sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O RPM foi compreendido?

Ontem a Rede Globo exibiu o especial "Por toda minha vida", desta vez contando a história da banda RPM. Assisti e achei o máximo, embora tivesse mais outras expectativas...

Ouço RPM desde menina e com certeza essa fase (rock brasileiro dos anos 80) é uma das que eu mais gostaria de ter vivido! Antes mesmo de eu nascer, a banda já havia acabado... Já escrevi aqui no blog sobre o meu fascínio pelo passado, e toda vez que ouço essas músicas ou vejo vídeos fico com este sentimento... O RPM ao vivo devia ser incrível...

Eu gosto muito de pesquisar sobre música, história da música e o contexto social das épocas em que as canções foram lançadas. A verdade é que não sei se tenho uma explicação perfeita que justifique o estrondoso sucesso do RPM – porque neste ponto todos concordam: nunca houve tanto estardalhaço no Brasil por causa de uma banda; os números comprovam: o primeiro álbum, “Revoluções por minuto”, de 1985, vendeu 500 mil cópias apenas no ano de lançamento, e o segundo, gravado ao vivo em 1986, bateu um recorde, chegando a 2 milhões de cópias vendidas. (Fonte: http://www.anos80.com.br/notorious/rpm_rpm.html; acesso em 05/11/10, às 15h).


A banda era incrível, as músicas eram super empolgantes e possuíam uma sonoridade inovadora e espetacular (como bem frisou Ney Matogrosso no documentário exibido ontem), letras geniais, Paulo Ricardo era carismático, os rapazes tocavam muito bem, etc e tal. Mas a minha dúvida é: foi mesmo a combinação de todos estes fatores que alçou a banda a tamanho estrelato?

Não era a primeira vez que jovens ousados e talentosos liderados por um rostinho bonito geravam tanta histeria. Há exatos 20 anos, Roberto, Erasmo e Wanderléa também estouraram com o programa Jovem Guarda, cantando canções com letras irreverentes (okay, hoje são puríssimas, mas para os anos 60 era bastante audaciosas; “Quero que vá tudo pro inferno” chegou a ser censurada), lançando moda e vendendo centenas de cópias de seus álbuns.

Tampouco era a primeira vez que um som totalmente novo, diferente de tudo que já se tinha ouvido, invadiu as rádios. Os tropicalistas, no final dos anos 60 e início dos anos 70, também faziam canções que mesclavam a recém-nascida MPB (nos moldes em que hoje a conhecemos) com as guitarras do rock’n’roll norte americano, e houve até quem incluísse samba, jazz e baião.

Portanto, qual foi o segredo do sucesso do RPM? Por que deu tão certo?

Seja qual for a linha de raciocínio adotada para tentar responder esta pergunta, não se deve deixar de fora a época em que tudo aconteceu: fim da ditadura militar, movimento Diretas Já, Rock in Rio. O RPM passava uma ideia de rebeldia muito grande, mas uma rebeldia “com causa”, com ideais. Ainda sim, não creio que tenham sido estes ideais que chamaram a atenção de tantos jovens que converteram-se em fãs. Creio que foi o próprio sentimento de identidade, de revolta, de estilo, que o RPM inspirava, somados à força da imagem que eles tinham, os shows cheios de iluminações especiais, as roupas que eles usavam... Afinal, não podemos nos esquecer que foi justamente nesta época que a imagem começou a ser uma grande aliada da música pop.

Arrisco até afirmar que o RPM estava, sem saber, preparando a massa consumidora de música pop para a grande revolução que começava a contagiar esta indústria e que ainda não tinha surtido efeitos em nosso país, mas que chegaria em pouquíssimo tempo. Madonna e Michael Jackson reinventaram a linguagem do videoclipe justamente nesta época (segunda metade dos anos 80), assim como criaram um novo estilo de fazer shows, com performances, coreografias, espetáculos de luz e som, tudo muito bem elaborado para chocar e ganhar os espectadores (já falei sobre isso numa postagem sobre Miley Cyrus aqui no blog, logo no final do texto).

É claro que o RPM tinha uma vertente totalmente distinta de Michael Jackson e Madonna; não pude, todavia, evitar traçar este paralelo. Eles fizeram música de qualidade, muita qualidade, mas não podemos ficar cegos ao fato de que a juventude e o sex appeal dos rapazes contribuíram muito para que conseguissem aquela fama surreal.

Afinal, o que levou os adolescentes dos anos 80 a se identificarem tanto com o RPM? Foi a aura de rock star que eles tinham?, foram as ideias propagadas nas letras das músicas?, ou foi tudo isso junto?
A mim, particularmente, o que mais encanta é o binômio som revolucionário + letras revolucionárias. Não à toa, revolução está no próprio nome da banda, que teve origem em uma das primeiras canções lançadas pela banda: Revoluções por minuto, a minha favorita deles, uma canção estupenda, genial (vejam o vídeo abaixo no Youtube).


O que são esses teclados catatônicos, essa coisa meio nave espacial? Simplesmente incrível; eu imagino como deve ter sido ouvir isso pela primeira vez em pleno ano de 1985. E a letra? Mesmo hoje, 25 anos depois, é atual, é muito inteligente, perfeita para um mundo que começava a lidar com os dilemas da globalização, do capitalismo que muito em breve predominaria em praticamente todo o mundo (o Muro de Berlim caiu em 1989, quatro anos depois do lançamento desta canção); e igualmente perfeita para o mundo de hoje, que ainda possui os mesmos problemas para resolver.

“Agora a China bebe Coca Cola, e na esquina cheiram cola; biodegradante, aromatizante tem. Sinceramente, sinto inveja da geração que tinha canções assim para ouvir nas rádios e tocar nas festas de colégio: animadas, com uma batida legal, e ao mesmo tempo uma letra ótima.

Tudo isto me leva a pensar se alguma banda atual será tão comentada e lembrada, nas próximas décadas, como o RPM continua sendo e sempre será. Certa vez li uma entrevista do empresário Tutinha (dono da Rádio Jovem Pan e criador do programa Pânico) na qual ele dizia que os artistas de hoje em dia são bons, mas não farão história. Acho que concordo.

Ainda nos anos 90 surgiram bandas muito boas - eu destaco o Skank -, mas e agora? Não é que eu não goste da música que está sendo feita atualmente; eu gosto, mas acho que não vai ser algo a ser transmitido de pai para filho, como são as músicas do RPM, Paralamas, Titãs, Kid Abelha e afins.

Mas, voltando ao RPM, e voltando à discussão... Uma banda que agrade mente e ouvidos ao mesmo tempo é digna de méritos mesmo.

Créditos da imagem: blog
Ocean of Noise
É justamente por isso que batizei este texto com este título. Quem analisa somente as letras do RPM, sem se atentar ao som, pode pensar que era uma banda altamente engajada, cujo compromisso maior era passar uma mensagem de ativismo, preocupação e indignação com tudo que estava acontecendo. Mas aí, quando você esquece as letras e ouve o som, você pensa que também era uma banda que queria fazer um som diferente, fazer realmente uma revolução musical. Por fim, quando você procura saber sobre todo o reboliço que eles causaram, pode pensar que tratou-se apenas de uma sensação teen, como tantas outras. No final das contas, “qual era” a do RPM? O que eles queriam, afinal?

Eu sou fascinada pelas letras das músicas deles. Até mesmo “Olhar 43” (essa nunca vai cair de moda), que era mais juvenil e menos politizada, tinha um jeito todo especial de enfatizar aquela sexualidade que permeava a cabeça dos jovens daquela época, jovens esses que nasceram de outros jovens que testemunharam e vivenciaram a revolução sexual; “filhos de Woodstock”, eu diria. Ademais, acho muito interessante a forma como a figura da mulher é colocada na letra da música: o eu lírico mostra-se interessado em uma mulher sedutora, enigmática, sensual, bonita, que tem consciência da atração que exerce, e que está disposta a brincar com os desejos dos homens; exatamente o tipo de personalidade que as mulheres dos anos 80 estavam criando coragem para assumir, após tantos séculos em que elas passaram aprisionadas ao estigma da mulher submissa e sexualmente reprimida.

Porém, eu tenho minhas dúvidas. Se a intenção do RPM era entrar para a história por causa das letras das músicas, acho que houve uma pequena frustração; afinal, não tenho que voltar no tempo (ainda que isso fosse possível!) tampouco preciso entrevistar adultos que foram jovens nos anos 80 para saber que nem todas as pessoas admiravam o RPM por causa das ideias, das mensagens. Tenho certeza de que muitos admiravam mesmo é o estilo, a imagem cool, ou simplesmente a beleza dos integrantes – e quanto a este último aspecto eu coloco boa parte da culpa em nós, mulheres, sempre enxergando nos ídolos famosos os príncipes que sonhamos para nós mesmas, caindo às vezes na futilidade e na superficialidade, prestando o ridículo papel de gritar e se descabelar por um corpinho. Isto sem mencionar aquela velha fantasia que as mulheres têm com os bad boys. Imagino que o Paulo Ricardo tenha se amoldado perfeitamente neste perfil idealizado pelas moçoilas da época.

Mesmo assim, mesmo com toda a frivolidade e idolatria vazia que pudessem existir, ainda assim aquela geração foi privilegiada. Talvez, passada a euforia, muitos deles hoje analisem as músicas e entendam que tinham um significado.

Por isso falei, no início do texto, que tinha mais expectativas em relação ao especial “Por toda minha vida”. Eu adoraria saber como foi o processo de composição das canções, o que eles estavam pensando, o que quiseram realmente dizer. Gostaria de saber se as interpretações que faço estão corretas. Mas, de qualquer jeito, foi ótimo. É sempre bom conhecer a história por trás da história, os bastidores. Sem mencionar que este tipo de acontecimento serve também para apresentar as velhas bandas às novas gerações.

Anyway...
O que importa é que eles deixaram um legado (tenho usado tanto esta palavra aqui no blog!) incrível, músicas que nunca vão envelhecer, e que muita gente continuará escutando por muito tempo ainda, seja para relembrar os velhos tempos, seja para tentar imaginar como eles foram... Eu me encaixo neste último tipo.

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