele "é apenas o cantor", tal qual Belchior diz em "Eu sou apenas um rapaz latino americano".



Ressalvada a importância e os benefícios de uma vida sexual saudável e satisfatória, é realmente lamentável atestar o quanto o sexo tem servido de parâmetro para medir o sucesso de uma relação, sendo que, em vários casos, o sexo acaba sendo a única razão de ser de um relacionamento inteiro!

Outrossim, há algo sobre o que devemos refletir: o mesmo ritmo atribulado de vida que gera esta urgência em sentir prazer imediato, gera também a solidão e o vazio. Após tantas noites, tantos gozos e tantas conquistas, o que resta? Orgasmos são muito intensos, e como quase tudo que é intenso, acabam rápido. Quando eles passam, o que fica? Se nada fica, talvez seja hora de repensar esse estilo de vida.

Novela “Amor e revolução”


Meu mais novo entretenimento é a nova novela do SBT, “Amor e revolução”. Trata-se de uma empreitada ambiciosa e ousada do SBT, que sempre foi um dos meus canais prediletos.

A novela é ambientada no Brasil da década de 60, em plena iminência de golpe militar. O romance principal envolve uma líder revolucionária estudantil e um filho de militar, e todas as tramas paralelas giram em torno desta questão também. A novela é puramente histórica, quase não sobra espaço para quaisquer outros dramas e romances particulares dos personagens. A política domina as conversas. As cenas de tortura e perseguição a comunistas são frequentes.

Entre os pontos positivos da novela, eu destacaria:

  • A imagem. Há algo na iluminação ou na fotografia que faz com que a novela pareça antiga, filmada nos anos 80 ou 90, mal se acredita que está sendo filmada em 2011! Creio que este é um grande acerto, tendo em vista que ultimamente a reapresentação de novelas épicas produzidas na década de 80, tais quais “Dona Beija” e “Ana Raio e Zé Trovão”, têm alavancado a audiência do SBT;

  • A própria temática. Muita gente tem se sentido incomodada em ter que rever os velhos fantasmas da ditadura, e há também quem não goste da abordagem, quem creia que os militares estão sendo muito demonizados enquanto os comunistas posam de mocinhos. De qualquer forma, admiro a ousadia de querer contar (e mostrar!) pormenores deste período da nossa história, de uma forma em que até hoje nenhuma outra produção de massa no Brasil havia feito;

  • A trilha sonora. Ela é óbvia, pouco surpreendente, mas por isso mesmo é maravilhosa. O repertório do contexto ditatorial brasileiro é repisado, mas nem isso tira o brilho, a genialidade e a emoção de canções como “Roda viva” (que toca durante a abertura da novela, sobre a qual falarei abaixo), “Cálice”, “Alegria, alegria” e “Pra não dizer que não falei das flores”;

  • O roteiro, apesar de ele não me parecer muito homogêneo, a impressão que dá é que alguns personagens e núcleos têm diálogos mais interessantes que outros. Gosto, por exemplo, das linhas proferidas pelo delegado Aranha, personagem de Jayme Periard: ele tem tiradas boas e dotadas de um despudor raramente visto em novelas do SBT. Outros personagens, entretanto, ainda mantêm aquela fala seca e maquinal das antigas novelas da emissora;

  • Os depoimentos exibidos ao final de cada capítulo. São depoimentos reais de pessoas, geralmente de pessoas que participaram de movimentos comunistas nas décadas de 60 e 70. É a oportunidade do telespectador conhecer algumas realidades, além de saber de histórias nunca reveladas e outros episódios pouco falados nos livros de história;

  • A abertura. É bem feita e tocante, ilustrada com cenas que transmitem uma noção das tramas contadas na novela, em um tom assepiado e nostálgico. A única ironia é que a abertura seja transmitida apenas no final de cada capítulo!;


  • Por fim, algo que já até mesmo frisei anteriormente: o fato de a novela ter um foco essencialmente histórico. Para quem não se interesse por história, provavelmente a novela parecerá maçante, tediosa, antiga e muito preocupada em politizar o telespectador. Porém, aos que se interessam, trata-se de ótima diversão, com grandes doses de cultura.

Assistir a “Amor e Revolução” me faz pensar nos dois lados da história. Comunistas ou militares: quem são os mocinhos e quem são os bandidos? Alguns segmentos da sociedade, bem como boa parte dos livros de história, tentam massificar a ideia de que o regime militar foi altamente maléfico, pintando os comunistas de santinhos. Não sou suficientemente politizada e entendida em história para poder emitir opinião certeira sobre o assunto, contudo, quanto mais amadureço e busco entender como as coisas funcionam neste mundo, mais me convenço de que não há anjos ou demônios nesta história, ou ao menos não totalmente.


É complicado buscar informações sobre algo que ainda assola as pessoas de nosso país. As cicatrizes ainda estão expostas, os traumas são muito recentes, ainda há quem não tenha superado tudo que vivenciou. Onde encontrar conhecimento imparcialmente produzido? Naquela época, é certo que não havia como permanecer “em cima do muro”; era preciso tomar um partido. E só quem pode nos contar com tudo aconteceu, são estas mesmas pessoas que assumiram uma posição. Como saber em quem acreditar? Como saber qual versão é mais confiável?  

Realmente não sei de qual lado está o escritor de “Amor e revolução”, tampouco qual a sua intenção ao contar as coisas do modo como está fazendo. De qualquer forma, não se pode olvidar que a novela, ademais de uma aula de história, não deixa de ser um meio de entretenimento, e como tal, as verdades nela propagadas não devem ser tomadas como absolutas.

Não julgue o mundo com base nos seus próprios dissabores!

Dias atrás, fiquei horrorizada com um vídeo que vi na Internet. Tratava-se de um taxista que mora na mesma cidade que eu, e o vídeo foi feito por passageiros que vinham de outro Estado e desejavam se informar a respeito da cidade que acabavam de conhecer. Realmente não sei o que achei pior em tudo isso: as barbaridades que o taxista disse, ou o fato de que os rapazes que postaram o vídeo aceitaram tudo que ouviram, sem contestar, sem nem mesmo procurar saber de nada.

No vídeo, as mulheres de minha cidade foram impiedosamente difamadas, e o taxista generalizava ao apontar defeitos supostamente comuns a todas elas. Divertindo-se, os passageiros instigavam-no a falar mais e cada vez mais maldosamente das mulheres da cidade.

Não sou cega. Tenho total consciência de que não vivo em um lugar perfeito e de que há muita perversão e sujeira aqui. Mas daí a dizer que não há uma única alma que se salve em meio ao caos, vai uma longa distância.   

A pessoa que vive experiências ruins com determinadas coisas/pessoas/lugares/situações tende a achar que pode julgar todo o mundo com base em seus próprios desgostos... Mas, na verdade, no mundo há muito mais do que nossa reles compreensão alcança! Mesmo uma cidade não muito grande conta com muitas exceções às lamentáveis regras de nossa sociedade mais lamentável ainda. Agora, se estas exceções nunca chegaram ao nosso conhecimento, esta já é uma outra história.

Se somos desinformados ou tivemos experiências ruins na vida, não podemos culpar o contexto externo por nossa própria infelicidade. Só porque nunca tivemos o prazer de conhecer o lado bom de algo, isto não quer dizer que ele não exista. 

Aceite-me!

Se luto tanto para ser aceita por você, certamente é porque te admiro muito. Certamente você tem algo que me fascina, ou algo que eu adoraria ter. Por isso quero tanto que você goste de mim.

O elogio é sempre mais valioso quando vem de alguém valioso. Preciso dessa legitimação do reconhecimento de minha própria grandeza. Preciso saber que você me admira para ter certeza de que sou digna de admiração. Você é meu parâmetro, é meu Juiz. Vindo de você, sei que é verdade.

Talvez eu realmente tenha essa insegurança dentro de mim. Tenho consciência de meu mérito, de minhas qualidades, mas só isso não basta: quero que você reconheça! Ser aprovada por você é uma confirmação da minha própria auto aceitação, é um aval para a minha própria soberba. Se você é mesmo tão incrível e me admira, definitivamente é porque também há algo de incrível em mim. E só você pode me dar esta certeza.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sobra coragem e sabedoria onde falta orgulho

O orgulho é visto como sinônimo de dignidade e amor próprio... Todavia, a cada dia que passa, convenço-me mais que aqueles que não se deixam bloquear pelas travas do orgulho são muito mais sábios.

O que é o orgulho senão o medo de dar a cara a tapa? O que é o orgulho senão a falta de coragem? O que é o orgulho senão o medo do julgamento público? O orgulho é esta bandeira que criamos para justificar nossa incapacidade de nos expor, nossa fraqueza, nossa falta de coragem de encararmos diretamente as coisas, nossa falta de jeito frente aos nossos próprios sentimentos. Some-se a tudo isso o fato de vivermos em uma sociedade em que o poder é tão valorizado, a ponto de se acreditar que pessoas que não se impõem são vistas como fracas. Pessoas altruístas, pessoas que amam, que perdoam, que cedem, que aceitam se diminuir em algumas situações, que sabem reconhecer quando estão erradas, pessoas que oferecem a face esquerda quando lhe batem na direita, pessoas que escutam desaforos caladas em vez de retrucarem... Todas elas são vistas como fracas, simplesmente por não colocarem a si mesmas à frente de tudo, por preferirem ser amorosas a serem vistas como incríveis, como “fodonas”. Orgulho, hoje, é sinônimo de poder.   

Lembrei-me de Maria, a vencedora do Big Brother Brasil 2011. Maria não teve vergonha de assumir seus sentimentos, quando foi rejeitada por Mau Mau. Não teve medo de ser vista como fraca e desprovida de amor próprio quando rastejou por ele. Não foi orgulhosa. Só posso crer que Maria é muito bem resolvida em relação a seus sentimentos, e tem coragem de assumi-los, independente de como seria julgada por isso. Só posso admirá-la por correr atrás de algo que quer, deixando de lado todos as regras que a sociedade nos impõe.

É claro que, no fim da história, Maria não ficou com Mau Mau, e acabou conseguindo algo muito melhor. Houve um momento em que ela desistiu de humilhar-se para ele – mas fez isto porque sentiu que era o melhor a fazer, e não porque não queria mais ser vista como fraca.

O bom senso nos diz que humilhar-se para o ser amado é burrice, pois só o faria explorar-nos mais. A sociedade sabe que dar a outra pessoa total poder sobre sua vida é uma maneira de tornar-se escrava da pessoa, uma vez que sua felicidade dependerá dela. O orgulho transformou-se, portanto, em meio de defesa. Mas só quem se sente ameaçado é que precisa se defender. E qual a razão de existir tamanha ameaça? Precisaríamos ser tão orgulhosos se as pessoas não fossem tão cruéis ao julgar os sentimentos alheios?

Lembrei-me também de uma velha e bela canção dos Isley Brothers...


“If you leave me a hundred times, a hundred times I’ll take you back… I’m yours whenever you want me, Im not too proud to shout it”

“Se você me deixar cem vezes, cem vezes eu te aceitarei de volta... Eu sou seu a qualquer hora que você me quiser, não sou orgulhoso demais para gritar isso”



É preciso ser muito homem para dizer isso a uma mulher! É preciso ter muita autoconfiança para aceitar de volta, mil vezes se for preciso, a mesma mulher que te rejeitou tantas vezes, sem medo de ser ferido novamente. É preciso ser muito seguro de si para assumir que se aceitá-la vai fazê-los felizes, então é isso que se deve fazer, sem se importar em ser tachado de “corno” ou “capacho” pela sociedade. Enfim, é preciso ser muito homem para não precisar provar para ninguém que se é homem. Idem para as mulheres. Não, não vejo isso como fraqueza. Quem perdoa, com o coração nunca é fraco; muito pelo contrário. Fraqueza é sucumbir aos anseios da sociedade, isso sim.

A chave para entender o problema está na sociedade, claro. A sociedade cria seus preceitos, seus modelos, e quem foge disto é excluído, é rechaçado, é visto como anormal. O homem que perdoa a mulher falha é visto como um banana que não sabe se impor. A mulher que perdoa o homem falho é vista como submissa, como uma mulher que não valoriza a si mesma. Certamente, a mesma sociedade que criou este padrões não contava com a possibilidade de existirem pessoas que perdoam com pureza, com verdade, que perdoam porque realmente sentem esse desejo – e não porque estão sendo submissos!

Não ser orgulhoso não é a mesma coisa que não ter amor próprio. Perdoar é ser sábio, é entender que todos erram e que ninguém é tão superior a ponto de não poder aceitar um erro alheio – até porque, mais cedo ou mais tarde, somos nós quem erramos e acabamos precisando ser perdoados!

Em um mundo como o nosso, cada vez mais me convenço que as pessoas menos orgulhosas são as mais corajosas e sábias. Orgulho é para fracos. Pessoas bem resolvidas consigo mesmas, pessoas que não têm medo de serem julgadas pelas outras, estas sim têm coragem. 

terça-feira, 12 de abril de 2011

Saudades de uma infância que não se foi

Quanta saudade sinto da época em que eu não precisava ser quem sempre sonhei ser, ou ao menos não sabia ainda quem queria ser... Sinto saudades da época em que minha liberdade era pequena e minha imaginação era grande, mas o suficiente para que uma coubesse dentro da outra... Sinto saudades da época em que ainda planejava como seria a minha vida quando eu já pudesse fazer planos para ela. 

E eu, que já me acho tão velha para gostar de certas coisas, permito que um sonho traga de volta aquelas antigas sensações, a ponto de quase desejar que o tempo pudesse voltar, a ponto de quase invejar a antiga eu, a ponto de quase tachar de desinteressante a vida que eu levo hoje. 

Mal consigo entender como, em meio a tanta correria do dia a dia, encontro tempo para relembrar os velhos tempos. Mal compreendo como este tipo de recordação arranja espaço no meu amontoado de pensamentos, de anotações mentais sobre milhões de coisas que ainda preciso fazer. 

Será que algum dia, em um futuro distante ou nem tanto, terei condições de encaixar um pedacinho da minha antiga vida na minha futura vida? Ou será que este é o tipo de regalia que ficou para trás e à qual nunca mais terei direito? Será que posso afirmar que só depende de mim? 

Confesso: tudo aquilo ainda me agrada. E eu, que cresci tanto, amadureci tanto, aprendi tanto, ainda não sou adulta o suficiente para deixar de ver graça em tudo que um dia me fez rir. É possível que menina e mulher dominem o mesmo cérebro, o mesmo espírito? Porque a verdade é que ainda sou capaz de raciocinar exatamente como fazia quando era mais nova, enxergar determinadas situações sob a mesma ótica, adorar e me emocionar com as mesmas coisas... Não é que este comportamento prevaleça; tenho noção da minha idade e carrego comigo tudo que isso acarreta e me trouxe ao longo dos anos, mas o fato é que não perdi a sensibilidade de criança... Seria possível que estas duas capacidades convivessem harmonicamente? 

O lado bom é que sei perfeitamente qual dos lados deve prevalecer. Todavia, ainda deixo um espaço guardado, em mente, alma e coração, para a criança que fui e provavelmente nunca deixarei de ser.

Sei que a vida é composta de fases, mas há uma outra maneira de interpretar esta realidade: as fases não são isoladas, elas se interligam por meio de elementos de nossa personalidade que muitas vezes nem conhecemos, ou não entendemos. Enxergo na mulher de hoje a criança que outrora fui, e curiosamente, consigo enxergar na antiga menina os traços de mulher que hoje possuo. Afinal, somos a mesma pessoa, não?

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Massacre no Rio, bullying e violência contra mulheres: comentários sobre crimes no Brasil e na Guatemala, e um depoimento pessoal



Hoje pela manhã, um ex-aluno da Escola municipal Tasso da Silveira, Wellington  Menezes de Oliveira, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, invadiu uma sala de aula, anunciou que faria uma palestra, e então passou a atirar contra os alunos, dos 11 morreram, e mais 18 pessoas ficaram feridas. Após a chegada da Polícia Militar, Wellington trocou tiros com os agentes e depois suicidou-se.

Primeira parte da carta que o atirador trazia.
Fonte da imagem: O Dia Online
O atirador portava duas armas, muitas munições e uma estranha carta na qual dizia que não gostaria que seu cadáver fosse tocado por "pessoas impuras", dando a entender que já havia planejado o suicídio.

No momento, os policiais que investigam o crime estão considerando a hipótese de que os "impuros" mencionados na carta sejam mulheres.  Curiosamente, 10 das 11 vítimas fatais eram do sexo feminino. Todavia, é cedo para afirmar se este foi o real motivo que levou Wellington a cometer os homicídios. 

Cogita-se ainda a possibilidade de o rapaz ter sido impulsionado por sentimento de vingança, por ter sofrido bullying durante a adolescência, quando estudou no colégio que serviu de cenário para o massacre. O autor do crime foi descrito como quieto, tímido e recalcado por um colega de trabalho; já um colega de tempos de escola assevera que Wellington nunca sofreu bullying, e que era introvertido por opção, nunca fez questão de entrosar-se e fazer amizades. Há ainda quem diga que Wellington fosse esquizofrênico ou estivesse sofrendo um surto psicótico, e evidências de que era portador do vírus da AIDS.

(Fontes:
 http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5052848-EI5030,00-Colega+de+atirador+nega+que+ele+tenha+sofrido+bullying+na+escola.html

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/899549-atirador-no-rio-era-introvertido-diz-ex-colega-de-trabalho.shtml)
 
As investigações, é claro, estão apenas em fase inicial; contudo, gostaria de aproveitar a deixa para tratar de dois temas relacionados que têm despertado meu interesse nos últimos tempos: o bullying, o preconceito contra mulheres, e a conjugação destes dois elementos.

Há algum tempo havia lido uma reportagem sobre um determinado local que possuía o recorde de homicídios de mulheres. Tentando encontrá-la, deparei-me com outro artigo de mesmo teor, falando sobre a violência contra mulheres na Guatemala. Segundo o texto, as mulheres guatemaltecas ainda sofrem com o machismo arraigado na cultura do país, que faz com que qualquer conduta feminina considerada "inadequada" seja motivo para a prática de algum crime, geralmente perpetrado com grande violência (abuso sexual ou mutilação do corpo da vítima) e precedido de ameaças.

Não bastante, ao fazer uma pesquisa de artigos em espanhol, encontrei um texto publicado no jornal espanhol El Mundo acerca do bullying contra meninas, afirmando que, dentre as crianças e adolescentes que são vítimas desta prática hoje infelizmente tão comum em escolas, as do sexo feminino são as que possuem maior propensão a sofrerem transtornos na idade adulta, ou ainda, a cometerem suicídio.

Sinto-me no dever de acrescentar meu depoimento pessoal ao debate: não sofri bullying na infância tampouco na adolescência, porém, soube muito bem como é a sensação de estar em desacordo com o padrão estabelecido pelas minorias dominantes, ou seja, pela "elite da escola". Inclusive falei um pouquinho sobre isso no texto "As marcas do período colegial". O que me fortaleceu e me impediu de desenvolver maiores angústias, tenho certeza, foram :os meus princípios e ideais de vida, os quais me foram passados e ensinados por minha família desde a mais tenra infância; as poucas porém qualitativas amizades que eu tinha (de meninas igualmente consideradas "as esquisitas da escola"); mas principalmente, a minha convicção de que não era eu a errada da história. 

Eu não estava errada em ser eu, em gostar do que gostava, em fazer o que fazia.  Nunca lidei com nada ilegal ou imoral, apenas preferia coisas diferentes. Em outras palavras, não era eu quem precisava me encaixar naquele padrão: é o próprio padrão que não devia existir! Esta certeza é que me dava força para seguir em frente e aguentar as perturbações: algum dia a verdade apareceria; algum dia todos saberiam que eu não somente estava certa em não querer me submeter, como também, poderia chegar muito longe com isso. Desde então, poucos anos se passaram, mas já vejo muitas daquelas pessoas "quebrando a cara", e aprendendo que a vida não é um simples joguinho de popularidade em que os vencedores só vencem por serem iguais. Muito pelo contrário... Hoje, a sociedade, o mercado de trabalho e todos os demais cenários da vida adulta exigem diferença, personalidade, singularidade, unicidade. Entre tantas lições que eu ainda preciso aprender, esta é uma a menos.

Há um sem-número de razões pelas quais o bullying ganha constância; um deles é o fato de a  criança/adolescente vítima de bullying acreditar que merece aquele tratamento, ou de não ter autoestima suficiente para perceber que aquilo não está certo.

Já para o início da bullying, creio que os motivos não sejam tantos, nem tão difíceis de compreender... Afinal, jovens confiantes e seguros de si não precisam inferiorizar ninguém. E isto se estende aos adultos, e à condição humana em geral,por que não? Se é necessário ressaltar a fraqueza alheia para enxergar melhor a própria força, é porque talvez tal força não exista.

terça-feira, 5 de abril de 2011

É tempo!

É tempo de ser aquilo que sempre quis ser mas deixei de ser por falta de coragem, de força, de ousadia, de disciplina. É tempo de realizar.
É tempo de ler mais, ser mais, conhecer mais.
É tempo de me superar, de ir além do que fui ontem, e amanhã, ir mais longe ainda.
É tempo de conseguir tudo aquilo que eu achei que levaria anos para conseguir. É tempo de aprender a fazer tudo aquilo que duvidavam que eu conseguiria.

Neste sábado, a palestra no Centro Espírita abordou, entre outros assuntos, o futuro, e a ideia que fazemos dele. Com muita sabedoria e sensatez, o palestrante disse aquilo que todos nós estamos cansados de saber, mas cujo significado nunca absorvemos de verdade: o futuro é construído pouco a pouco, dia a dia.

O futuro não é uma circunstância determinada, não é um ponto fixo que está localizado em alguma data, e que um dia nós alcançaremos. O futuro é daqui a pouco, é o minuto seguinte, é hoje à noite, é amanhã de manhã... E para que alcancemos o que planejamos para esse futuro, precisamos começar logo, fazer logo. Agora. Não adiemos! O próprio momento em que decidimos postergar alguma atividade já é um futuro desperdiçado.

A impressão que temos é que o futuro é um lugar distante no qual vamos chegar um dia, e que quando chegarmos, tudo estará do jeito que sempre sonhamos: ah, quando eu tiver 30 anos já estarei casada, com um emprego público, com uma casa própria e 10kg mais magra. E então, automaticamente, no meu 30° aniversário, estarei assim? Só se eu começar agora mesmo a fazer por onde conseguir o que quero.

Parece tão óbvio que dá até vergonha de sermos tão preguiçosos, tão indisciplinados, com tão pequena força de vontade. Até parece que a realização dos sonhos é pura consequência da passagem do tempo! Que tolice pensar assim. O futuro tem que ser feito agora. Se hoje as coisas ainda não estão do jeito que quero, isto se dá principalmente porque no passado eu não fiz o que era preciso fazer.

É tempo de raciocinar melhor, de pensar mais antes de agir, de saber reconhecer as oportunidades.
É tempo de cumprir metas, de realizar o já planejado e fazer mais planos novos!
É tempo de fazer todas aquelas coisas que você sempre se programou para fazer mas nunca fez.
É tempo de ler nas entrelinhas, de tentar entender o significado das coisas que antes nos pareciam obscuras.
É tempo de preparar o terreno para colher os frutos que eu quero e mereço colher! É tempo de lutar para ser digna de tudo que eu desejo para a minha vida... e olhem que eu não desejo pouco.
É tempo de parar de lamentar, porque quem lamenta perde tempo. É tempo de fazer melhor uso do nosso próprio tempo, dos nossos recursos.
É tempo de cuidar da saúde, do intelecto, dos nossos amores.
É tempo de apreciar as maravilhas do mundo!

É tempo de... estudar Direito Civil.

domingo, 3 de abril de 2011

Ser aquele que mais sente



"What have I done?
You seem to move on easy...
And everytime I try to fly, I fall
Without my wings, I feel so small..."
('Everytime', Britney Spears)

"O que eu fiz?
Você parece seguir em frente facilmente...
E toda vez que eu tento voar, eu caio
Sem minhas asas me sinto tão pequena..."


Dói mais ver que não dói tanto no outro quanto em você. O ser humano inseguro sente-se a mais anormal das criaturas quando sente dificuldade naquilo que aos outros parece tão fácil.


“If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me”


(“Se a afeição não puder ser igual,
Deixe-me ser aquele que ama mais”)


Como nesse belíssimo trecho do ainda mais belo poema de W. H. Auden, "The more loving one", nem sempre o sentimento fica equilibrado. Há vezes em que uma das partes ama mais, e há vezes em que o rompimento de um laço é mais doloroso para uma das partes. Dói ser a parte que sofre mais. Dói além da própria dor do fim, porque machuca pensar que a outra pessoa sofre menos porque sentirá menos falta de tudo que acabou.

Parece ridículo e até pleonasmo, mas o fato é: sofrer dói. É doloroso sentir dor. Ademais do próprio motivo que gera o sofrimento, machuca saber que somos tão fracos a ponto de gastar nossas energias sofrendo, em vez de superar, seguir em frente ou simplesmente não deixar-se abalar.




Chora. Uma grande dor te punja e corte
E de prantos te inunde a face austera,
Já que uma dor pequena prantos gera
Na alma de um fraco, só, por que a suporte.

Certo, não torce um coração que é forte,
A dor que um frágil coração torcera;
Peitos de bronze, não; peitos de cera
É que a dor amolece desta sorte.

Prantos, bálsamo e alívio de quem chora,
Sejam frutos do amor, ou sejam frutos
Do ódio, bem haja a dor que os faz chorar!

Bem haja a dor que pôde, enfim, agora,
Na aridez desses olhos sempre enxutos,
Duas fontes de lágrimas rasgar.

("Bálsamos prantos", de Raimundo Correia)


Tendemos a encarar cada momento de sofrimento como um momento que deve ser “desfrutado” ao máximo para depois passar. Choramos tudo que podemos, e damos o problema por encerrado. Faltam forças e sabedoria para perceber que é momento de reavaliar as coisas, pensar nos porquês dos fatos, e não apenas lamentá-los.

Que importa se estamos sofrendo mais que os outros? Sentir-se o pior dos seres não nos coloca em uma posição melhor, de mais coitadinho, de mais merecedor da misericórdia e compreensão alheia. Quanto maior o fardo, maior o compromisso. E quanto maior o compromisso, maior deve ser a luta e o empenho para cumpri-lo.     




Não ria da minha fé no amor

Não ria da minha fé no amor. O meu conceito de amor não é superficial como o seu. O amor para mim não é um mero passatempo, e ademais, eu nunca fui o tipo de pessoa que depende disso para ser feliz. Não gosto de passatempos, gosto de ocupações. Gosto de coisas que me preencham, e não de coisas que apenas me distraiam do marasmo que é a minha vida. Até porque nunca deixei que minha vida se tornasse um marasmo. Gosto de sentido, de lógica, de razão.

Eu acredito no amor porque entendo o amor como muito mais que um simples jogo de sensações. Não se trata de dois egos que dependem do estímulo recíproco para sentirem-se bem. Infelicidade somada a infelicidade não resulta em felicidade. Trata-se, sim, de duas pessoas completas, apesar de imperfeitas, que unem forças para serem melhores.

Você se auto intitula “intenso” porque gosta de momentos de muita adrenalina, ainda que estes momentos durem pouco. Pois bem, respeito-o, mas prefiro ser feliz a vida inteira. E é claro que para ser feliz a vida inteira não é possível ter adrenalina 24 horas por dia. Você se contenta com um pouquinho de muita coisa? Quem tem demais sempre, nunca tem tudo. Prefiro uma vida feliz a alguns momentos de alegria. Estabilidade é a verdadeira intensidade.  

Respeito aos professores

O professor não é um rato

ESCRITO POR GABRIEL PERISSÉ   
30-MAR-2011

Certa vez, um professor cismou que era um rato. Passou a comer restos de comida todos os dias. Trazia lixo para dentro de casa. Rastejava. Deixou os fios de seu bigode crescerem. Acreditava que eram uma antena que o ajudava a se locomover em ambientes sem luz.

Exprimia-se entre espaços apertados. Era comum vê-lo enfiar as mãos em brechas de paredes. Abria a geladeira e cheirava com impaciência todos os alimentos. Ficava roendo páginas de livros. Estava sempre à espreita, desconfiado.

Familiares e amigos, assustados com seu comportamento, resolveram levá-lo a uma clínica psiquiátrica, onde os médicos, durante meses a fio, se empenharam em fazer o professor tomar consciência de que era um professor, e não um rato. Lutaram para que se lembrasse de seu conhecimento, dos milhares de alunos que ajudou a formar, das centenas de milhares de provas e trabalhos que corrigiu.

Não era fácil. O professor queria fugir. Olhava para os médicos como uma cobaia presa no laboratório. Andava de um lado para o outro como se estivesse dentro de um labirinto. Às vezes, encurralado no canto de uma sala, tremia e guinchava.

Graças à persistência dos médicos, o professor foi aos poucos recuperando a sua personalidade. Perguntavam-lhe todos os dias: "O senhor é um professor ou um rato?" E lhe davam mil e um argumentos para se convencer de que era, de fato, não um rato. De que era um professor, um mestre, um educador!

Depois de um ano letivo inteiro, o professor deu sinais de que estava curado. As avaliações inter e multidisciplinares, os testes constantes, as provas, os exames indicavam que o professor voltara a ser professor. Nada de aprovação automática. Sua recuperação foi supervisionada passo a passo.

Num belo dia, os médicos deram-lhe alta com notas altas! E lhe disseram que podia voltar a lecionar.

O professor se despediu, caminhou pelo longo corredor, até sumir das vistas dos médicos e enfermeiros.

Dois minutos depois, o professor entrou espavorido, suando frio, olhos arregalados, na sala de um dos médicos. Gritava:

— Doutor! Pelo amor de Deus! Me ajude! Tem um gato na saída da clínica!

— Mas, professor, o senhor não precisa ter medo. O senhor é um professor, lembra-se? É um professor e não um rato.

— Certo, doutor. Isso eu já sei. Mas será que o gato também sabe?


Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.




Li este interessantíssimo texto de Gabriel Perissé no site Correio da Cidadania (o qual, aliás, eu recomendo, por trazer sempre outros textos de grande qualidade), e após pensar nele por várias dias, lembrei-me de uma conversa que tive um dia com uma colega mais velha que eu. Ela me contava sobre sua família, seus avós que eram analfabetos, e sobre seu pai que apenas conseguiu concluir os estudos porque teve aulas particulares em casa. Ela dizia que, naquela época e circunstâncias, ter um professor particular era um luxo, e que os professores eram respeitadíssimos e muito bem remunerados. Já hoje... Quanta coisa mudou!

Sou filha de uma professora e, como se não bastasse acompanhar de perto o dia a dia deste tipo de profissional, praticamente também cresci dentro do ambiente escolar. A escola era minha segunda casa, pois estes eram os dois únicos lugares que eu frequentava. Cresci vendo como se dava a dinâmica de uma escola, e tive o privilégio de ver os dois lados: fui aluna, interagia com os alunos, mas também conhecia intimamente todas as professoras, diretoras e demais funcionárias da minha escola.

Cresci assistindo o empenho de minha mãe, suas dificuldades para tentar resolver problemas de seus alunos, sua busca incessante por tentar encontrar novas e atraentes maneiras de ensinar... Aquela era uma outra vida. Porque, além de tudo isso, ela ainda era mãe, esposa, e tratava de inúmeras outras coisas... Não era fácil. Eu era muito criança, mas nem é preciso ser tão madura para perceber que se ela ainda mantinha aquele emprego, era porque gostava.

Imagino o quanto devem ser infelizes os professores que exercem a profissão sem um pingo de paixão. O ofício já é difícil por si só; sem um mínimo de interesse, fica insuportável. De fato, a maior recompensa de um professor é o sucesso e a superação de seus alunos. Este é o verdadeiro resultado. Salário é consequência: não só porque hoje em dia paga-se muito mal aos professores, mas também, e principalmente, porque o salário não paga o que um bom professor realmente faz. Não, não paga!

O salário diz respeito ao planejamento da aula, ao preenchimento do diário, à elaboração dos exercícios, à correção das provas, à exposição do conteúdo em sala de aula. Mas e quanto àquele professor que te motiva, te inspira e te instiga a buscar sempre mais, ler e ser sempre mais, querer ser cada vez melhor? E quanto ao professor que enxerga nos seus olhos a dor que você tenta esconder, e conversa com você como se aula ou matéria nenhuma fosse mais importante que te ajudar a lidar com seus problemas? E quanto ao professor que enxerga dentro de você a vocação que nem você sabe que possui? E quanto ao professor que te entende, te aconselha, te mostra o caminho? Não. Salário não paga isso.

Se alguma vez você já pagou R$15 por um ingresso de cinema, para ver um filme que mudou sua vida, te fez rir demais, ou chorar demais, e te tocou profundamente, então você sabe do que estou falando.

Se alguma vez você já pagou caríssimo para estar em lugar, com uma determinada pessoa, e teve o melhor dia ou noite da sua vida, você sabe do que estou falando.

Há coisas que não se pode quantificar; aliás, para algumas coisas, torna-se até deselegante tentar valorar financeiramente. Até parece que dinheiro corresponde exatamente às coisas que ele pode comprar! É uma mesquinharia pensar assim.

O dinheiro é a moeda de troca que inventamos para tentar balancear o status de todas as pessoas que precisam adquirir coisas. Seria lindo se todos estivéssemos dispostos a dar um pouco do que temos sem pedir nada em troca, mas isto nos colocaria em uma situação precária e nos prejudicaria, pois de tanto darmos, nada mais teríamos.

Precisamos de dinheiro para viver, para sobreviver, para sermos felizes, para sermos infelizes, para resolvermos nossos problemas ou arranjarmos novos.

É claro que todo professor deveria ser melhor remunerado. Qualquer discussão sobre isto é extremamente desnecessária, pois trata-se de uma questão de sobrevivência: sem dinheiro, não se vive.

Todavia, o ideal seria que se aumentasse e melhorasse outro tipo de coisa que o professor recebe: o respeito e o reconhecimento, por parte da sociedade. E isto é uma questão de mentalidade.

A triste e injusta condição atual dos professores brasileiros fez com que o curso de Pedagogia passasse a ser mal visto e pouquíssimo incentivado, assim como outros cursos superiores, como Letras, e todos os demais cursos de licenciatura. Apenas cursos como Direito, Medicina e Engenharia são tidos como “de elite”, justamente porque as pessoas os associam ao sucesso, financeiramente falando. E o sucesso do professor que consegue encaminhar bem os seus alunos, do professor que alfabetizou o menino que um dia tornou-se uma importante personalidade? Ninguém se importa. O salário do professor é ruim – isso é tudo que dizem.   

O grande problema do Brasil, aliás, a matriz de praticamente todos os problemas, é a mentalidade das pessoas. Melhorar as condições de trabalho dos professores faria muito pela classe, pois somente com salários melhores estes profissionais passariam a ter sua importância reconhecida pela sociedade. Atualmente se acredita que por um bom salário, qualquer tipo de ofício é bom, é digno, é válido. Dinheiro não é tudo: o professor também precisa de autoestima, respeito, estímulo – mas, paradoxalmente, só conseguirá isso quando começar a ganhar mais dinheiro. Porque, infelizmente, é assim que se lida com gente medíocre: fale na língua deles, use elementos que eles valorizem, e aí eles passam a te admirar. Resta saber se é este tipo de mentalidade que queremos para nosso país.

Ah, e como não poderia deixar de ser, com a montagem abaixo faço uma homenagem aos queridos professores da ficção, e estendo-a aos professores da vida real, que tentam colaborar para a construção de um mundo melhor! 



Inesquecíveis professores da ficção: a Helena, da novela "Carrossel"; Dewey Finn (interpretado por Jack Black), do filme "Escola do Rock"; Mark Thackeray (interpretado por Sidney Poitier), do filme "Ao mestre, com carinho"; e o Professor Girafales, do seriado "Chaves"

terça-feira, 29 de março de 2011

Maria, Maria... Estamos vencendo o preconceito?

"É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar,
Como outra qualquer no planeta..."

("Maria, Maria", de Milton Nascimento)


Sim, o ex vice-presidente José de Alencar acaba de falecer, a situação no Japão continua péssima, finalmente foi dado por Luiz Fux o voto de desempate referente à "Lei da Ficha Limpa", o preço do barril de petróleo está disparando no mercado internacional, e eu estou aqui para falar de quê? Da grande final do BBB 11, claro! Sem o menor receio de parecer fútil, até porque não estou aqui para falar apenas da minha favorita para ganhar o prêmio, mas também para analisar o comportamento do povo brasileiro frente aos personagens desta edição do reality show. Filosofia de boteco? Desculpa para assistir a vida dos outros? Que seja! Pensem e digam o que quiserem, mas o fato é que quem tem capacidade de absorver conhecimento, cultura e valores, pode fazer isso em qualquer ocasião, até mesmo assistindo BBB. 

Primeiramente quero falar sobre como estou feliz com os 3 finalistas do BBB 11, três pessoas completamente diferentes mas de traços muito marcantes.
O fato de que Maria, Daniel e Wesley estão juntos na final, e ainda, têm todos grandes chances de vencerem, deixa-me feliz, pois é um verdadeiro atestado de quanto o pensamento do público tem se modificado. 



Ao lançar o videoclipe de seu mais recente single "Born this way", Lady GaGa afirmou que a canção trata de "o nascimento de uma nova raça dentro da raça humana. O nascimento de uma nova raça sem nenhum preconceito" (fonte: http://www.mtv.com/news/articles/1658332/lady-gaga-born-this-way.jhtml). Possíveis simbolismos, teorias Illuminati e interpretações à parte, vale a pena considerar o que a cantora está tentando dizer: será que estamos prestes a vivenciar uma era em que todos estariam livres para serem o que quiserem, e acima de tudo, estariam livres dos rótulos, preconceitos e julgamentos? A meu ver, se este momento ainda não se aproxima, há grandes evidências de que o caminho já está sendo preparado. 

Maria já divide opiniões logo no que concerne à sua vida pré-BBB: seu trabalho constituía em fazer vídeos pornográficos para a Internet; há até boatos de que era garota de programa. Quanto à sua trajetória dentro do programa, Maria causou polêmica de mesma proporção: engatou um romance com Maurício logo nos primeiros dias, sofreu com sua saída na segunda semana, interessou-se pelo recém-chegado Wesley, depois rastejou por Maurício quando este retornou, chegando a ajoelhar-se e pedir para que volte com ela, depois resolveu esquecê-lo e permitiu-se viver um romance com Wesley, com direito a sexo debaixo do edredom e beijo na frente do ex. Tudo isso sem mencionar que a moça era usuária confessa de anabolizantes, chegou a votar por mais de uma vez no namorado Wesley, chegou a fazer um striptease para Maurício e não tinha vergonha de fazer papel de boba quando não entendia algum assunto ou não sabia falar alguma palavra. 
Mas nada disso foi suficiente para fazer com que o público a odiasse. Nenhum defeito ou deslize de Maria foi suficiente para tirar de foco seu jeito carismático, sincero e meigo. Afinal, prostituta ou não, errada ou não, Maria é uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer no planeta, não? 
Tudo isto me faz lembrar de Maria de Magdala, outra mulher, outra Maria, outra "mulher do mundo", que a princípio foi julgada e hostilizada, mas depois provou ter um grande coração, e que isso vem acima das outras coisas...

As várias faces de Maria
Créditos das fotos: Blog De Cara pra Lua

Maria foi ridícula, sincera, irracional, extravagante, tarada, palhaça, amorosa, desinibida, corajosa, brega, engraçada, divertida... Foi tudo que toda mulher sente vontade de ser às vezes, em todos os momentos que queria, sem nunca reprimir-se com base no medo de ser negativamente julgada, seja pelos participantes do jogo, seja pelos telespectadores.

Eu já havia dito aqui no blog que o que fez Maria conquistar minha simpatia foi o fato de ela não ter medo de ser ridícula. Creio que esta é justamente a maior virtude de Maria: sua falta de orgulho. Afinal, que outra mulher teria coragem de humilhar-se para um homem, pedindo-o de volta, em rede nacional, um "fora" após o outro?

Não; enganei-me. O que mais adoro em Maria é o fato de ela ter me colocado de cara com o meu próprio preconceito. Carola e moralista como sou, devo confessar que nos primeiros dias de BBB senti uma terrível aversão por Maria, logo de cara. Mal quis conhecê-la pois julgava que fosse como toda mulher gostosa de BBB: do tipo que gosta de se exibir, que não tem nada para mostrar além do próprio corpo, e que vai se prender ao rótulo "autêntica" para tentar chegar a algum lugar o jogo - sendo que a autenticidade, no caso, seria relativa à falta de vergonha de exibir comportamentos excessivamente sensualizados.

E como me enganei! Não obstante os empregos de Maria serem relacionados ao sexo, Maria foi radicalmente menos "puta" que muitas outras ex-BBBs. Era, sim, sexualmente liberada, não tinha pudores, não tinha vergonha do próprio corpo e de assumir os próprios desejos, mas nunca, em nenhum momento, agiu como uma vadia - ao contrário de outras BBBs que, muito embora não trabalhassem com sexo fora do BBB, agiam sem o menor respeito, sempre esfregando seus traseiros nas caras dos colegas de confinamento. Se há, de fato, alguma "putaria" relacionada a Maria, só diz respeito ao aspecto profissional de sua vida. Se em algum momento foi demasiado permissiva para com seu próprio corpo, foi somente com seus parceiros (Maurício, e depois Wesley). 

Primeiro, Maria se envolve com Maurício e até descarta a possibilidade de viver um novo amor por sua causa.
Após ser destratada por ele, permite-se ser feliz com Wesley.
Como mulher, Maria é ousada, mas também é romântica, carente, uma mulher que quer ser amada. Chorou quando Pedro Bial disse que Maurício tinha mudado após o tempo que passou fora; chorou porque sentiu-se finalmente compreendida, após tantos sermões mal feitos que o rapaz dava a ela. Quem mudou não foi Maria: foi o que Maurício pensava dela. Ela ainda era a mesma mulher: verdadeira, sensível, sempre disposta a seguir seu coração, desprendida de qualquer preceito que a impunham. 

Várias vezes foi tachada de burra, foi criticada por não pensar antes de agir, por não ter amor-próprio ao correr atrás de Maurício, e até de vagabunda por ficar com dois homens em apenas 3 meses de reality show... Mas no fim das contas, Maria simplesmente não teve vergonha de ser Maria, e não teve medo das consequências de suas escolhas. Não teve vergonha de dar sua cara a tapa e julgar-se digna de R$1.500.000,00 mesmo sabendo o quanto a sociedade ainda condena garotas de programa. Não teve vergonha de aparecer desleixada, com o cabelo desarrumado preso de lado, quando era considerada uma das mais belas do programa. Não teve vergonha de continuar implorando o perdão de um homem que a desprezava, e quando por fim resolveu virar a página, não teve vergonha de ser julgada por beijar outro homem.

O casal de finalistas Maria e Wesley
Créditos das fotos: Blog De Cara pra Lua

É muito bom ver tanta gente torcendo por Maria, tanta gente se deixando cativar por seu jeito doce e divertido, a despeito de todos estes outros fatores que geralmente pesam muito contra uma mulher participante de Big Brother. E como seria bom ver uma mulher vencendo o BBB, após 5 anos! Ainda mais uma mulher como Maria. Seria uma vitória histórica, haja visto que várias outras mulheres já chegaram muito perto do prêmio, mas perderam porque a sociedade prefere eleger homens porque "ah, ela já vai ganhar muito dinheiro posando para a Playboy". E Maria vai mesmo... Mas e daí? Desde quando Big Brother é disputa de pobreza? ou de história de vida? Quem inventou que só pobre pode vencer?, ou que quem deve ganhar é quem terá menos chances quando sair do programa? Deve ganhar quem merece. 

E, se querem saber, muito embora eu torça por Maria, a vitória de Wesley ou Daniel também me deixaria contente. Como eu disse anteriormente, eis um trio que representa muito bem a ausência de preconceito, e cuja posição no jogo certifica a quantas anda a mentalidade dos brasileiros. 

Bêbado, Daniel beija o espelho
Daniel cativou o Brasil com sua espontaneidade, suas tiradas engraçadíssimas e as loucuras que aprontava nas festas, quando estava bêbado. 
Certamente essa graça toda não existiria se ele não fosse gay, mas o que achei mais legal foi justamente o fato de ele não ter levantado a bandeira gay.
Em 2010, uma vitória de Dicesar parecia ser imposta ao público, como se o povo precisasse torcer para ele para mostrar que não discrimina os gays. Mas eis que quem vence é um machão propagador do órgulho hetero... Lembro-me de ter lido em algum lugar uma análise interessantíssima da eliminação de Dicesar: "o povo não quer eleger um gay simplesmente porque ele é gay". Se foi mesmo verdade, achei super sensato por parte dos telespectadores do BBB.
Agora, em 2011, surge Daniel, que não tenta empurrar goela abaixo de ninguém os seus conceitos, apenas é quem é, age como quer, e inclusive, em seu modo de agir, porta-se muito mais como "homem" do que os outros "homens com H" da casa. Apesar de seu jeito efeminado, Daniel teve muito mais coragem que os outros heterossexuais da casa, assumia suas escolhas e gostos, não tinha medo de indicar ao paredão os participantes mais temidos pela casa - e diga-se de passagem que tal temor era puro fruto da imaginação dos BBBs; mal sabiam eles que o trio Rodrigão-Mau Mau-Diogo era detestado pelo público!


Créditos das fotos:
Blog De Cara pra Lua
Já Wesley se destacou por sua garra e pelo carinho com que trata Maria, logo conquistando a simpatia das mulheres, não somente por sua beleza, mas por seu jeito atencioso e amoroso.
Na minha opinião, o maior trunfo de Wesley é sua total falta de preconceito, que o fez criar laços de grande carinho e amizade com um gay que várias vezes se mostrou interessado nele - atitude que faria vários homens heterossexuais se afastarem! - além de apaixonar-se por uma suposta garota de programa e tratá-la como princesa  - exatamente o oposto do que Maurício fez.  

Enfim... Não tenho o costume de votar para os meus favoritos no BBB, apenas torço. E independente de quem sagrar-se vitorioso esta noite, darei-me por satisfeita, por saber que certos preconceitos já estão, aos poucos, sendo vencidos.

Só lamento que a sociedade ainda não esteja preparada para aclamar uma mulher como Natália, que infelizmente foi eliminada nas primeiras semanas. Natália foi uma mulher de pulso, com vocação para a liderança, que raciocinava rápido e gostava de mandar - características que, infelizmente, ainda são vistas como privilégios dos homens. Mas tudo bem. Só por saber que já é possível aceitar uma mulher como Maria (e torcer por ela também!), acho que já temos meio caminho andado...